
E quando a dor não é (só) física?
ー A dor é um fenômeno subjetivo ー disse um médico. ー E é fundamental para a sobrevivência.¹
ー E por que eu vou querer sentir dor, Doutor?
ー Para saber que está viva! E para se manter viva.
A dor é uma experiência complexa, influenciada por múltiplos fatores, que envolve tanto a transmissão de estímulos nocivos quanto a interpretação destes pelo cérebro. A definição mais aceita foi elaborada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP): “Uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou semelhante àquela associada a uma lesão tecidual real ou potencial.”
Na medicina, em geral, a dor é frequentemente aferida com a Escala Visual Analógica (EVA), que vai de zero (nenhuma dor) a dez (a pior dor imaginável). O grande problema dessa avaliação, no entanto, é psicofísico, uma vez que tenta quantificar uma sensação que é, em sua essência, subjetiva.
Fatores culturais, influências sociais, fatores de personalidade e psíquicos, além de comportamentos, podem influenciar o registro da dor. E ainda temos que considerar a existência da somatização, em que a dor emocional pode se manifestar como dor física devido à maneira como o corpo responde a experiências emocionais negativas.
É justamente nesse ponto que a medicina encontra seus limites e a experiência humana revela sua complexidade. Se a dor fosse apenas um sinal elétrico viajando de um nervo até o cérebro, um analgésico seria sempre a resposta completa. Mas não é.
É aqui que a cannabis medicinal surge como uma ferramenta terapêutica interessante. Nosso corpo possui um sistema chamado Sistema Endocanabinoide, que atua como um maestro para manter o equilíbrio de diversas funções. A cannabis produz compostos, como o CBD (canabidiol), CBG (canabigerol) e o THC (tetraidrocanabinol), que interagem com esse sistema.
O tratamento com canabinoides é favorável para pacientes com dor crônica justamente porque eles agem de forma multifatorial. Em vez de apenas bloquear o sinal da dor, os canabinoides atuam em todas as suas vias, influenciando a transmissão, a modulação e até a percepção do estímulo doloroso no cérebro.
Isso significa que eles podem ajudar não só na dor física, mas também na forma como a interpretamos e sentimos emocionalmente.
Pacientes com dor crônica frequentemente apresentam outros desafios, como distúrbios de sono, ansiedade, humor deprimido e componentes emocionais fortes associados aos sintomas. A cannabis medicinal pode atuar de forma holística, abordando várias dessas queixas simultaneamente:
Muitas vezes, a abordagem mais eficaz não é usar esses componentes de forma isolada. O chamado “efeito comitiva” (ou entourage) sugere que os extratos completos da planta, que contêm fitocanabinoides, terpenos e flavonoides, têm seus efeitos potencializados.
Isso justifica por que produtos de espectro completo podem apresentar resultados superiores aos isolados, permitindo alcançar os efeitos desejados com doses menores e menos efeitos adversos.
Dessa forma, a cannabis medicinal se encaixa no tratamento da dor crônica não como uma solução mágica, mas como um tratamento complementar que reconhece a complexidade da dor. Ela pode ajudar o paciente a gerenciar melhor seus sintomas e a retomar atividades:
“a dor continua aqui, mas consigo gerenciar melhor e realizar as tarefas domésticas” ²
Tratar a dor vai além de silenciar um alarme no corpo. Trata-se de devolver a qualidade de vida, o bem-estar mental e a capacidade de interagir com o mundo. A cannabis, ao atuar sobre o físico e o emocional, oferece um caminho natural para os sintomas dolorosos.
Afinal, para se “manter vivo” não basta apenas que o corpo sobreviva. É preciso que a pessoa, em sua totalidade, encontre alívio e sentido no viver, mesmo na presença da dor.
¹ como visto no artigo A dor como um problema psicofísico. Revista dor, 2011.
² como visto no artigo Aspectos práticos do uso da cannabis medicinal em dor crônica. BrJP, 2023.
Para saber mais…
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Raíssa Ximenes
Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis
Inscreva-se grátis na nossa Newsletter!
Receita médica não basta para proteger o cultivo
União com o sagrado: meu casamento em uma cerimônia de Ayahuasca
O protagonismo feminino na cannabis medicinal no Brasil
Como a cannabis medicinal desafia a lógica da Big Pharma
A morte é a única certeza que temos na vida
O CBCM usou psicodélicos para abrir a mente da medicina
Copyright 2019/2023 Cannalize – Todos os direitos reservados
Solicitação de remoção de imagem
Termos e Condições de Uso