Globo Rural destaca cannabis medicinal e mostra como o cultivo pode transformar o agronegócio brasileiro em uma nova cadeia produtiva.

Filippo Mancuso, repórter do Globo Rural, falando sobre cannabis
A cannabis sempre esteve cercada de polêmicas. Embora seja reconhecida por seus usos medicinais, ainda carrega o estigma de ser associada à maconha recreativa. No entanto, a reportagem especial do Globo Rural mostrou que a planta pode representar uma revolução para o agronegócio brasileiro.
Pesquisadores lembram que a cannabis é usada como medicamento há pelo menos 5 mil anos, desde a China antiga. Hoje, a ciência comprova que seus princípios ativos, extraídos da inflorescência, oferecem benefícios em diversas áreas da saúde. Além disso, sementes e fibras podem ser aplicadas em setores como cosméticos, alimentos, papel e tecidos.
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O Brasil proibiu o cultivo da cannabis em 1930, quando a planta foi classificada como droga por conter substâncias entorpecentes. Durante décadas, o tema ficou fora da agenda pública. Apenas nos últimos anos, com a autorização do uso terapêutico, a cannabis voltou a ser discutida.
Desde 2015, a Anvisa permite a importação de produtos à base de cannabis para fins medicinais. Além disso, mais de 40 associações de pacientes conquistaram na Justiça o direito de plantar e produzir seus próprios medicamentos. Fora dessas exceções, o cultivo segue proibido.
A pesquisadora Daniela Bittencourt, da Embrapa, destacou que a instituição ainda não tem autorização para pesquisar a planta. Mesmo assim, já existem projetos de bancos de sementes e melhoramento genético voltados ao uso medicinal.
Segundo ela, a cannabis pode se tornar uma commodity estratégica para o Brasil, mas será necessário criar uma cadeia produtiva sólida, envolvendo agricultores, indústria e órgãos reguladores.
Apesar das limitações, iniciativas como o Polo de Desenvolvimento e Inovação em Cannabis (Podican) do Campus Curitibanos da UFSC são exemplos de pesquisa em cannabis nas universidades brasileiras. Coordenado pelo pesquisador Erik Amazonas, o Podican é pioneiro no Brasil na autorização para o plantio voltado à pesquisa científica.
A bióloga, mestranda da UFSC e pesquisadora Catherine Rose, entrevistada pela reportagem, contou à Cannalize que adorou ser entrevistada, principalmente dado o contexto de uma iminente regulação do cultivo de cannabis pela Anvisa.
“A importância desse tema ter sido abordado por um programa como o Globo Rural quebra paradigmas e rompe preconceitos e estigmas que a planta carrega. Também é importante mostrar que é possível utilizá-la em escala industrial. Acredito que a matéria foi muito bem pensada, para sensibilizar e estimular o público do agronegócio invista na planta”, comentou.
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O neurologista Pedro Pierro admitiu que, no início, não acreditava no potencial da cannabis como medicamento. O preconceito histórico pesava. Porém, sua visão mudou quando percebeu que a planta poderia substituir procedimentos invasivos, como a neurocirurgia em casos de epilepsia.

A reportagem mostra THC e CBD na planta
A reportagem destacou ainda os principais canabinoides: THC e CBD. Segundo Pedro Pierro, o THC não deve ser visto como vilão, já que ele é usado em tratamentos de dor oncológica e depressão. O problema não está na substância, mas na forma de consumo. “Fumar faz mal, não importa o que seja”, afirmou.
As associações de pacientes têm papel central no acesso à cannabis medicinal no Brasil. A ABRACE, por exemplo, foi mostrada como uma das maiores do país. Com autorização permanente do Supremo Tribunal Federal (STF), a entidade cultiva e produz óleo de cannabis.
O diretor-executivo Cassiano Gomes se define como um “agricultor revolucionário”. Ele começou a plantar para salvar a vida da própria mãe, Dona Zezé, que se tornou a primeira paciente da associação. Hoje, a ABRACE produz 1.300 quilos de flores secas por ano, em um processo que vai do transplantio à colheita em 90 dias.
Além do uso medicinal, a reportagem destacou o cânhamo, uma variedade de cannabis com baixo teor de THC. Historicamente usado para tecidos e cordas, o cânhamo pode ganhar espaço no Brasil como alternativa sustentável.

A reportagem do Globo Rural fala sobre produtividade do cânhamo
Segundo Bruno Pegoraro, presidente do Instituto Fícus, o cânhamo industrial oferece vantagens ambientais:
Para ele, a falta de regulamentação impede que o Brasil aproveite uma oportunidade de riqueza para o campo.
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Enquanto o Brasil ainda debate, o Paraguai regulamentou a cannabis industrial há seis anos. Lá, as plantas permitidas têm até 0,5% de THC. O país já consolidou cadeias produtivas que vão de alimentos a cosméticos.
Em uma fábrica visitada pela reportagem, mais de 700 quilos de sementes são processados por hora. Do grão prensado, extrai-se um azeite rico em nutrientes. O resíduo vira farinha, usada em rações, barras proteicas e cosméticos.

A reportagem do Globo Rural visitou um fabricante de alimentos à base de cânhamo no Paraguai
O resultado é expressivo: 70% da produção é exportada. Em 2024, as empresas paraguaias faturaram US$ 10 milhões (cerca de R$ 50 milhões). Um dos principais clientes é a Secretaria de Saúde da Prefeitura de São Paulo, que distribui óleos gratuitamente para pacientes de 15 patologias.
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A reportagem concluiu com a visão de Daniela Bittencourt, da Embrapa. Para ela, a cannabis pode se tornar a commodity do futuro no Brasil. No entanto, será preciso avançar em regulamentação, pesquisa e integração de cadeias produtivas.
O Globo Rural mostrou que a cannabis não é apenas um tema de saúde, mas também de agricultura, economia e inovação. O país tem condições de se tornar um grande player global, desde que consiga superar os tabus e criar políticas claras para o setor.
Por fim, a presença da cannabis medicinal em um programa como o Globo Rural é simbólica. O tema deixou de ser marginal e passou a integrar o debate sobre o futuro do agronegócio.
Com potencial para gerar empregos, movimentar bilhões e oferecer soluções sustentáveis, a cannabis pode transformar o Brasil em protagonista de um mercado em expansão. O desafio agora é transformar essa oportunidade em realidade
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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