THC da Big Pharma vs. Cannabis Natural: porque o THC sintético pode ser usado pela indústria e o natural ainda encontra restrições?
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Por que a Big Pharma pode usar THC e a planta enfrenta restrições?



15/05/2026


THC da Big Pharma vs. Cannabis Natural: porque o THC sintético pode ser usado pela indústria e o natural ainda encontra restrições?

THC da Big Pharma testado em laboratório

Se o THC da Big Pharma pode ser usado em remédios, por que o da planta não pode?

Quando o assunto é tratamentos com remédios à base de cannabis medicinal, um dos principais questionamentos é: Por que a indústria farmacêutica pode usar THC enquanto pequenos produtores de cannabis medicinal ainda enfrentam restrições? 

Para responder a essa pergunta e dar um panorama da indústria, a Cannalize preparou um especial sobre o assunto. Confira! 

O que é o THC das Big Pharmas?  

A princípio, precisamos compreender que há uma diferença fundamental entre o THC – molécula psicoativa central da cannabis – usado em medicamentos sintéticos, do usado na produção de óleos e essências naturais. 

No setor de fármacos sintéticos, a molécula de THC é isolada e sintetizada em laboratório que, segundo estudo da Universidade de Camerino, na Itália, garante maior controle sobre seus efeitos no organismo.  Entre os medicamentos que contém THC na fórmula, estão: 

tabela medicamentos thc

Medicamentos que usam THC sintético e tem o comércio autorizado

Vale lembra que o dronabinol e a nabilona foram os primeiros medicamentos com canabinoides mistos, ou seja, sintéticos e de origem vegetal, aprovados pelo FDA, ainda em meados da década de 1980. 

O dronabinol reproduz exatamente a forma do THC encontrada na cannabis, só que sintetizada em laboratório.  

A nabilona, por sua vez, é descrita como uma substância distinta do THC natural, pois foi ligeiramente modificada.  

As diferenças entre THC sintético e natural 

Compreender as diferenças entre o dronabinol e o THC encontrado na planta é o ponto chave para entender a proibição da substância em medicamentos à base cannabis.  

THC Sintético 

  • molécula isolada, sem outros canabinoides; 
  • produzido sinteticamente com química controlada; 
  • patenteável (processo de fabricação + formulação); 
  • classifica-se como Schedule III nos EUA; 
  • Submissão ao processo regulatório farmacêutico padrão; 

THC da Planta (cannabis natural)

  • mesclado com mais de 80 tipos de canabinoides (não isolado); 
  • não patenteável em sua forma natural;  
  • permanece como Schedule I nos EUA. 

Por que a Big Pharma pode e a cannabis natural encontra restrições? 

Agora que você já sabe o que é o THC isolado e manipulado pelas Big Pharmas em laboratório e a diferença para o THC extraído diretamente da planta, vamos abordar as questões regulatórias envolvidas nessa questão.  

O argumento regulatório oficial 

Até hoje, o FDA aprovou apenas quatro medicamentos com canabinoides em sua fórmula: Epidiolex, Marinol, Syndros e o Cesamet. A aprovação dos medicamentos se deu em: 

  • ensaios clínicos de fase I, II e III; 
  • padronização rigorosa de dose; 
  • controle de qualidade industrial; 
  • estudos farmacocinéticos precisos. 

Nesse contexto, a agência de saúde estadunidense indica que a cannabis natural apresenta variabilidade de composição entre lotes, variedades, métodos de cultivo e extração. O que evita que a os medicamentos testados atinjam os padrões médicos exigidos.  

A questão das patentes 

Para além das questões técnicas para a aprovação do THC natural, existe uma trava nesse processo conhecido como patente. 

Compostos químicos derivados de plantas podem conseguir patentes para uso da substância, como é o caso do dronabinol.   

Além disso, remédios com análogos sintéticos oferecem maior solubilidade, menos efeitos colaterais, se comparados com princípios ativos naturais. Em resumo: 

  • a planta não pode ser patenteada;  
  • o THC processado em laboratório pode ser patenteado. 

Sem a possibilidade de patenteamento, a indústria não tem retorno financeiro sobre o investimento para desenvolver o medicamento com THC. 

Sem essa expectativa de retorno, as Big Pharmas não investem em estudos para o desenvolvimento de novos remédios com THC ou outros canabinoides.

Cannabis medicinal e a Anvisa

Se nos Estados Unidos a restrição para uso de THC natural em medicamentos é mais rigorosa, no Brasil, o cenário é um pouco diferente.  Anvisa, a nossa versão do FDA, classifica a cannabis medicinal em três categorias, sendo: 

  • medicamentos com registro junto a agência (apenas um com canabinoide sintético); 
  • produtos autorizados para fabricação à base de canabidiol puro ou extrato de cannabis; 
  • produtos com autorização de importação. 

Apesar da autorização para produção e comércio de medicamentos à base de cannabis medicinal com THC, a Anvisa impõe algumas restrições: 

  • marco regulatório limita em até 0,3% o teor de THC no cultivo comerciais;
  • instituições de pesquisa poderão trabalhar com plantas com maior teor de THC, desde que obtenham autorizações específicas e adotem protocolos rigorosos de controle;
  • pedidos de patente que mencionem o termo “cannabis sativa” ou registros de marcas para empresas que comercializem remédios à base de canabidiol podem ser rejeitados pelo INPI com base na Lei de Propriedade Industrial. 

A influência do efeito Entourage na restrição ao THC 

Ainda sobre as diferenças entre o THC sintético e o natural, o efeito entourage tem um papel de destaque.

O THC sintético isolado e manipulado em laboratório não possui o efeito entourage, o que impacta diretamente na eficácia e no efeito do medicamento no organismo do paciente. 

cannabis natural contém um ecossistema de moléculas que interagem sinergicamente, entre elas:  

  • canabinoides: CBD, CBG, CBN, CBC, THCV; 
  • terpenos: mirceno, limoneno, beta-cariofileno, linalol; 
  • flavonoides: canaflavinas, apigenina. 

Por causa da ausência dessas substâncias, o THC sintético tem um efeito mais previsível ao entrar em contato com o sistema endocanabinoide

No entanto, por não conter CBD e outros canabinoides em sua fórmula, o THC sintético pode potencializar sintomas como ansiedade, taquicardia e disforia.  

Resumo da questão THC sintético X natural 

Tabela comparativa entre THC sintético e natural

Comparativo entre THC sintético das Big Pharmas e o natural

Como o THC interage com o organismo do paciente? 

O THC (tetrahidrocanabinol) atua se conectando diretamente ao nosso sistema endocanabinoide.  Após a conexão, o THC emula os canabinoides presentes no organismo, potencializando e excedendo o seu efeito. 

Na prática, o THC é um poderoso analgésico natural que ajuda a reduzir as dores em pacientes de doenças crônicas, melhora o humor, estimula o apetite e contribui para a regulação do sono, sendo muito usado no tratamento de insônia associada à estresse e ansiedade.

Se o THC natural funciona, por que não é adotado na medicina?  

A principal questão da medicina canábica é: se o THC natural funciona, por que não é adotado na medicina? 

Estudos clínicos observatórios de pacientes idosos com dor crônica revelaram o potencial do THC natural na redução das dores e promoção do bem-estar durante o tratamento. 

Será que a barreira para a entrada definitiva do THC natural na rotina médica é científica, regulatória ou apenas cultural?  

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Rodrigo Svrcek