• 27 de outubro de 2020

Cannabis medicinal: como pode ajudar no tratamento de doenças

 Cannabis medicinal: como pode ajudar no tratamento de doenças

Discussões acerca do uso medicinal da Cannabis, popularmente conhecida como maconha, não são novas.

Contudo, o incentivo à pesquisa e o abandono de preconceitos se fazem cada vez mais necessários frente aos já comprovados benefícios da planta no tratamento de doenças crônicas, tais como o Alzheimer, epilepsia e câncer

A cannabis pode ser do tipo ruderalis, indica ou sativa, sendo esta última a mais comum dentre elas.

Quando seca, configura uma das drogas psicoativas mais populares do mundo, cujo uso recreativo é autorizado em países como Uruguai, Canadá e alguns estados dos EUA. 

Planta da Cannabis

Cannabis e suas propriedades medicinais

Enquanto os debates quanto a legalização da maconha e de seu uso medicinal crescem, a curiosidade quanto às suas propriedades terapêuticas aumenta proporcionalmente. 

A cannabis possui mais de 400 componentes, muitos deles  com propriedades ainda desconhecidas pela ciência.

Dentre essas substâncias, as mais conhecidas e importantes são o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), responsáveis pela maioria de seus efeitos terapêuticos. 

Ambos interagem diretamente com o sistema endocanabinóide, porém de maneiras significativamente distintas.

CBD x THC

Enquanto o tetrahidrocanabinol  é a principal substância psicoativa da maconha, responsável pelos efeitos alucinógenos de seu uso, o canabidiol  – componente mais abundante na planta – não possui efeito psicoativo e é associado à diversas propriedades medicinais e curativas.

Também por isso, o canabidiol tem sido o principal objeto de estudo por cientistas de todo o mundo.

É justamente a interação entre estes e outros canabinóides que gera o chamado Efeito Entourage, termo cunhado pelo pesquisador Simmom Ben-Shabat.

Trata-se do nome dado à ação combinatória de diferentes elementos químicos no organismo, resultando em um efeito maior que os elementos separados.

Segundo estudos, a maconha já era utilizada para o tratamento da dor há 2.900 anos a.C. [2] Porém sua aplicação baseava-se apenas no conhecimento empírico. 

Hoje, no entanto, já existem ferramentas suficientes para investigar a ação dos ativos da cannabis no organismo, bem como testar e comprovar cientificamente as suas propriedades medicinals. 

Uso medicinal da maconha no tratamento de doenças

Diversos estudos apontam para os efeitos positivos dos canabinóides sobre o organismo.

Um dos mais recentes, realizado pelo Departamento de Farmácia, da Universidade de Ciências Médicas da Macedônia, mostra que o canabidiol pode ajudar a reduzir dores crônicas e a reduzir a inflamação do organismo. [3

Dentre outras aplicações possíveis para o componente estão:

Depressão: em animais, o efeito do canabidiol mostrou-se semelhante ao dos antidepressivos, por conta de sua capacidade de atuar sobre os receptores de serotonina. [4]

Câncer: a administração de medicamentos à base de canabidiol pode ajudar a reduzir as dores, náuseas e vômitos, efeitos colaterais comuns durante a quimioterapia. [5]

Acne: estudos apontam que o canabidiol pode auxiliar no tratamento da acne, por conta de suas propriedades anti-inflamatórias. [6]

Coração: o canabidiol atua como um potente antioxidante, reduzindo o chamado estresse oxidativo e, consequentemente, diminuindo os danos ao sistema cardiovascular. [7]

Cérebro: diversos estudos apontam para a capacidade neuroprotetora do canabidiol, auxiliando no tratamento de distúrbios neurológicos, como a epilepsia, melhorando a qualidade de vida de pacientes com Parkinson e diminuindo a neurodegeneração decorrente do Alzheimer. [8]

Epilepsia: uma das atribuições da cannabis medicinal de maior destaque é no tratamento da epilepsia e das crises convulsivas refratárias, resistentes à abordagem medicamentosa tradicional.

Neste caso, o CBD mostra-se altamente eficaz, reduzindo a frequência e a duração das crises de maneira segura e com poucos efeitos colaterais. [9]

Dor crônica: a cannabis é milenarmente utilizada no tratamento de dores crônicas.

Segundo estudos, os nervos periféricos, responsáveis pela sensação de dor, possuem uma grande quantidade de receptores sensíveis aos canabinóides, ajudando a diminuir a dor e a inflamação. [10]

Uso veterinário: animais com problemas neurológicos, imunológicos, dermatológicos, em tratamento quimioterápico, entre outros, também podem se beneficiar do tratamento com CBD, já que o sistema endocanabinóide é difundido em todo o reino animal. [11]

Uso preventivo: há evidências de que a cannabis medicinal pode não somente auxiliar no tratamento de doenças como também preveni-las.

A lista inclui doenças cardiovasculares, depressão, doenças imunológicas, câncer, glaucoma, esclerose múltipla, Parkinson, Alzheimer, entre outras. [12]

Como obter o canabidiol

Existem países, por sua vez, onde o uso da maconha é liberado apenas e somente para fins terapêuticos. O Brasil entrou para essa lista em 2015.

Aqui, para ter acesso ao medicamento, além da prescrição médica, o paciente deveria obter a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importação.

Ou então comprar  o único medicamento disponível nas farmácias que custa mais de dois mil reais.

Há também outras opções mais em conta, como associações, que cobram valores menores ou dependendo das condições da família disponibilizam de graça; ou até mesmo cultivadores locais.

Essa última opção é um pouco arriscada, pois não há uma garantia de qualidade e nem do produto em si.

Legislação

Com os crescentes estudos comprovando sua eficácia e a cobrança por menos burocracia na aquisição de medicamentos a base de cannabis, foi-se necessário rever as decisões quanto a venda e o cultivo da planta em território nacional. 

Assim, desde o dia 3 de dezembro de 2019 a Anvisa autorizou a aquisição de “produtos à base de cannabis”, que ainda não englobam a classe dos medicamentos, mas produtos.

Eles só devem ser comprados em farmácias sob prescrição médica, sendo vedada a sua manipulação. 

O prazo de vigor  é de 90 dias à partir da publicação da decisão do Diário Oficial, por isso, a nova legislação entrou em março, com a primeira aprovação de produto em abril. 

Agora, pesquisadores e entusiastas da maconha medicinal lutam pela descriminalização do cultivo em território nacional.

Segundo os especialistas, a geografia brasileira oferece condições favoráveis para o plantio de cannabis em larga escala, o que baratearia os medicamentos, diminuindo a burocracia e facilitando sua aquisição. 

Por outro lado, parte da população acredita que o plantio da cannabis para fins medicinais e científicos no Brasil abriria margem para o tráfego e para a dependência de drogas ilegais.

Contudo, diversos estudos mostram que o canabidiol não causa dependência química e seu uso mostra-se eficaz no tratamento e controle de diversas doenças. 

Há até uma lei tramitando na Câmara dos deputados para o cultivo medicinal e industrial. O projeto de Lei 399/2015 está causando polêmica tanto entre apoiadores quando contrários.

Conheça o sistema endocanabinóide

O corpo humano é um complexo cheio de sistemas interdependentes que, juntos, garantem o funcionamento adequado e saudável de todo o organismo.

Alguns desses sistemas são mais conhecidos, como o digestivo, respiratório, reprodutor e cardiovascular. Outros, no entanto, ainda não fazem parte do conhecimento da maioria da população, o que não reduz sua importância. 

O sistema endocanabinóide foi descoberto na década de 90, por cientistas que estudavam o THC e seus efeitos no organismo.

Curiosamente, este sistema está presente em todos os seres humanos, ainda que estes jamais tenham tido qualquer contato com a maconha. 

Hoje, sabe-se que ele contribui e regula algumas funções centrais do corpo, como o sono, humor, apetite, memória, fertilidade, entre outros.

O ECS é uma coleção de receptores e enzimas que funcionam como sinalizadores entre células e os processos do organismo. 

Os endocanabinóides e seus receptores estão incorporados em todas as membranas celulares do corpo, no cérebro, nos órgãos, nos tecidos conjuntivos, nas glândulas e nas células imunológicas. 

Quer saber mais? Veja tudo sobre o Sistema Endocanabinóide. 

Receptores CB1 e CB2

Pesquisadores identificaram dois receptores canabinóides, o CB1 e o CB2. O primeiro é amplamente encontrado no sistema nervoso central e é especialmente estimulado pelo THC.

O segundo, por sua vez, é encontrado no sistema imunológico e é ativado principalmente pelo CBD. 

Algumas células contém ambos os receptores, cada um deles ligado a diferentes funções, porém com o mesmo objetivo: manter o organismo em equilíbrio, apesar das variações do ambiente externo. 

Pesquisas mostram que o ECS está diretamente relacionado a algumas das funções mais importantes do organismo, como memória, aprendizado, apetite, metabolismo, controle da dor, estresse, sono, humor, imunidade, entre outros.

Isso explica muito sobre como a cannabis medicinal exerce forte influência sobre o organismo e os muitos benefícios já comprovados da cannabis medicinal para a saúde. 

Tipos de uso

A cannabis medicinal pode ser comercializada e utilizada de diversas maneiras. A mais comum é por inalação (fumada), comumente recreativo, o qual proporciona um efeito mais rápido e intenso sobre o organismo, com potencial psicoativo.

Para fins medicinais, o mais comum é que a planta seja utilizada através de vaporização, o que poderia intensificar suas propriedades terapêuticas.

Outras administrações comuns são por via oral, através de pílulas com óleo de cannabis encapsulado, absorção pela mucosa oral ou anal. 

Óleo de CBD

Contudo, é possível encontrar produtos à base de cannabis medicinal sob a forma de pomadas, tabletes, folhas sublinguais, cremes, soros, além dos comprimidos e medicamentos produzidos em laboratório. 

Entenda mais sobre isso.

Existem efeitos colaterais para o canabidiol?

Assim como qualquer outro medicamento, os produtos à base de cannabis medicinal podem, sim, apresentar efeitos colaterais, variando de acordo com o organismo e sensibilidade de cada paciente. 

Contudo, estudos apontam que mesmo em doses elevadas, os possíveis efeitos colaterais são brandos e não causam complicações adicionais. Dentre os efeitos temporários que podem ocorrer estão: 

  • Aumento da frequência cardíaca; 
  • Boca seca; 
  • Aumento excessivo do apetite;
  • Vermelhidão nos olhos; 
  • Diminuição no tempo de reação; 

A fim de evitar quaisquer chances de dependência química, a Anvisa limita a quantidade que cada paciente pode adquirir.

Neste sentido, vale a pena enfatizar que todos os estudos consideram óleos e medicamentos produzidos à base de cannabis, logo, acender cigarros de maconha é absolutamente contestável e desaconselhado. 

Como importar o canabidiol? 

Importar cannabis para uso medicinal ainda é um processo longo e burocrático, cujas barreiras muitas vezes se iniciam dentro do consultório médico. 

Isso porque o primeiro passo para iniciar um tratamento à base de CBD e/ou THC é conseguir a receita médica de um profissional legalmente capacitado e habilitado.

Feito isso o paciente ou seu representante deve enviar o receituário para a Anvisa, que pode autorizar ou negar o pedido conforme análise. 

Desde o dia 02 de outubro de 2019, todos os pedidos de autorização para importação ou compra de produtos à base de cannabis são feitos, exclusivamente, pelo Portal de Serviços do Governo Federal.

Confira o passo a passo, formulários e maiores informações clicando aqui

Bruna Souza

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