• 24 de setembro de 2021

Canabinóides: o que são, efeitos e benefícios

 Canabinóides: o que são, efeitos e benefícios

Eles funcionam a nível celular e podem influenciar em todo o corpo humano, ajudando a combater dezenas de condições. Mas por que a cannabis está relacionada?

Você já deve ter ouvido falar dos canabinóides, certo? Mas você realmente sabe o que eles são¿ Se você nunca ouviu falar, se prepare para uma informação chocante:  você possui canabinóides no seu corpo.

Eles são produzidos tanto em mamíferos quanto em plantas e vegetais. No organismo, eles são chamados de endocanabinóides ou canabinóides endógenos, e agem em vários sistemas no corpo, ajudando a equilibrar os níveis e substâncias.

Já nas plantas o nome correto é fitocanabinóides ou canabinóide exógeno, que funciona como uma espécie de proteção contra pragas, doenças e radiações ultravioletas.

Talvez você nunca deve ter ouvido falar deles porque os canabinóides são uma descoberta relativamente recente e funcionam a nível celular. Eles ainda estão sendo inseridos no meio médico, mas muitos profissionais já estão reconhecendo a sua importância.

No corpo

Nas pessoas e nos animais os canabinóides agem através de um sistema chamado Sistema Endocanabinoide(SEC). Ele funciona com receptores que são responsáveis de enviar as informações para as células sobre as mudanças que estão acontecendo.

Os mais conhecidos são o CB1 e o CB2. O primeiro, é responsável pela absorção dos canabinóides para todo o corpo humano, influenciando várias funções. Já o CB2, age com o Sistema Nervoso Central (SNC) e no sistema imunitário. Quando o canabinóide entra no organismo, ele ativa os receptores para se comunicar com as células. 

Este sistema está presente desde os primeiros estágios do feto e é de extrema importância na infância. No corpo, os canabinóides podem influenciar no sono, na fome no humor, na reação imunológica entre outras funções. Um exemplo é a anandamida.

Este canabinóide é produzido pelo próprio organismo e é responsável por acalmar e regular o sistema cardiovascular, além de trazer uma sensação de alegria. (Isso te lembra a cannabis, não é mesmo? você já vai entender o porquê)

Abaixo alguns exemplos de como os endocanabinóides influenciam no corpo:

  •         Ajuda a controlar a inibição da memória de curto prazo;
  •         Auxilia na resposta imune e anti-inflamatória;
  •         Aumento na frequência cardíaca, assim também como vasodilatação e broncodilatação;
  •         Neuroproteção diante de uma situação traumática (o que também ajuda com a falta de ar nestas situações);
  •         Diminuição da sensação de dor;
  •         No hormônio que gera o leite materno (isso faz com que o bebê consuma canabinóides vindos de fora do seu próprio corpo);
  •         Nos efeitos ansiolíticos, o que diminui alguns efeitos colaterais;
  •         Retarda o crescimento de tumores;
  •         Auxilia o sistema digestivo;

Os canabinóides endógenos são usados apenas quando necessários, como dito acima, os receptores sinalizam quando eles precisam agir. No entanto, quando há falhas no sistema ou escassez de canabinóides, as reações do corpo podem ficar desreguladas, e resultar em algumas doenças como: fibromialgia, artrite reumatoide, inflamação gastrointestinal, Alzheimer, câncer entre tantas outras.

Estas deficiências são conhecidas como Síndrome de Deficiência Clínica Endocanabinóide, ocorre com mais frequência quando o corpo não produz o mínimo de canabinóide necessário.

Um exemplo, é que os endocanabinóides são responsáveis por regular a serotonina. Quando eles não estão trabalhando direito, os níveis do composto podem subir e ocasionar enxaqueca, ou podem descer demais, o que é a causa da fibromialgia. Sem nada para sinalizar qual o ponto certo, pode surgir uma infinidade de complicações.

E o que a cannabis tem a ver?

A descoberta do novo sistema fez a ciência médica repensar muitas condições causadas pelo próprio organismo. Mas conhecer a raiz do problema, torna a solução mais fácil. 

Pesquisadores já descobriram alguns elementos que podem ativar os endocanabinóides, como o ômega 3. Também algumas plantas que contém canabinóides e podem suprir os que faltam, como a equinácea, a arruda e é claro, a cannabis.

Os canabinóides só ficaram conhecidos há poucos anos, por causa do professor israelense Dr. Raphael Mechoulam. Ele foi o primeiro a isolar um fitocanabinóide em 1963, onde pudesse ser extraído e usado separadamente. Se alguém não quisesse os efeitos alucinógenos, por exemplo, hoje é possível separar.

A técnica é muito usada atualmente em tratamentos, para aproveitar apenas um elemento, ou juntar apenas os desejados. Hoje, o professor é “pai” ou “pelé” da cannabis, por causa da descoberta. Atualmente, o país é um dos maiores pesquisadores das ações medicinais da cannabis no mundo.

A maneira que ele descobriu isso foi um tanto quanto curioso. Na primeira vez que o Dr. Raphael Mechoulam isolou um canabinóide chamado tetra-tetraidrocanabinol (THC), ele resolveu fazer uma experiência, testando nos seus amigos.

Mechoulam fez dois bolos, um levava o THC e o outro era um bolo comum. O resultado foi certeiro: Aqueles que comeram o bolo com o ingrediente surpresa tiveram os mesmos efeitos de quem fuma a cannabis tem: vermelhidão nos olhos, fome e euforia.

Na segunda noite, o professor decidiu fazer mais uma experiência, desta vez com o canabidiol (CBD), outro canabinóide presente na cannabis. O resultado foi diferente do primeiro, não houve nenhum efeito sob os convidados.

Desde então mais canabinóides foram descobertos e seus efeitos mais explorados separadamente.  Os mais famosos são o THC e o CBD, principalmente para tratar epilepsias e convulsões.

Esta é a razão da palavra “canabinóide” ter sido derivada da cannabis. Foi também através das investigações das propriedades medicinais da cannabis que o Sistema Endocanabinóide foi descoberto.

Os canabinóides na cannabis

A cannabis se destaca não só pelos canabinóides, mas também pelos terpenos e flavonóides, que também tem ações benéficas no organismo, como anticancerígenas e anti-inflamatórias, mas esta é uma explicação para outro artigo.

A cannabis ganhou notoriedade porque seus mais de 100 tipos de canabinóides conhecidos, que também  são bem parecidos com os que produzimos no nosso corpo, com o poder de até substituí-los. Os canabinóides da planta não são prejudiciais, pois o corpo absorve com mais facilidade, entendendo que aquilo é produzido por ele também.

Por isso que é impossível uma pessoa morrer de overdose consumindo maconha.

Os canabinóides na planta estão em estado chamado de “ácido carboxílico”, o que significa que estão praticamente inativos. Para ativá-los é necessário passar por um processo chamado descarboxilação, onde através da luz, do calor ou máquinas, é possível ter os efeitos.

Porém, é preciso entender que a cannabis é um gênero de plantas, que tem três espécies: A índica, a sativa e a ruderalis. Entre elas há inúmeros cruzamentos de espécies e polinizações diferentes, além das que são geneticamente modificadas.

Por isso, cada tipo de cannabis possui uma concentração de canabinóides diferentes, que pode gerar efeitos contrários uns dos outros.  Também podem concentrar mais um tipo de canabinóide do que o outro.

 É o caso do cânhamo e da maconha, por exemplo. Ambas são originárias da cannabis sativa, no entanto, a primeira não tem quase nada de THC e é rica em CBD. Já a maconha é conhecida justamente pela alta concentração de THC.

A ação destes canabinóides, também chamados de fitocanabinóides no organismo, é como um suprimento externo, que age como canabinóides produzidos pelo próprio corpo auxiliando nas suas deficiências.  

Tipos de canabinóides

Hoje, cada vez mais os pesquisadores descobrem tipos de canabinóides e os seus efeitos. Eles se diferem entre “grandes” e “pequenos”, onde a presença de alguns é  maior que outros. Boa parte deles são tão pequenos, que são difíceis de se estudar, por isso, não há muitas pesquisas.

Um fato curioso é que alguns tipos de canabinóides se transformam em outros em estágios diferentes da planta. Outra coisa interessante é que alguns deles aparecem quando a cannabis ainda é nova e desaparecem quando ela envelhece, assim também como alguns outros canabinóides, que só aparecem quando a planta está velha.  

Todos eles encontrados têm diferentes propriedades e efeitos sobre o corpo humano, mas também algo em comum: Eles afetam as percepções de dores e a interação com o sistema límbico, que está relacionado à cognição, memória, ações psicomotoras e também a vista mesolímbica, relacionada a sentimentos e reações gratificantes.

Como dito antes, os mais conhecidos são o THC e o CBD, mas há centenas de outros canabinóides tão importantes quanto estes, que podem ajudar a tratar de glaucoma, fibromialgia e até acne, mas vamos falar destes dois.

Crédito: Dra. Paula Dall’Stella

Canabinóides principais

CBD

Além de não possuir ações alucinógenas, ele é eficaz no tratamento de várias condições diferentes, que vão de Alzheimer a Parkinson. Em países liberados ele aparece de várias formas diferentes, como comestíveis, óleos, vaporizadores, comprimidos e em tudo o que puder ser inserido.   

Atualmente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou a vende de apenas um fitofarmacêutico à base do canabinóide nas farmácias. O problema é que a matéria prima tem que ser importada, por isso o produto custa mais de dois salários mínimos.

Por isso, muitas pessoas que precisam do óleo para tratar alguma condição, preferem comprar de cultivadores na forma ilegal ou pedir autorização estadual para o plantio doméstico.

Como todo o medicamento, o CBD também pode causar alguns efeitos indesejados, mas por ser um remédio natural, os efeitos são mais tranquilos, como sonolência.  

THC

Apesar de ser o responsável pelo efeito alucinógeno da cannabis, ele também tem reações benéficas sobre dezenas de doenças, que vão de dores neuropáticas à câncer. Os medicamentos geralmente são feitos com 0,3% do canabinóide e quantidades maiores também não influenciam tanto na ação intoxicante.

Os efeitos colaterais geralmente são mais fortes que o CBD, mas nada para se preocupar. Outro fato curioso é que os dois canabinóides podem ajudar nas mesmas doenças, ou pelo menos na maioria delas. O que vai influenciar o paciente é a sua própria genética, depende do próprio corpo decidir qual tem um efeito maior ou não.

Não há remédios de THC no Brasil, por isso, eles devem ser importados com uma autorização excepcional da ANVISA.  Ambos Podem ser extraídos através do cultivo, mas o plantio deve ser autorizado pela justiça.

Outros canabinóides estudados

Como dito acima, a cannabis tem mais de 100 canabinóides, alguns deles já estão sendo estudados e suas propriedades medicinais testadas. Elas são bem parecidas com o THC e CBD, mas também podem incluir outros benefícios.

CBN

Este é um canabinóide é considerado pequeno, mas pode que auxiliar em tratamentos de algumas doenças, desde infecções causadas por bactérias até inflamações graves. Uma curiosidade é que ele também serve como neuroprotetor, ou seja: é capaz de prevenir o surgimento de condições como autismo, por exemplo.

CBG

Em alguns experimentos com camundongos, o CBG conseguiu diminuir as inflamações intestinais, proteger os neurônios, combater receptores que causam o crescimento de células cancerígenas e no futuro, pode ser útil até em distúrbios relacionados à bexiga.

CBGA

Ele também pode influenciar de maneira positiva em doenças como distúrbio metabólico, câncer de colo e doenças vasculares. Um jeito de consumir uma grande quantidade deste canabinoide, é ingerir o cânhamo puro, que se refere a cannabis sativa recém-colhida contendo pouco ou nenhum THC.

CBC

Embora o composto tenha seus próprios benefícios, os pesquisadores também acham que isso pode ter algum vínculo com outros canabinóides, um termo conhecido como efeito entourage. Esse efeito do THC e do CBD trabalhando juntos e é bem conhecido, mas ainda não se sabe se outros canabinóides têm o mesmo efeito. Isolado, ele pode ajudar com no combate contra o câncer, dores e inflamações, depressão e acredite ou não, até a acne.

CBL

Pelo fato do CBL não ser intoxicante, é possível que tenha mais semelhanças com o CBD do que o THC. Dependendo das propriedades e efeitos sobre os receptores humanos, há a possibilidade de que o CBL possa compartilhar alguns ou muitos dos usos de outros compostos da cannabis, como: Estimulação do apetite, ajudar no sono, aliviar a dor, reduzir a ansiedade, prevenir toxinas, habilidades anti-inflamatórias, humor e até câncer.

CBDV

O cannabidivarin é derivado do cânhamo. Bem parecido com o CBD, é usado em um medicamento britânico para convulsão. Sua pesquisa mostrou que esse composto pode afetar a via neuroquímica dos receptores envolvidos, tanto no início como durante o progresso de diversos tipos de epilepsia. A GW relatou que esse canabinóide tem mostrado resultados antiepiléticos.

THCV

Ao contrário do THC, que causa fome, esse composto pode diminuir o apetite. Algumas pesquisas também sugerem que o canabinóide pode controlar os níveis de açúcar no sangue e reduzir a resistência à insulina. Ele também pode autuar nas células ósseas, ajudando no crescimento. Estudos mostram que o THCV também pode ser eficaz no tratamento de Alzheimer e ataques de pânico.

THCA

O que já foi descoberto é que o THCA pode ajudar como: anti-Inflamatório, contendo propriedades para tratamento de artrites e lúpus; Neuroprotetor, ajudando no tratamento de doenças neurodegenerativas;  Anti-Emética para o tratamento de náuseas e perda de apetite; Anti-proliferativo, com propriedades que podem ajudar no tratamento de câncer de próstata.

Outros canabinóides identificados

Além destes, há também muitos outros canabinóides presentes na cannabis que ainda estão aparecendo, pois as suas descobertas são recentes, alguns são mais parecidos com o CBD, feito a partir dele ou até antes do canabidiol. Como é o caso do THC também e outros canabinóides citados acima, por isso, seus nomes são relacionados.

Semelhantes ao CBD

  • Ácido canabidiólico (CBDA)
  • Cannabidiol monometiléter (CBDM)
  • Canabidiorcol (CBD-C1)
  • Canabidivarina (CBDV)
  • Ácido canabidivarínico (CBDVA)

Semelhantes ao THC

  • Delta-9-tetrahidrocanabinol-C4 (THC-C4)
  • Delta-9-ácido tetrahidrocanabinólico A (THCA-A)
  • Delta-9-ácido tetrahidrocanabinólico B (THCA-B)
  • Delta-9-ácido tetrahidrocanabinólico C-$ (THCA-C4)
  • Delta-9-tetrahidrocanabiorcol (THC-C1)
  • Delta-9-ácido tetrahidrocanabiocólico (THCA-C1)
  • Delta-9-tetrahidrocanabivarina (THCV)
  • Delta-9-ácido tetrahidrocanabivarínico (THCVA)
  • Delta-8-tetrahidrocanabinol (Δ8-THC)
  • Delta-8-ácido tetrahidrocanabinólico (Δ8-THCA)

Semelhantes ao CBC

  • Ácido canabicromenenico (CBCA)
  • Canabicromevarina (CBCV)
  • Ácido canabicromenvarínico (CBCVA)

Semelhantes ao CBG

  • Canabigerol monometiléter (CBGM)
  • Ácido canabigerólico (CBGA)
  • Ácido canabigerólico monometiléter (CBGAM)
  • Canabigerovarina (CBGV)
  • Ácido canabigerovarínico (CBGVA)

Semelhantes ao CBL

  • Ácido canabiciclólico (CBLA)
  • Canabiciclovarina (CBLV)

Canabinóides não mencionados mas que também estão presentes na cannabis

Semelhantes ao CBE

  • Canabielsoin (CBE)
  • Ácido canabielsoico A (CBEA-A)
  • Ácido canabielsoil B (CBEA-B)

Semelhantes ao CBND e CBVD

  • Canabinodiol (CBND)
  • Canabinodivarina (CBVD)
  • Canabinol (CBN)
  • Canabinol metiléter (CBNM)
  • Canabinol-C2 (CBN-C2)
  • Canabinol-C4 (CBN-C4)
  • Ácido canabinólico (CBNA)
  • Canabiorcool (CBN-C1)
  • Canabivarina (CBV)

Semelhantes ao CBT

  • Canabitriol (CBT)
  • Canabitriolvarina (CBTV)
  • 10-Etoxi-9-hidroxi-delta-6a-tetrahidrocanabinol
  • 8,9-Di-hidroxi-delta-6a-tetrahidrocanabinol

Semelhantes a Miscelânea

  • 10-Oxo-delta-6a-tetrahidrocanabinol (OTHC)
  • Canabicromanon (CBCF)
  • Canabifuran (CBF)
  • Canabiglendol
  • Cannabiripsol (CBR)
  • Canbicitran (CBT)
  • Dehidrocanabifuran (DCBF)
  • Delta-9-cis-tetrahidrocanabinol (cis-THC)
  • Tri-hidroxi-delta-9-tetrahidrocanabinol (triOH-THC)
  • 3,4,5,6-Tetrahidro-7-hidroxi-alfa-alfa-trimetil-9-n-propyl-2,6-metano-2H-1-benzoxocin-5-metanol (OH-iso-HHCV)

 

Tainara Cavalcante

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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