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O CBCM usou psicodélicos para abrir a mente da medicina 



30/05/2026


Durante o Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal, percebi que os psicodélicos abriram uma discussão que a medicina evitou por décadas 

psicodelicos cbcm

Saí do congresso com uma sensação difícil de explicar. Não era apenas sobre psilocibina. Também não era apenas sobre psicodélicos. Muito menos sobre “drogas”, no sentido simplista que ainda ocupa o imaginário de muita gente.

Na prática, o que vi ali foi a medicina começando a olhar para algo que evitou durante décadas: o sofrimento existencial humano.

Por muito tempo, a saúde mental ficou presa à tentativa de controlar sintomas, como ansiedade, insônia, humor deprimido, crises, compulsões e medo. No entanto, durante a palestra sobre psicodélicos, outras palavras ganharam espaço: significado, espiritualidade, aceitação da morte, desesperança, reconexão com a vida e sofrimento existencial.

Talvez esteja justamente aí uma das mudanças mais profundas da psiquiatria moderna.

Mais do que aliviar sintomas

O mais interessante é que os estudos apresentados não mostravam apenas melhora clínica clássica, como eu imaginava. Em vez disso, eles falavam sobre pessoas que voltaram a encontrar sentido para continuar vivendo, mesmo diante de doenças graves, câncer avançado ou sofrimento emocional extremo.

Isso me chamou muita atenção.

Ao longo da minha trajetória acompanhando pacientes, percebi que existem dores que não são apenas químicas. Muitas parecem nascer da perda de propósito, da desconexão emocional, do medo constante, da sensação de vazio ou até da dificuldade de lidar com a própria finitude.

E foi justamente isso que os pesquisadores começaram a investigar.

Em diferentes revisões sistemáticas apresentadas no congresso, apareceram análises mostrando redução de:

  • ansiedade relacionada à morte;
  • desesperança;
  • sofrimento emocional profundo;
  • angústia existencial.

Além disso, muitos pacientes relataram algo difícil de medir em exames laboratoriais: uma mudança na forma de enxergar a própria vida.

Alguns estudos mencionaram:

  • maior aceitação da morte;
  • aumento da sensação de significado existencial;
  • melhora na conexão emocional;
  • redução do medo constante;
  • sensação de reconciliação interna.

Sinceramente, isso é enorme.

Fiquei positivamente surpresa diante daquele auditório lotado. Afinal, talvez a próxima fronteira da saúde mental não seja apenas controlar neurotransmissores. Talvez seja ajudar seres humanos a reencontrarem conexão consigo mesmos.

A dimensão humana do sofrimento

Outra coisa que me marcou profundamente foi um slide sobre a formação de terapeutas. Em vez de focar apenas em técnica, os pesquisadores destacavam presença empática, acolhimento, integridade ética, autoconsciência, confiança e até inteligência espiritual.

Naquele momento, tive a sensação de assistir a uma mudança de paradigma dentro da medicina.

Durante anos, temas como espiritualidade ficaram praticamente fora das discussões médicas, principalmente por receio de parecerem subjetivos demais. Agora, porém, grandes centros começam a reconhecer que existe uma dimensão humana do sofrimento que já não pode ser ignorada.

E isso não significa abandonar a ciência. Muito pelo contrário.

A palestra inteira reforçou a necessidade de cautela metodológica, estudos maiores, análise de vieses e acompanhamento rigoroso. Os próprios pesquisadores deixavam claro que o campo ainda possui limitações importantes e precisa amadurecer com responsabilidade.

Mesmo com toda essa prudência científica, uma mensagem atravessava praticamente todos os slides: o sofrimento humano talvez seja muito mais complexo do que imaginávamos.

O futuro da psiquiatria pode passar por aqui

Talvez saúde mental não seja apenas ausência de sintomas. Talvez também envolva sentido, pertencimento, conexão, esperança, presença e a forma como cada pessoa se relaciona com a própria existência.

Por isso, talvez esse tema esteja crescendo tão rápido no mundo inteiro.

O que mais me surpreendeu, no entanto, foi perceber o interesse genuíno de todo o auditório. A palestra recebeu atenção, curiosidade e, acima de tudo, respeito. Não apenas pelos dados apresentados, mas também pela profundidade humana da discussão.

Ao final, cerca de 80% das perguntas feitas ao palestrante eram sobre psicodélicos. Talvez esse tenha sido um dos momentos mais reveladores do congresso.

Inclusive entre médicos experientes na cannabis medicinal, a curiosidade era evidente. As próprias palestrantes da mesa fizeram perguntas para compreender melhor o que começa a surgir nesse novo campo terapêutico.

Saí com a sensação de que os psicodélicos já não ocupam mais um espaço periférico dentro da medicina integrativa.

A cannabis talvez tenha aberto as portas como uma cor primária dessa transformação. Já os psicodélicos começam a surgir como cores secundárias que aparecem naturalmente quando novas possibilidades clínicas passam a se misturar.

Enquanto isso, os profissionais parecem prontos para discussões mais profundas. Os pacientes claramente aguardam por isso. Aos poucos, essas conversas deixam os bastidores e começam a ganhar espaço dentro da própria medicina contemporânea.

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Michelle Lanza

Fitoterapeuta, pesquisadora e colunista da Cannalize. Com formação em saúde integrativa e especialização em fitoterapia clínica, dedica sua escrita a conectar ciência, inovação e terapias naturais para ampliar a compreensão sobre saúde, frequências e sistemas regulatórios como o endocanabinoide. Sua coluna navega entre evidências científicas e aplicações práticas, com linguagem acessível e embasamento técnico. Com o objetivo de traduzir ciência complexa em conhecimento útil para profissionais, pacientes e curiosos.