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Para além do tratamento: a influência da cannabis na prática esportiva



16/12/2025


A influência da cannabis na prática esportiva, têm crescido por atletas do Brasil. Mas não para tratar uma condição específica. Entenda

Para além do tratamento a influência da cannabis na prática esportiva

Para além do tratamento a influência da cannabis na prática esportiva Foto: Fernando Paternostro e Dr. José Wilson

No pórtico de largada, o triatleta Fernando Paternostro ajeita o óculos, respira fundo e repassa mentalmente a rotina da semana: treinos, alimentação, sono. Nada de milagres, apenas consistência. Mas há um detalhe discreto, sem alarde que vem reconfigurando o caminho de muitos atletas: a cannabis medicinal.

Mas ela não serve para “curar” ou “tratar” uma doença específica, e sim para auxiliar o atleta em pontos fundamentais que sustentam performance: dor, sono, ansiedade e recuperação.

 “Eu disputei o circuito de Ironman usando somente produtos de cannabis. Contei toda essa experiência no perfil do Atleta Cannabis, como usei durante a prova, depois da prova, como me sinto”, disse, Paternostro, que encerrou a temporada entre os melhores da categoria. 

O Atleta Cannabis, criado pelo triatleta há seis anos, é a maior comunidade de atletas canábicos da América Latina e a segunda maior do mundo, só perde para a Sports Cannabis, que fica no Canadá.

A comunidade auxilia atletas no uso da cannabis medicinal para melhorar o desempenho do atleta, mas de forma indireta.  Uso que é respaldado pelos médicos. O Dr. José Wilson, por exemplo,  referência em medicina do esporte e endocanabinologia, ressalta:

“Quase todo atleta de alto rendimento convive com dor crônica, distúrbios do sono e ansiedade. A polifarmácia é comum; e eu encontrei na cannabis medicinal uma alternativa eficaz e mais saudável.”

Uma vantagem sem ser uma vantagem

De acordo com o médico, a cannabis pode influenciar na prática esportiva, mas não da forma que substâncias proibidas influenciam, como anabolizantes. O seu complemento é de forma indireta.

De acordo com uma revisão sistemática publicada no Journal of Science and Medicine in Sport, por exemplo, a cannabis (inclusive o THC) não melhora o desempenho aeróbico ou a froça de uma pessoa.

Quando um esportista têm suas dores amenizadas, um sono equilibrado e está menos ansioso, por exemplo, tende a render performar melhor. O conceito de “ergogênico indireto”, que o Dr. José defende, aparece com força na prática clínica e, aos poucos, ganha contornos na literatura,

“Se eu melhoro sua dor, sua recuperação muscular e a qualidade do sono, eu melhoro a performance a médio e longo prazo”, ele explica.

Mas a introdução da cannabis não é tão simples. É preciso um critério clínico, educação e planejamento de calendário: “A regra está aí para ser seguida… o médico precisa desenhar um protocolo seguro. Usar um produto isolado em competição, ajustar janela de washout do THC e escolher vias de uso”, lembra Fernando.

“Eu continuo prescrevendo CBD mesmo em períodos sem queixas. Ele funciona quase como um suplemento, desde que bem indicado”, diz o Dr. José, ao defender individualização de dose e objetivo.

Para além do tratamento a influência da cannabis na prática esportiva

Para além do tratamento a influência da cannabis na prática esportiva Foto: Fernando Paternostro e Dr. José Wilson

Mas e como fica o doping nessa história?

É impossível falar de cannabis no esporte sem olhar para o regulamento. A WADA (World Anti-Doping Agency), por exemplo, mantém os canabinoides na lista de substâncias proibidas em competição, com uma exceção clara: só o CBD (canabidiol) está permitido.

No plano internacional, a WADA classifica THC como “substância de abuso” e prevê manejo e penalidades específicas; o espírito é coibir uso em competição, sem punir injustamente quem não teve “intenção dopante”.

O texto mais recente do Prohibited List 2025 reafirma que THC (tetrahidrocanabinol) continua proibido em competição. O problema é que boa parte das competições brasileiras se baseiam nestas negras.

Dessa forma, muitos atletas ficam à mercê do CBD isolado ou produtos Broad-Spectrum, sem poder utilizar produtos com THC durante as competições.

Perigo dos produtos

Contudo, de acordo com o Dr. José Wilson, há risco de positivo involuntário. “Existe o risco de produtos que dizem não ter THC apresentarem a substância na formulação… por isso sempre peço o certificado de análise do lote”, alertou. “Tenho mais de um caso de atleta que positivou comprando ‘isolado’ lá fora… há estudos mostrando erro de rotulagem em cerca de 80% dos produtos analisados.”

A maioria dos produtos de cannabis utilizados por atletas no Brasil, são importados através da Resolução 660/22. Isso porque, apesar de existir óleos à venda nas farmácias, os produtos importados costumam ter uma variedade maior. Inclusive dos meios de aplicação.

Hoje em dia, já é possível encontrar também roll-ons, cremes e pomadas feitos de cannabis. Por outro lado, nos países de origem, a cannabis é regulamentada como um suplemento. Portanto, não há um rigor na composição dos produtos, o que pode levar a quantidades de THC que não deveriam conter.

E nesses casos, infelizmente a responsabilidade é do atleta. Embora o médico prescreva um produto que em tese não tenha THC, o esportista ainda pode ser penalizado caso venha cair em doping.

Mas há produtos seguros?

Felizmente, há empresas sérias que vendem produtos de cannabis com um rigor maior de qualidade. A NexBiopharma, por exemplo, já possui dois produtos no portfólio voltados para melhora do sono e recuperação muscular. A empresa ainda pretende prodzuir mais três para ajudarna ansiedade pré-prova.

Um dos produtos já no mercado, por exemplo, utiliza uma boa quantidade de CBG (canabigerol). Trata-se de um canabinoide da cannabis bastante conhecido por seus efeitos no foco. Já o segundo,m possui doze casas decimais de pureza, o mair puro do mercado. Talvez o unico que possa ser utilizado em provas ou atletas olímpicos.

No fim, a cena volta ao amanhecer de prova: o atleta amarra o tênis e respira fundo. Cannabis aqui, não é atalho; é mais uma ferramenta útil quando bem orientada, potente quando integrada à vida fora das raias. Porque é fora da linha de chegada que se decide quem aguenta voltar no dia seguinte.

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Tainara Cavalcante

Jornalista pela Fapcom (Faculdade Paulus de Comunicação) e pós graduada na FAAP (Fundação Armando Alves Penteado) em Jornalismo Digital, atua como produtora de conteúdo no Cannalize, Dr. Cannabis e Cannect. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.