
Altas concentrações de THC são um problema?
Haxixe, Skunk e Ice são alguns dos termos que a mídia tradicional utiliza para falar sobre as mais diferentes formas que existem de consumir cannabis.
Muitas dessas reportagens, como a mais recente feita pelo Fantástico, falam de maneira terrorista, como se essas formas de consumo fossem o verdadeiro inimigo que a sociedade deve combater. Mas, como bons usuários, sabemos que eles estão errados.
O consumo de altas concentrações ou altas quantidades de cannabis se dá devido a um dos diversos compostos presentes na planta.
Para alguns, o consumo desse fitocanabinoide pode ser algo totalmente prazeroso, mas para outros, pode ser um tiro no pé. Isso porque o THC (Delta 9 Tetrahidrocanabinol), o composto psicoativo da planta, ainda é visto de maneira controversa por muitos estudiosos.
Podemos encontrar relatos sobre como essa substância ao ser utilizada de maneira indiscriminada pode causar ao usuário a chamada síndrome amotivacional, nome dado a um transtorno psiquiátrico normalmente caracterizado pela falta de interesse e apatia que também é muito comum em pacientes com transtorno depressivo.
Mas também encontramos diversos relatos de como essa mesma substância traz foco, melhora no humor, disposição, entre outros benefícios.
O D9-THC é um dos diversos fitocanabinoides produzidos pela nossa amada plantinha. Apresentando efeito antiemético, analgésico, antiespasmódico, broncodilatador, indutor de apetite e sedativo, além do já citado efeito psicoativo.
O D9-THC é obtido a partir da descarboxilação do THCA, forma ácida do composto encontrado nas flores do bem. É importante ressaltar que existem outros compostos como o D8-THC fruto da indústria do cânhamo estadunidense mas que também pode ser encontrado em baixas quantidades na planta.
A cannabis tem um efeito bifásico em nosso organismo, ou seja, para termos benefícios precisamos de uma dose exata (terapêutica), ultrapassar essa dose pode ter efeitos indesejados quando falamos do THC.
Dessa forma, é comum vermos pessoas que fazem uso indiscriminado da planta apresentarem bad trips ou a síndrome amotivacional.
É importante reforçar que como qualquer substância, precisamos adotar uma postura de redução de danos a fim de evitarmos possíveis complicações para nossa saúde. O uso responsável traz diversos efeitos benéficos para a saúde mental, e dependendo de alguns fatores, pode ser utilizada como um enteógeno.
Durante minhas idas e vindas com meu tratamento para depressão, tive meu primeiro contato com microdosagem de D9-THC em 2022 quando conheci a possibilidade das balas de goma ou gummies, para os mais íntimos.
Essa forma farmacêutica permite que uma dosagem pré-estabelecida seja administrada ao paciente, como uma cápsula, por exemplo. Antes disso, meu contato maior com THC era através dos baseados que eu fumava pelo menos 2 vezes ao dia como forma de motivação.
A microdosagem atua para meu caso exatamente como os antidepressivos atuavam, com a diferença de que eu não sinto efeitos adversos por ter atingido minha dose terapêutica.
Como consultor farmacêutico, recebo relatos de colegas médicos e dentistas que têm criado coragem para a prescrição de THC, aliando esse fitocanabinoide com outros, como o CBN para insônia e CBG para dor.
É de extrema importância a presença de um profissional de saúde que acompanhe o paciente de maneira próxima exatamente para ser um suporte quando houverem momentos difíceis como bad trips devido a um erro na dosagem.
A palavra enteógeno vem do grego, Entheos que significa “inspirado” ou “cheio de deus” e Genestha que significa “vir a ser”. Dessa forma, um enteógeno é uma substância psicoativa que pode gerar essa sensação de inspiração, podendo ou não propiciar o sujeito a experiências espirituais ou místicas.
Psilocybe cubensis e Ayahuasca são dois enteógenos clássicos, da mesma forma que a cannabis, quando falamos do uso ancestral da planta, bem como na modernidade ao falarmos de alguns cultos tradicionais brasileiros.
O conceito de enteogenia terapêutica resgata o conceito de a substância falar o que você precisa ouvir, podendo trazer diversos tipos de experiências diferentes dependendo do estado emocional do usuário.
As portas da percepção são abertas, podendo apresentar o céu ou o inferno para quem as utiliza. É importante entender que não podemos endeusar ou demonizar uma substância, pois existem diversos fatores que interferem nos usos e efeitos.
Dependendo da sensibilidade do usuário e da quantidade administrada de THC, o paciente pode ter insights importantes. Mas também pode apresentar bad trips, e é aí que entra a parte terapêutica.
Ser acompanhado por um profissional da saúde mental durante esses processos, é importante para que o paciente possa apresentar evoluções consideráveis durante suas sessões, bem como avanços importantes dentro de seu processo individual.
Graças às redes sociais, o auto diagnóstico tem se tornado comum e muitos têm utilizado essa “caixa” para justificar ações contraditórias. Mas se recusam a procurar o diagnóstico com um especialista.
Não devemos romantizar o sofrimento psíquico e a neuro divergência de forma alguma. Caso você esteja passando por alguma situação e não consegue ver uma saída, procure por ajuda. Seja um amigo, um profissional de saúde ou um confidente, mas procure por ajuda.
Em mundo onde o sonho de liberdade parece distante, principalmente devido ao capitalismo tardio, unir ciência e conhecimento ancestral para usar racionalmente de substâncias ou encontrar com seu “deus interior” pode ser a chave para a esperança de dias melhores.
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Clube Diambista
Inspirado pela tradição histórica dos antigos clubes diambistas brasileiros, o farmacêutico Guilherme Salgueiredo propõe um espaço de estudo e reflexão sobre a Cannabis. Nesta coluna, ciência, história e prática clínica se encontram para ampliar o entendimento sobre o uso medicinal da planta e fortalecer a educação em saúde baseada em evidências.
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