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Grupo de Trabalho propõe destravar pesquisas com cannabis



15/08/2025


O GT da cannabis identificou mais de 400 problemas e propôs soluções para tornar o Brasil em uma referência em pesquisas com cannabis no Brasil

Grupo de Trabalho propõe destravar pesquisa com cannabis

Grupo de Trabalho propõe destravar pesquisa com cannabis

Depois de conversar com várias instituições, o GT Cannabis (Grupo de Trabalho de Regulamentação Científica da Cannabis) entregou ontem (14) uma Nota Técnica ao Ministério da Saúde e à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

O documento apresenta um amplo diagnóstico sobre os entraves que dificultam o avanço das pesquisas com a cannabis no país e propõe um conjunto de soluções regulatórias e estratégicas para superá-los.

Segundo a chefe adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Beatriz Marti Emygdio, a Nota Técnica serve como subsídio para o processo de regulamentação do cultivo, atualmente em curso no Brasil. 

O levantamento envolve universidades federais e estaduais, centros de pesquisa, associações de cannabis medicinal e outros atores estratégicos.

Sobre o mapeamento

A elaboração do documento foi fruto de um trabalho colaborativo que reuniu representantes de 31 instituições acadêmicas e de pesquisa de todas as regiões do Brasil.

O Nordeste surge como líder em quantidade de centros de pesquisa, seguido pelo Sudeste. Juntas, essas regiões reúnem mais de 60% das instituições e mais de 50% dos profissionais (professores, pesquisadores e pós-graduandos) envolvidos nessa área no Brasil.

As instituições de ciência e tecnologia (as chamadas ICT`s), que incluem universidades e centros de pesquisa, representam aproximadamente 57% do total. Já as associações contribuem com cerca de 17%, enquanto outras instituições, como indústrias, institutos, clínicas, conselhos
municipais e a Polícia Federal, somam as porcentagens restantes.

No total, 132 pesquisadores participaram de uma consulta institucional que identificou nada menos que 481 problemas que impactam diretamente a realização de pesquisas com cannabis em solo nacional.

Esses problemas foram analisados, agrupados e organizados em sete eixos temáticos, que cobriram desde questões burocráticas até limitações técnicas e lacunas regulatórias. Para cada eixo, o GT  apresentou soluções acompanhadas de justificativas técnicas.

Problemas identificados

O diagnóstico do Grupo de Trabalho aponta que os entraves vão desde a demora nos processos de autorização até barreiras para o cultivo e circulação de insumos, como:

  1. Processo de autorização para pesquisa – Atualmente, esse processo é fragmentado, com exigências paralelas da Anvisa, Ministério da Agricultura e Polícia Federal. O GT propõe um sistema integrado de licenciamento, autorizações institucionais de longo prazo (cinco anos) e prazos máximos definidos em lei.
  2. Acesso a insumos padronizados – Os pesquisadores enfrentam dificuldades para importar e adquirir padrões analíticos, sementes e extratos. A proposta é flexibilizar e simplificar a aquisição e manipulação por instituições científicas.
  3. Cultivo científico – A ausência de autonomia para cultivo limita a reprodutibilidade e aumenta custos. Por isso, o GT também defende autorizar diferentes modalidades de cultivo,que serão adequadas a cada objetivo de pesquisa.
  4. Limite de THC – Restrições atuais inviabilizam estudos com teor acima de 0,3% de THC (tetrahidrocanabinol). A recomendação é permitir pesquisas com qualquer concentração, para ampliar o desenvolvimento de padrões nacionais e inovações.
  5. Fluxo de materiais entre instituições – Hoje, o transporte interestadual e a circulação de amostras são praticamente inviáveis. Dessa forma, o Grupo de Trabalho sugere um marco regulatório que permita o fluxo entre instituições autorizadas.
  6. Uso de coprodutos – O Grupo também apontou que a falta de diretrizes sobre aproveitamento de resíduos gera desperdício. A proposta é regular o uso para bioprodutos e aplicações industriais, dentro do conceito de economia circular.
  7. Pesquisas com animais de produção – Atualmente, não existem protocolos específicos. A solução é estabelecer regras claras para garantir segurança e eficácia em uso veterinário.
Grupo de Trabalho propõe destravar pesquisa com cannabis

Grupo de Trabalho propõe destravar pesquisa com cannabis

Estratégia para transformar o Brasil em referência global

A justificativa estratégica presente na Nota Técnica ressalta que as atuais regulamentações da Anvisa, que permitem a importaçõa (RDC 660/22) e a compra nas farmácias (RDC 327/2019), criam ambiguidades que travam a pesquisa.

Como por exemplo, o limite de THC, o uso de nanotecnologia e até vias de administração. O GT argumenta que as limitações aplicadas à produção comercial não podem se transformar em barreiras para o avanço científico.

O documento defende que superar esses desafios regulatórios representa uma oportunidade para o Brasil.

Isso porque as novas regras permitiriam reduzir a dependência tecnológica em setores farmacêutico e agrícola de alto valor agregado. Além de fortalecer um ecossistema integrado de pesquisa, conectando universidades, institutos, associações, agricultores e indústria, criando bases para uma cadeia produtiva inovadora e competitiva, por exemplo.

O GT também defende que um ambiente regulatório claro, previsível e ágil também teria outro efeito benéfico: atrair investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento.Isso pode acelerar a transformação de descobertas científicas em produtos e fomentar parcerias estratégicas entre academia e indústria.

“Essa insegurança jurídica demanda uma regulamentação específica que atenda às necessidades da comunidade científica e posicione o país como referência internacional no campo. As limitações e restrições impostas à produção comercial de cannabis (agrícola e industrial), não podem se traduzir em limitações para o desenvolvimento científico.” Escreveram no relatório.

Recomendações adicionais para impulsionar pesquisas com cannabis

Além de apresentar soluções para os sete entraves, a Nota Técnica traz recomendações adicionais para consolidar a pesquisa com cannabis como área estratégica nacional:

  • Priorização e fomento – Reconhecer a cannabis como área prioritária nos editais de fomento e criar linhas temáticas específicas em agências como CNPq, FAPs e Finep.
  • Políticas públicas integradas – Desenvolver ações interministeriais e intersetoriais que assegurem segurança jurídica, agilidade regulatória e sustentabilidade econômica.
  • Infraestrutura de pesquisa – Criar bancos nacionais de germoplasma e padrões de referência, incentivar produção nacional de sementes e extratos padronizados, e instalar laboratórios públicos para cultivo e testes clínicos e pré-clínicos.
  • Mapeamento e colaboração – Atualizar constantemente o mapa nacional de grupos de pesquisa e estimular consórcios regionais e interinstitucionais, além de apoiar eventos científicos.
  • Capacitação – Desenvolver programas de pós-graduação, especialização e extensão em ciência da cannabis e incluir o tema em currículos de cursos de saúde, agronomia, biotecnologia, direito e ciências sociais.

Um chamado à ação imediata

O GT alerta que a demora na regulamentação e a manutenção das barreiras atuais aprofundam a dependência tecnológica do Brasil, enquanto países como Estados Unidos, China e Canadá acumulam patentes e dominam o mercado global.

Por outro lado, o vigor acadêmico brasileiro, evidenciado pelo crescente número de pesquisas e pela participação de pós-graduandos, cria condições favoráveis para uma virada estratégica.

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Tainara Cavalcante

Jornalista pela Fapcom (Faculdade Paulus de Comunicação) e pós graduada na FAAP (Fundação Armando Alves Penteado) em Jornalismo Digital, atua como produtora de conteúdo no Cannalize, Dr. Cannabis e Cannect. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.