• 25 de junho de 2022

Fibromialgia e Cannabis: tratamento, benefícios e estudos

 Fibromialgia e Cannabis: tratamento, benefícios e estudos

foto – Fine Art America

Os estudos da cannabis medicinal no tratamento de dores não são novos,  e cada dia aparecem mais. Por isso, é mais que comprovado que a planta funciona.

A Fibromialgia é uma doença crônica e sem cura. Ela é caracterizada principalmente por dores fortes por todo o corpo, além de outros sintomas. Por muitas vezes, ela está relacionada a fatores emocionais, como ansiedade, depressão e estresse. Outras vezes, pode ser ocasionada por fatores do sistema nervoso.

Mas de uma coisa é certa: independentemente de qual seja a causa, a fibromialgia pode dificultar a realização de tarefas simples, como lavar os pratos, abaixar para pôr o sapato e até um abraço pode ser doloroso.

Por não ser totalmente compreendida ela ainda gera muitas estigmas e preconceitos. As dores “inexplicáveis” podem gerar um sofrimento solitário, que por vezes, pode piorar problemas psicológicos. E não são poucos os que sofrem com a doença.

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O problema afeta 4% a 6% da população global, de 18 a 65 anos. No Brasil, ela atinge cerca de 3% da população, isso significa quase 7 milhões de brasileiros, principalmente mulheres de 35 a 44 anos.

O caminho para tratar a síndrome é longo, pois ela pode estar relacionada a diversas outras condições, como doenças autoimunes ou inflamatórias. É sempre importante lembrar do acompanhamento médico, a automedicação pode ser um problema que pode piorar as dores e os demais sintomas.

Usar a cannabis para o tratamento da fibromialgia não é algo incomum. A planta é conhecida por tratar dores crônicas até pela ciência, que já tem demonstrado em inúmeros estudos a eficácia no tratamento de as dores neuropáticas e também nociceptivas.

Estudos sobre a cannabis nas dores mostrou até a diminuição do uso de opioides e redução dos seus efeitos internos.

Mas o que é fibromialgia?

A Sociedade Brasileira de Reumatologia define a fibromialgia como uma síndrome clínica, que se manifesta com dores por todo o corpo. Por isso, é difícil saber exatamente onde dói, se é nas articulações ou nos músculos. Por muitas vezes os pacientes relatam que não há um lugar que não sinta dor, onde até um abraço pode ser dolorido.

Isso causa uma certa dificuldade de identificar as causas, pois não há exames clínicos e nem imagens de ressonância que mostrem as causas da dor. Sem contar que ela pode estar relacionada a outras condições tanto físicas quanto emocionais.

De forma resumida, ela acontece quando os sentidos da dor ficam muito sensíveis, por isso, qualquer coisa pode ativá-los. Infelizmente não tem cura, mas quanto mais cedo encontrar a causa, mais fácil é para aliviar os sintomas.

A doença é predominantemente feminina, de nove em cada dez diagnósticos, apenas um é para homens e até hoje não foi possível detectar um motivo para isso.

Para diagnosticar a síndrome, os médicos tinham que tocar em 18 pontos do corpo do paciente, se eles estivessem dolorosos, então a pessoa tinha a doença. Hoje, no entanto, as coisas mudaram um pouco.

Hoje, outras coisas são levadas em consideração, como:

  •         Muita sensibilidade ao frio;
  •         Diarreia ou prisão de ventre;
  •         Suor excessivo;
  •         Vontade frequente de fazer xixi;
  •         Cansaço sem reparação (também chamado de cansaço crônico);
  •         Problemas de memória e de concentração;
  •         Dores espalhadas em pelo menos 5 ou 6 partes do corpo com pelo menos três meses.

Preconceito

Além das dores e dos sintomas mencionados acima, o paciente que sofre com fibromialgia também têm que lidar com o preconceito até pelos médicos. Ainda há profissionais que não reconhecem a síndrome, pois não há exames para provar.

Vários pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) por exemplo, queixam-se da falta de terapeutas aptos para tratar os “fibromialgicos” como preferem ser chamados. 

O preconceito por vezes também na família, no trabalho e nos olhares, que sem um diagnóstico e tratamento preciso, acabam agravando ainda mais a situação dos pacientes. 

A pauta voltou às discussões depois que a cantora Lady Gaga trouxe o assunto à tona. Ela precisou cancelar o show que faria no Rock In Rio em 2017, por conta da doença.  Ela também abordou o assunto no documentário “Gaga: Five Foot Two” feito pela Netflix.

O que pode causar fibromialgia?

A síndrome pode ser causada tanto por fatores externos, ligados a infecções, fibras nervosas, alteração neuroquímica, até fatores psicológicos, como traumas, estresse, depressão, ansiedade.

Densidade das fibras nervosas. A descoberta relativamente recente, realizadas pelo Centro Médico e Hospital Northridge, também na Universidade North Centra nos Estados Unidos, mostraram que pacientes com a condição, costumam apresentar uma menor densidade de fibras nervosas na epiderme, aquela última camada de pele que possuímos, que fica exposta e entra diretamente em contato com o exterior. No entanto, apenas 20% dos pacientes possuem esta condição.

Infecções. A fibromialgia pode ser o resultado de algumas infecções bacterianas ou virais, que podem ou não deixar o corpo mais sensível ao frio, ao excesso de esforço, alterações hormonais e até à umidade.

Alteração no sistema nervoso.  Outro motivo pode estar ligado ao Sistema Nervoso Central. Uma alteração neuroquímica pode alterar a percepção da dor, diminuindo as moléculas que controlam as sensações de dores e um aumento nas moléculas que ampliam a dor. É o que causa uma maior sensibilidade, comparado as demais pessoas.

Depressão e ansiedade. As condições têm chances de andarem juntas.  Elas podem tanto desenvolver a fibromialgia quanto ser uma consequência dela. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Georges Christopoulosa em entrevista ao R7, 50% dos pacientes com fibromialgia, também sofrem com depressão.

A Associação Americana de Ansiedade e Depressão,  também declarou que 20% das pessoas que sofrem com dores crônicas, também apresentam alguma síndrome psicológica.  Por isso nestes casos, é recomendável trabalhar tanto a dor física como a emocional em conjunto.

Estresse e trauma. Fatores externos e sentimentais também podem ser a causa das dores excessivas, como situações de estresse acumulado, relacionamentos desgastantes ou términos, perdas de entes queridos, conflitos, traumas da infância.

 E até acidentes automotivos, que tenham causado alguma influência na região do pescoço. Eles podem servir de gatilho para o desenvolvimento da síndrome ou então, agravar o problema.

Deficiência Clínica de Endocanabinóides. O nosso corpo produz algumas substâncias chamadas endocanabinóides ou canabinóides endógenos que ajudam a manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio do corpo. Eles atuam em quase todos os sistemas, a nível celular, produzindo fome, sono, cansaço, dor entre outros.

Quando o corpo não produz o suficiente, algumas funções podem ficar alteradas, o que pode gerar doenças, como a fibromialgia.

Tratamento

Achar um tratamento que ajude a aliviar os sintomas não é fácil. Primeiro, porque a doença não tem cura. Segundo, que a fibromialgia pode estar relacionada a outras causas, mencionadas acima, por isso, é importante identificar a causa do problema.

O processo acontece com “exames eliminatórios” onde o paciente se dispõe a realizar diversos testes para doenças que causam dores tão incômodas. Às vezes a jornada é longa e demorada, mas quando descoberta a causa da condição, um tratamento direcionado pode ser essencial para aliviar os sintomas.

A parte não medicamentosa é tão importante quanto os remédios para tratar. Como a prática de exercícios físicos frequentes, por exemplo, que diminuem consideravelmente as dores, pois previnem a contração dos músculos.

Opções para aliviar a dor podem estar também com acupuntura, yoga e tai chi chuan.

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A qualidade do sono pode ajudar bastante também. Pessoas que dormem mal tendem a ficar mais estressadas, fatigadas e ansiosas, o que também são sintomas relacionados à fibromialgia.

Se o problema está relacionado a condições emocionais, o uso de antidepressivos e anticonvulsivantes podem ajudar também, pois podem regular os neurotransmissores das sensações.

No entanto, é preciso lembrar, que este método é direcionado aos problemas de alteração do humor, a ação no cérebro no controle da dor é uma consequência.

Outro método menos usado, mas eficaz é a cannabis medicinal. É cientificamente comprovado que ela pode aliviar consideravelmente as dores causadas pela doença e vamos explicar o porquê.

A cannabis para tratar a fibromialgia.

Não é de hoje que a cannabis serve para aliviar as dores, há séculos boticários já indicavam a planta, para muitos tipos de dores. No século XX ela era muito usada para o tratamento de cálculos renais. E atualmente, diversos estudos já mostraram a eficácia da cannabis para tratar dores crônicas.

Nos Estados Unidos, a cannabis está ficando tão popular para combater a condição, que virou até produto. Uma empresa americana desenvolveu um adesivo para fibromialgia feito de cannabis. O produto também serve para pacientes com neuropatia diabética

Outra descoberta sobre a planta, foi o seu poder de reduzir o uso de opioides consideravelmente, segundo um estudo realizado na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Dos pacientes que participaram da pesquisa, 64% relataram uma redução nas drogas pesadas para a dor.

 45% dos participantes ainda acrescentaram uma melhora na qualidade de vida, pelos poucos efeitos colaterais e diminuição dos efeitos internos causados por outros medicamentos.

Os resultados foram a confirmação que a planta é tão eficaz quanto medicações pesadas, como opióides e até morfina. E por ser um remédio natural, os efeitos são bem menores, pelo menos muito mais que medicações fortes.

Como a cannabis funciona e consequências

Isso acontece porque os canabinóides, substâncias presentes na cannabis, agem diretamente em um receptor no do nosso corpo chamado CB2,  que influencia o Sistema Nervoso Central, auxiliando no equilíbrio dos comandos do organismo a nível celular.

 As substâncias da planta interagem com os canabinóides do nosso próprio corpo para a sintonia. O que de certa forma, tem a capacidade de auxiliar o a sensibilidade excessiva que ocasiona a fibromialgia.

Como todos os medicamentos, pacientes que usam a cannabis também podem sentir alguns dos efeitos colaterais, como dores de cabeça, fome excessiva, sonolência náuseas e boca seca. No entanto, os efeitos são mais leves e a maioria não tem.

Mais estudos

Outro estudo israelense feito por dois centros especializados em fibromialgia em 2017. Ao todo, foram 27 pacientes acima dos 30 anos com fibromialgia há mais de dois anos, que utilizaram a cannabis entre 10 a 11 meses, e todos eles relataram uma melhora significativa das dores.

A metade do grupo ainda relatou que havia parado de tomar os remédios tradicionais e ficou apenas com a cannabis. Sobre os efeitos adversos, 30% deles mostrou algumas queixas, como dores de cabeça, fome excessiva, sonolência e os outros sintomas da cannabis mencionados acima.

Outro estudo realizado também em Israel, agora com 397 pacientes, testaram o tratamento alternativo por seis meses. Logo após o início, as melhoras já foram significativas, 50% relataram uma redução na dor.

Uma pesquisa realizada na Fundação Nacional da Dor nos Estados Unidos, país regularizou o uso medicinal da planta em 47 estados,  sugere que a planta está no topo dos remédios comprados para tratar dores crônicas no país.

THC pode ser mais eficaz

Outra pesquisa Holandesa de 2019 testou dois tipos de canabinóides diferentes: o canabidiol (CBD) e o tetra-tetraidrocanabinol (THC) para saber qual era mais potente.  Os cientistas trouxeram também mais uma peça chave, alguns placebos para entender se os efeitos eram psicológicos.

Os 20 participantes dos estudos foram divididos em grupos, que depois de inalar as substâncias fizeram um tipo de teste de pressão. Os membros do corpo onde sentiam mais dores eram pressionados até que a pessoa se queixar da dor.

O canabinóide THC se mostrou mais eficiente nos testes de toque. No entanto, é importante ressaltar que cada pessoa reage de forma única. Em muitos casos o THC pode não ser útil, mas outro canabinóide sim.

Há ainda muitos outros estudos sobre o tema, por isso, a cannabis é mais que confiável para o tratamento de dores e também da fibromialgia.

Como conseguir a cannabis

A cannabis no Brasil é proibida, salvo pela cannabis medicinal que só pode ser usada com prescrição médica e se for o último recurso disponível. No Brasil, há a venda de um remédio à base de CBD nas farmácias, mas o THC deve ser importado com uma autorização excepcional da Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA).

No entanto, este método é bastante caro. Outra opção é achar uma associação que possa te ajudar a conseguir o óleo ou pedir a autorização da justiça estadual para plantar em casa.

 

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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