Existe uma contradição no centro da terapia com canabinoides. A necessidade é real. A dor crônica é massiva. Os canabinoides já estão presentes na prática. E, ainda assim, a categoria ainda muitas vezes não vive plenamente à altura de sua promessa médica. Esta é uma série editorial em episódios sobre essa contradição. A pergunta central é: Por que, depois de todo esse tempo, a terapia com canabinoides ainda não realiza plenamente sua promessa médica?
Para o fundador da FoliuMed, desafio da cannabis medicinal está menos na molécula e mais na construção de previsibilidade terapêutica

Oliver Zugel, fundador da FoliuMed, em entrevista para o Cannalize Especial
“O problema não é perguntar se o THC funciona. O problema é como integrar isso na prática de um médico muito ocupado.”
A frase resume a visão de Oliver Zugel, fundador da farmacêutica alemã Foliumed, sobre o atual estágio da cannabis medicinal no mundo.
Em entrevista à Cannalize, Zugel aprofundou uma hipótese que vem aparecendo repetidamente na série sobre THC e dor crônica: a principal barreira da terapia canabinoide talvez já não seja ideológica, mas operacional.
Segundo ele, a eficácia terapêutica do THC deixou de ser novidade há décadas. O desafio agora está em transformar uma terapia altamente individualizada em algo previsível, reproduzível e compatível com a rotina da prática médica.
“A ciência sobre o THC já tem quase 60 anos. Depois vieram medicamentos farmacêuticos como Marinol, Sativex e Epidiolex. Há poucas dúvidas na comunidade médica mundial de que isso funcione”, afirma.
Para Zugel, o problema aparece quando a teoria encontra a realidade clínica.
“A titulação não é muito clara, a aplicação do medicamento tem que ser individualizada, e as primeiras duas semanas normalmente são um tempo muito crítico para o êxito da terapia. Isso requer muita interação com o paciente.”
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Ao longo da entrevista, Oliver sugere que a cannabis medicinal ainda opera em uma espécie de transição entre mercado de suplementos e medicina baseada em protocolos clínicos.
Segundo ele, boa parte da dificuldade atual nasce justamente dessa origem.
“Aqui no Brasil, 90% dos produtos provêm de produtores de suplementos nutricionais. E de um suplemento nutricional você não pode pedir um produto padronizado, um protocolo de tratamento ou interação clínica contínua.”
Na visão do executivo, isso cria um ambiente onde médicos precisam lidar com:
“O negócio de suplementos é um negócio de marketing”, afirma.
Para Oliver, esse modelo ajuda a explicar por que muitos médicos ainda enxergam o THC como uma terapia de baixa previsibilidade clínica — especialmente em pacientes com dor crônica.
Um dos pontos centrais da entrevista envolve a crítica ao uso excessivamente genérico do princípio “start low, go slow”, amplamente utilizado na cannabis medicinal para orientar início de tratamento e titulação gradual.
Segundo Zugel, a lógica continua válida em casos simples, mas se torna insuficiente em indicações complexas.
“Está perfeito para indicações mais simples. Mas não é aplicável para dor crônica e outras indicações sérias.”
Para ele, o setor já possui conhecimento suficiente para avançar para protocolos mais estruturados e operacionais.
“Tem que existir algum protocolo de titulação que vá além do ‘start low, go slow’. E isso já existe hoje. Não é algo que alguém ainda precise inventar.”
A fala reforça uma percepção que vem aparecendo ao longo da série da Cannalize:
o desafio da cannabis medicinal parece migrar gradualmente da descoberta da eficácia para a construção de previsibilidade terapêutica.
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Ao ser questionado sobre o que falta para médicos prescreverem THC com mais segurança e menos empirismo, Oliver resume a resposta em três pilares.
O primeiro seria a existência de produtos realmente padronizados.
“Tem que ser proveniente de genética única, manufaturado em boas práticas e oferecer lotes consistentes e replicáveis ao longo do tempo.”
O segundo envolve protocolos clínicos mais claros para acompanhamento e titulação de dose.
E o terceiro, segundo ele, passa pela geração de dados reais de eficácia terapêutica.
“Não pode ser que tenhamos 200 marcas no país e cada uma declare que seu produto é melhor porque não existem dados.”
“A maioria das falhas da cannabis medicinal não acontece porque o produto não funciona. Acontece porque é muito difícil conduzir o paciente até uma dose terapêutica de forma estruturada.”
Para o executivo, a próxima fase da cannabis medicinal depende justamente da capacidade do setor em construir esses três elementos simultaneamente:
No fim da conversa, Oliver Zugel resume sua visão para o futuro da cannabis medicinal em uma frase simples:
“A terapia precisa virar medicina.”
Segundo ele, a consolidação do setor dependerá menos de entusiasmo de mercado e mais da capacidade de transformar cannabis em uma prática terapêutica madura, previsível e baseada em evidências.
“Se formos capazes de construir esses três pilares, a cannabis medicinal tem futuro. Se não, creio que continuaremos tendo dúvidas.”
A entrevista completa com Oliver Zugel vai ao ar em breve no canal da Cannalize no YouTube.
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