THC da Big Pharma vs. Cannabis Natural: porque o THC sintético pode ser usado pela indústria e o natural ainda encontra restrições?
THC da Big Pharma vs. Cannabis Natural: porque o THC sintético pode ser usado pela indústria e o natural ainda encontra restrições?

Se o THC da Big Pharma pode ser usado em remédios, por que o da planta não pode?
Quando o assunto é tratamentos com remédios à base de cannabis medicinal, um dos principais questionamentos é: Por que a indústria farmacêutica pode usar THC enquanto pequenos produtores de cannabis medicinal ainda enfrentam restrições?
Para responder a essa pergunta e dar um panorama da indústria, a Cannalize preparou um especial sobre o assunto. Confira!
A princípio, precisamos compreender que há uma diferença fundamental entre o THC – molécula psicoativa central da cannabis – usado em medicamentos sintéticos, do usado na produção de óleos e essências naturais.
No setor de fármacos sintéticos, a molécula de THC é isolada e sintetizada em laboratório que, segundo estudo da Universidade de Camerino, na Itália, garante maior controle sobre seus efeitos no organismo. Entre os medicamentos que contém THC na fórmula, estão:

Medicamentos que usam THC sintético e tem o comércio autorizado
Vale lembra que o dronabinol e a nabilona foram os primeiros medicamentos com canabinoides mistos, ou seja, sintéticos e de origem vegetal, aprovados pelo FDA, ainda em meados da década de 1980.
O dronabinol reproduz exatamente a forma do THC encontrada na cannabis, só que sintetizada em laboratório.
A nabilona, por sua vez, é descrita como uma substância distinta do THC natural, pois foi ligeiramente modificada.
Compreender as diferenças entre o dronabinol e o THC encontrado na planta é o ponto chave para entender a proibição da substância em medicamentos à base cannabis.
Agora que você já sabe o que é o THC isolado e manipulado pelas Big Pharmas em laboratório e a diferença para o THC extraído diretamente da planta, vamos abordar as questões regulatórias envolvidas nessa questão.
Até hoje, o FDA aprovou apenas quatro medicamentos com canabinoides em sua fórmula: Epidiolex, Marinol, Syndros e o Cesamet. A aprovação dos medicamentos se deu em:
Nesse contexto, a agência de saúde estadunidense indica que a cannabis natural apresenta variabilidade de composição entre lotes, variedades, métodos de cultivo e extração. O que evita que a os medicamentos testados atinjam os padrões médicos exigidos.
Para além das questões técnicas para a aprovação do THC natural, existe uma trava nesse processo conhecido como patente.
Compostos químicos derivados de plantas podem conseguir patentes para uso da substância, como é o caso do dronabinol.
Além disso, remédios com análogos sintéticos oferecem maior solubilidade, menos efeitos colaterais, se comparados com princípios ativos naturais. Em resumo:
Sem a possibilidade de patenteamento, a indústria não tem retorno financeiro sobre o investimento para desenvolver o medicamento com THC.
Sem essa expectativa de retorno, as Big Pharmas não investem em estudos para o desenvolvimento de novos remédios com THC ou outros canabinoides.
Se nos Estados Unidos a restrição para uso de THC natural em medicamentos é mais rigorosa, no Brasil, o cenário é um pouco diferente. A Anvisa, a nossa versão do FDA, classifica a cannabis medicinal em três categorias, sendo:
Apesar da autorização para produção e comércio de medicamentos à base de cannabis medicinal com THC, a Anvisa impõe algumas restrições:
Ainda sobre as diferenças entre o THC sintético e o natural, o efeito entourage tem um papel de destaque.
O THC sintético isolado e manipulado em laboratório não possui o efeito entourage, o que impacta diretamente na eficácia e no efeito do medicamento no organismo do paciente.
A cannabis natural contém um ecossistema de moléculas que interagem sinergicamente, entre elas:
Por causa da ausência dessas substâncias, o THC sintético tem um efeito mais previsível ao entrar em contato com o sistema endocanabinoide.
No entanto, por não conter CBD e outros canabinoides em sua fórmula, o THC sintético pode potencializar sintomas como ansiedade, taquicardia e disforia.

Comparativo entre THC sintético das Big Pharmas e o natural
O THC (tetrahidrocanabinol) atua se conectando diretamente ao nosso sistema endocanabinoide. Após a conexão, o THC emula os canabinoides presentes no organismo, potencializando e excedendo o seu efeito.
Na prática, o THC é um poderoso analgésico natural que ajuda a reduzir as dores em pacientes de doenças crônicas, melhora o humor, estimula o apetite e contribui para a regulação do sono, sendo muito usado no tratamento de insônia associada à estresse e ansiedade.
A principal questão da medicina canábica é: se o THC natural funciona, por que não é adotado na medicina?
Estudos clínicos observatórios de pacientes idosos com dor crônica revelaram o potencial do THC natural na redução das dores e promoção do bem-estar durante o tratamento.
Será que a barreira para a entrada definitiva do THC natural na rotina médica é científica, regulatória ou apenas cultural?
Rodrigo Svrcek
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