Fiscalização nos EUA, documentos de carga e produtos com THC acima do permitido ajudam a explicar atrasos na importação de cannabis.

Importação de cannabis: por que os pedidos atrasam? – Foto: Envato
Pacientes brasileiros que dependem de produtos de cannabis importados estão enfrentando prazos maiores para receber seus pedidos. Embora a demora costume ser associada à fiscalização brasileira, parte do problema começa antes mesmo de a carga deixar os Estados Unidos.
Uma apuração publicada pelo Sechat aponta que autoridades americanas intensificaram a fiscalização sobre produtos de cannabis enviados ao exterior. Ao mesmo tempo, companhias aéreas passaram a analisar com mais rigor certificados laboratoriais e outros documentos necessários para o transporte.
O movimento ocorre após a identificação de tentativas de envio de produtos com concentrações de THC superiores ao limite permitido nos Estados Unidos.
Nos Estados Unidos, a concentração de THC é fundamental para diferenciar o cânhamo da cannabis considerada ilegal pelas regras federais.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos define como cânhamo a planta e seus derivados com, no máximo, 0,3% de delta-9 THC. Acima desse valor, o produto deixa de se enquadrar nessa categoria federal.
Mesmo produtos com teor de THC dentro do limite federal de 0,3% estão sendo submetidos a verificações mais detalhadas. Segundo a reportagem, a atuação de órgãos como a alfândega (CBP) e a Drug Enforcement Administration (DEA) se intensificou ao longo dos últimos meses.
Além disso, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos alerta que o transporte de cannabis classificada como marijuana permanece proibido pelas regras federais, inclusive em estados que permitem seu uso medicinal ou adulto. As penalidades podem atingir pilotos, operadores e aeronaves.
Isso deve ter levado companhias aéreas a evitar cargas quando existem dúvidas sobre a composição do produto ou sobre a documentação apresentada.
Na prática, tentativas de enviar itens acima do limite podem aumentar a fiscalização sobre toda a categoria. Mesmo pedidos regulares podem permanecer mais tempo aguardando análise ou autorização para embarque.
Em decorrência da fiscalização mais rigorosa, o Certificado de Análise (CoA) passou a ser um dos principais documentos verificados.
Emitido por um laboratório, o certificado apresenta a composição analisada em determinado lote. Entre outras informações, ele permite verificar a concentração de canabinoides, como CBD e THC.
Atualmente, o CoA deixou de funcionar apenas como um documento complementar. Ele ajuda a demonstrar que o produto enviado corresponde à composição declarada e respeita os limites necessários para o transporte.
Segundo a apuração do Sechat, as empresas aéreas também estão analisando com mais cuidado outros documentos logísticos. Caso encontrem informações divergentes, incompletas ou insuficientes, podem adiar ou recusar o embarque.
Para o consumidor, isso significa que o pedido pode aparecer como “aguardando envio” mesmo depois de ter sido comprado e separado pelo fornecedor.
O cenário regulatório não é o único responsável pelos atrasos. Como a Cannalize já relatou, a indústria americana teve a logística aérea internacional encarecida e interrompida pelo pelo conflito envolvendo o Irã.
A guerra encarece combustíveis, fretes e diferentes etapas da cadeia de distribuição. Empresas norte-americanas do setor também relataram cancelamentos de pedidos e atrasos no fornecimento de insumos.
Quando companhias aéreas reduzem rotas, reorganizam voos ou priorizam cargas mais simples, produtos de cannabis podem levar mais tempo para encontrar espaço na malha internacional.
A guerra, não explica sozinha a demora. Mas, sem dúvida, agrava uma operação que já exige documentação detalhada e atenção regulatória.
O atraso nem sempre significa que o produto ficou retido pela Anvisa ou pela alfândega brasileira. A carga pode ainda estar aguardando fiscalização na origem, aprovação documental ou aceitação pela companhia aérea.
Diante de uma demora, o paciente pode perguntar ao fornecedor se o lote possui CoA atualizado, se a carga já foi aceita pela companhia aérea e em qual etapa logística o pedido se encontra.
Para tratamentos contínuos, também é importante planejar a reposição com antecedência e conversar com o profissional prescritor antes que o produto termine.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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