A expansão de apps e consultas rápidas levanta dúvidas sobre ciência, mercado e o futuro da cannabis medicinal

Não é comum abrir as redes sociais e encontrar anúncios de aplicativos de cannabis medicinal. No entanto, isso tem mudado rapidamente.
Nos últimos meses, surgiram diversas empresas que prometem “facilitar o acesso” ao tratamento. Com poucos cliques e valores muito baixos, qualquer pessoa pode marcar uma consulta com um suposto especialista e iniciar o tratamento.
À primeira vista, tudo parece simples. Porém, profissionais experientes enxergam alguns gargalos nesse modelo.
Muitas consultas ocorrem por inteligência artificial ou com médicos recém-formados e sem experiência clínica. Esse cenário levanta uma dúvida inevitável: essas iniciativas buscam ampliar o acesso ou apenas surfar na onda do green money?
O problema aparece quando a pressa em lucrar atropela a ciência e o cuidado com o paciente. Quando isso acontece, quem paga o preço são justamente aqueles que procuram a cannabis como alternativa terapêutica.
Em 2015, os pacientes brasileiros tinham apenas dois caminhos legais para acessar tratamentos com cannabis.
O primeiro era buscar uma associação de pacientes. O segundo era importar o produto. Ambos os processos eram difíceis.
Naquela época, poucas associações existiam. Além disso, encontrar médicos dispostos a prescrever cannabis era um grande desafio. Mesmo após conseguir a prescrição, o paciente ainda enfrentava uma longa burocracia para importar o produto.
Por causa disso, muitos recorreram à ilegalidade. Extrações caseiras tornaram-se comuns. As chamadas “mães da maconha” passaram a produzir medicamentos para aliviar o sofrimento dos filhos.
Com o tempo, a pressão social aumentou. Em resposta, a Anvisa começou a publicar resoluções que facilitavam o acesso ao tratamento.
Mesmo assim, os obstáculos continuavam grandes. As formulações eram escassas e os preços permaneciam altos. Por isso, as associações continuaram como a principal porta de entrada para muitos pacientes.
Em 2022, a Anvisa aprovou a RDC 660. A resolução facilitou a importação de produtos à base de cannabis. A mudança ampliou o número de opções terapêuticas disponíveis. Produtos como flores e gummies começaram a aparecer nas prescrições.
O impacto foi imediato. O tema ganhou espaço na mídia e mobilizou o setor médico. Naquele mesmo ano, o Conselho Federal de Medicina tentou proibir a prescrição de cannabis medicinal.
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A reação da classe médica foi rápida e intensa. Diante da pressão, o conselho voltou atrás.
Apesar disso, um ponto frágil permaneceu no sistema. A importação de flores abriu espaço para abusos. Muitos produtos tinham teor de THC inferior a 0,3%. Ainda assim, alguns operadores exploraram uma suposta zona cinzenta regulatória.
Eles passaram a importar flores pulverizadas com Delta-8 THC e outros canabinoides semissintéticos.
Esses produtos chegaram ao mercado brasileiro de diferentes formas. Um desses players chegou a vender flores em um festival de música eletrônica. Outros preferiram abastecer o mercado ilegal.
Em ambos os casos, muitos consumidores sequer sabiam que poderiam importar legalmente seus tratamentos.
Em 2023, a situação saiu do controle. Um músico famoso lançou sua própria marca de cannabis em um dos maiores podcasts do país. A estratégia tinha um objetivo claro: pressionar pela legalização.
O resultado foi o oposto. Poucas semanas depois, a Anvisa proibiu a importação de flores e outras formas farmacêuticas para uso inalatório. A decisão encerrou um período de grande permissividade no mercado.
Com isso, as associações voltaram a ocupar um papel central. Muitas delas possuem autorização para dispensar flores e extratos aos associados.
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Hoje vemos um movimento que lembra aquele período. Aplicativos de consulta surgem com promessas de acesso rápido e barato ao tratamento. Embora não vendam flores diretamente, esses serviços levantam novas preocupações.
O principal risco está na banalização da terapia. Consultas conduzidas por inteligência artificial ou por profissionais pouco capacitados tendem a gerar prescrições padronizadas. Pacientes com queixas diferentes acabam recebendo tratamentos semelhantes.
Esse modelo ignora algo fundamental. O sistema endocanabinoide funciona de maneira altamente individual. Cada paciente responde de forma diferente aos canabinoides.
Quando o acompanhamento médico falha, o resultado costuma ser frustração e abandono do tratamento. Para muitos pacientes, a experiência vira uma roleta.
Eles só conseguem sucesso terapêutico quando encontram profissionais realmente capacitados. Enquanto isso, algumas empresas continuam lucrando com o sofrimento de quem busca uma alternativa para tratar sua condição.
Os séculos XIX e XX marcaram o surgimento do cientificismo, do darwinismo social e dos grandes conglomerados industriais. Nesse mesmo período, leis baseadas em preconceito racial ganharam força.
A ciência proibicionista ajudou a criminalizar plantas associadas a determinados povos. Foi o caso da maconha, ligada a mexicanos e negros. O mesmo aconteceu com a papoula, associada a chineses e asiáticos.
O cânhamo, antes amplamente cultivado por seus benefícios industriais, perdeu espaço para o algodão e para fibras sintéticas. Algo parecido ocorreu com a cannabis medicinal.
Tinturas e emplastros deram lugar a substâncias sintéticas que recebiam forte propaganda “científica”. Os riscos, no entanto, raramente apareciam nessas campanhas.
Nesse processo, saberes tradicionais foram criminalizados. O conhecimento ancestral de cura passou a ser tratado como crime. Ainda assim, ele sobreviveu.
Comunidades preservaram essas práticas de forma silenciosa. Esse processo de resistência manteve vivo o conhecimento sobre a planta.
Com o tempo, as associações de pacientes tornaram-se polos importantes de aprendizado sobre o uso terapêutico da cannabis.
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Em algum momento, o capital encontraria o proibicionismo. E desse encontro surgiria um acordo. Quando farmacêuticas e investidores perceberam o tamanho do mercado, decidiram agir. Hoje, quase R$ 1 bilhão circula nesse setor.
Grande parte desse dinheiro sai do Brasil. Empresas importam insumo farmacêutico ativo ou produtos finalizados. Enquanto isso, movimentos sociais continuam defendendo a libertação completa da planta.
Apesar dessas pressões, o capital ainda parece ser o principal motor da regulamentação.
Novas resoluções da Anvisa devem entrar em vigor ainda este ano. O objetivo é manter mais recursos dentro do país. A expectativa inclui redução de custos, expansão da pesquisa científica e maior acesso ao tratamento.
A cannabis medicinal pode beneficiar milhões de brasileiros. Ela também pode gerar empregos e impulsionar novos setores da economia. No entanto, o desafio permanece.
O país ainda precisa superar séculos de preconceito e construir um modelo que combine ciência, acesso e responsabilidade. Tecnologia e capital podem ampliar o acesso à saúde. Porém, o setor precisa manter vigilância constante.
Sem isso, o mercado corre o risco de banalizar a cannabis medicinal e repetir erros do passado. A reparação histórica ainda precisa acontecer — e ela deve beneficiar, antes de tudo, quem realmente precisa.
Clube Diambista
Inspirado pela tradição histórica dos antigos clubes diambistas brasileiros, o farmacêutico Guilherme Salgueiredo propõe um espaço de estudo e reflexão sobre a Cannabis. Nesta coluna, ciência, história e prática clínica se encontram para ampliar o entendimento sobre o uso medicinal da planta e fortalecer a educação em saúde baseada em evidências.
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