Decidi viver aquele momento em estado de presença ampliada, vulnerabilidade emocional e conexão espiritual.

União com o sagrado meu casamento em uma cerimônia de Ayahuasca
Nas últimas colunas da Cannalize, escrevi sobre o potencial terapêutico da psilocibina, da cetamina, da ibogaína e do MDMA no tratamento da depressão, da dependência química e do estresse pós-traumático. Desta vez, porém, parto de um lugar diferente: não apenas como médico observando fenômenos clínicos e científicos, mas como alguém que viveu uma experiência transformadora.
Recentemente, me casei em uma cerimônia de Ayahuasca no Instituto Águia Branca, em Guarulhos. Aproximadamente um mês depois, oficializamos a união no cartório e celebramos com uma festa convencional para familiares e amigos próximos.
No entanto, foi a cerimônia com Ayahuasca que deixou em mim uma marca difícil de traduzir em palavras.
A Ayahuasca ocupa um lugar singular no universo das substâncias psicodélicas. Povos indígenas da Amazônia utilizam essa bebida há séculos em contextos espirituais, ritualísticos e religiosos. Tradicionalmente, ela é preparada a partir do cipó Banisteriopsis caapi e da folha da chacrona (Psychotria viridis).
Ao longo do tempo, a bebida atravessou gerações como ferramenta de cura, introspecção e conexão espiritual.
Nos últimos anos, porém, a ciência passou a olhar para a Ayahuasca com menos preconceito e mais curiosidade. Pesquisadores investigam seus possíveis efeitos sobre depressão, ansiedade, traumas e dependência química.
Além disso, alguns estudos sugerem impacto na neuroplasticidade, no processamento emocional e na redução de sintomas depressivos refratários. Muitos pacientes também relatam experiências profundas de ressignificação existencial.
Apesar desse avanço científico, existe um aspecto da experiência que continua difícil de mensurar: sua dimensão simbólica.
No Brasil, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte publicou um estudo sobre Ayahuasca e depressão e também conduz uma investigação com DMT inalado. Ainda assim, nem tudo o que acontece durante uma experiência psicodélica cabe facilmente em gráficos, escalas clínicas ou protocolos de pesquisa.
E foi justamente nesse território mais subjetivo que vivi meu casamento.

Escolhemos viver aquele momento em um estado de presença ampliada, vulnerabilidade emocional e conexão espiritual.
Em vez da formalidade tradicional, havia silêncio, música, introspecção, lágrimas e uma sensação difícil de explicar racionalmente. Não parecia apenas um casamento entre duas pessoas. Parecia também um compromisso com um modo diferente de enxergar a vida.
Foi uma experiência de entrega, escuta e reconhecimento mútuo.
Durante muito tempo, substâncias psicodélicas foram reduzidas ao estigma. Hoje, lentamente, assistimos a um movimento de reconciliação entre ciência e espiritualidade.
Universidades estudam práticas que tradições ancestrais utilizam há séculos. Psiquiatras discutem experiências místicas em congressos médicos. Ao mesmo tempo, pacientes refratários encontram melhora onde antes havia apenas desesperança.
Isso não significa abandonar o rigor científico. Significa reconhecer que a experiência humana é mais complexa do que muitas vezes imaginamos.
Também é importante deixar algo claro: a Ayahuasca não é isenta de riscos.
Seu uso exige contexto adequado, preparo emocional e acompanhamento responsável. Existem contraindicações psiquiátricas, riscos clínicos e necessidade de avaliação cuidadosa.
Além disso, o que produz transformação não é apenas a substância em si. O ambiente, a intenção, o acolhimento e a integração da experiência também desempenham um papel fundamental.
Nem toda transformação acontece pela racionalidade. Algumas experiências humanas atravessam territórios subjetivos que dificilmente cabem em exames ou protocolos clínicos.
Isso não diminui o valor da ciência. Pelo contrário: amplia as perguntas que ela pode fazer.
Talvez seja justamente nesse encontro entre conhecimento científico e sabedoria ancestral que esteja uma das contribuições mais interessantes da Ayahuasca para a medicina contemporânea. E talvez tenha sido por isso que escolhi me casar ali, naquele espaço onde o cuidado com a mente, o corpo e o espírito parecia fazer parte da mesma conversa.
Lucas Lomba
Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743
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