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E quando a dor não é (só) física?



13/09/2025


E quando a dor não é (só) física

E quando a dor não é (só) física?

ー A dor é um fenômeno subjetivo ー disse um médico. ー E é fundamental para a sobrevivência.¹ 

ー E por que eu vou querer sentir dor, Doutor? 

ー Para saber que está viva! E para se manter viva.

A dor é uma experiência complexa, influenciada por múltiplos fatores, que envolve tanto a transmissão de estímulos nocivos quanto a interpretação destes pelo cérebro. A definição mais aceita foi elaborada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP): “Uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou semelhante àquela associada a uma lesão tecidual real ou potencial.”

Na medicina, em geral, a dor é frequentemente aferida com a Escala Visual Analógica (EVA), que vai de zero (nenhuma dor) a dez (a pior dor imaginável). O grande problema dessa avaliação, no entanto, é psicofísico, uma vez que tenta quantificar uma sensação que é, em sua essência, subjetiva. 

Fatores culturais, influências sociais, fatores de personalidade e psíquicos, além de comportamentos, podem influenciar o registro da dor. E ainda temos que considerar a existência da somatização, em que a dor emocional pode se manifestar como dor física devido à maneira como o corpo responde a experiências emocionais negativas.

É justamente nesse ponto que a medicina encontra seus limites e a experiência humana revela sua complexidade. Se a dor fosse apenas um sinal elétrico viajando de um nervo até o cérebro, um analgésico seria sempre a resposta completa. Mas não é.

A cannabis pode ajudar na dor?

É aqui que a cannabis medicinal surge como uma ferramenta terapêutica interessante. Nosso corpo possui um sistema chamado Sistema Endocanabinoide, que atua como um maestro para manter o equilíbrio de diversas funções. A cannabis produz compostos, como o CBD (canabidiol), CBG (canabigerol) e o THC (tetraidrocanabinol), que interagem com esse sistema.

O tratamento com canabinoides é favorável para pacientes com dor crônica justamente porque eles agem de forma multifatorial. Em vez de apenas bloquear o sinal da dor, os canabinoides atuam em todas as suas vias, influenciando a transmissão, a modulação e até a percepção do estímulo doloroso no cérebro. 

Isso significa que eles podem ajudar não só na dor física, mas também na forma como a interpretamos e sentimos emocionalmente.

Uma abordagem para a pessoa, não apenas para a dor:

Pacientes com dor crônica frequentemente apresentam outros desafios, como distúrbios de sono, ansiedade, humor deprimido e componentes emocionais fortes associados aos sintomas. A cannabis medicinal pode atuar de forma holística, abordando várias dessas queixas simultaneamente:

  • THC: É o canabinoide com o potencial analgésico mais importante. Ele também pode ajudar como relaxante muscular em casos de espasticidade muscular (contratilidade aumentada), antiemético (para não vomitar) e estimulante de apetite. Seus efeitos adversos são dose-dependentes e podem ser minimizados com doses baixas e progressivas. Isso significa que não é porque tem THC que o paciente vai ficar “chapado”, com doses baixas temos uma melhora dos sintomas sem psicotoxicidade. E aliás, em alguns casos, como em oncologia, esse efeito super psicoativo é muito bem-vindo! 
  • CBD: Conhecido por suas propriedades anti-inflamatórias, anticonvulsivantes, ansiolíticas e antipsicóticas, o CBD não possui o efeito psicotóxico do THC. Sua ação analgésica é mais branda, mas ele é fundamental para aliviar a ansiedade e pode modular os efeitos adversos do THC.
  • CBG: Considerado a “origem” de todos os fitocanabinoides, o CBG também apresenta efeito analgésico e antiinflamatório. Ele pode ser uma alternativa em produtos para se obter o efeito analgésico desejado e pode ser considerado para uso inicial ou para pacientes que tiveram uma experiência prévia ruim com o THC, para uma melhor tolerabilidade.

Muitas vezes, a abordagem mais eficaz não é usar esses componentes de forma isolada. O chamado “efeito comitiva” (ou entourage) sugere que os extratos completos da planta, que contêm fitocanabinoides, terpenos e flavonoides, têm seus efeitos potencializados. 

Isso justifica por que produtos de espectro completo podem apresentar resultados superiores aos isolados, permitindo alcançar os efeitos desejados com doses menores e menos efeitos adversos.

Dessa forma, a cannabis medicinal se encaixa no tratamento da dor crônica não como uma solução mágica, mas como um tratamento complementar que reconhece a complexidade da dor. Ela pode ajudar o paciente a gerenciar melhor seus sintomas e a retomar atividades:

“a dor continua aqui, mas consigo gerenciar melhor e realizar as tarefas domésticas” ²

Tratar a dor vai além de silenciar um alarme no corpo. Trata-se de devolver a qualidade de vida, o bem-estar mental e a capacidade de interagir com o mundo. A cannabis, ao atuar sobre o físico e o emocional, oferece um caminho natural para os sintomas dolorosos.

Afinal, para se “manter vivo” não basta apenas que o corpo sobreviva. É preciso que a pessoa, em sua totalidade, encontre alívio e sentido no viver, mesmo na presença da dor.

¹ como visto no artigo A dor como um problema psicofísico. Revista dor, 2011.
² como visto no artigo Aspectos práticos do uso da cannabis medicinal em dor crônica. BrJP, 2023.

Para saber mais…

  • A dor como um problema psicofísico. Revista dor, 2011.
  • Definição revisada de dor pela Associação Internacional para o Estudo da Dor: conceitos, desafios e compromissos. Associação Internacional para o estudo da dor (IASP). Jornal Internacional de Estudo da Dor – PAIN, 2020.
  • Aspectos práticos do uso da cannabis medicinal em dor crônica. BrJP, 2023.

Sobre as nossas colunas

As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.​

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Raíssa Ximenes

Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis