Mesmo com o autocultivo legalizado, a maioria dos consumidores uruguaios cadastrados compra cannabis na farmácia

Maioria dos uruguaios compra cannabis na farmácia
Durante uma das palestras da 3ª edição da Expocannabis Brasil, a cofundadora de LATINNABIS e ExpoCannabis Uruguay, Mercedes Ponce, divulgou o crescimento do consumo e do mercado de cannabis no Uruguai antes e depois da legalização.
O país foi o primeiro do mundo a legalizar e regulamentar a cannabis, tanto medicinal quanto recreativa, em 2013, durante o governo de “Pepe” Mujica. O Uruguai também desenvolveu um mercado medicinal e industrial, exportando flores e derivados para países como EUA, Alemanha e Brasil.
Durante a apresentação, que aconteceu ao lado do ex-secretário-geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai, Milton Romani, Mercedes mostrou que, mesmo a cannabis sendo legal até para o autocultivo, a maioria dos cidadãos compra cannabis na farmácia.
Dos mais de 108 mil usuários registrados no país, 80.804 preferem adquirir a cannabis e seus derivados nas drogarias. Já o cultivo doméstico fica em terceiro lugar, com 11.036 cadastrados, perdendo apenas para membros de clubes, que são um total de 16.693 pessoas.
Mesmo antes da legalização, o país viu o número de consumidores crescer. Embora o uso por si só nunca tenha sido crime, a demanda aumentava. Em 2001, por exemplo, 3,3% da população já havia experimentado a substância alguma vez na vida, enquanto o uso nos últimos 12 meses era de 1,4%.
Em 2006, esses números subiram para 5,3% e 3,3%, respectivamente, mostrando que, mesmo sem regulamentação, a tendência de aumento já estava presente. Em 2011, o consumo geral chegou a 8,3%, e o uso recente alcançou 5,6%, indicando uma aceitação social cada vez maior.
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A legalização, aprovada em 2013, marcou um ponto de inflexão nessa trajetória. Em 2014, apenas um ano após a regulamentação, o consumo geral atingiu 9,3%, enquanto o uso nos últimos 12 meses chegou a 6,6%.
Esse salto, embora não explosivo, demonstra um efeito imediato da nova política, que reduziu barreiras e estigmas, incentivando tanto o consumo experimental quanto o regular.
Aceitação que também foi percebida em números ao longo dos anos. Em 2012, apenas 24% da população era a favor, contra 66% contrários. Dez anos depois, a aprovação aumentou para 45%, enquanto a porcentagem de quem discordava caiu para 48%.
O número de pessoas que não opinavam também diminuiu. Em 2012, eles somavam 10% da população, número que caiu para 7%.
Tanto é que só no ano passado, o número de pessoas que haviam utilizado a cannabis, seja de forma medicinal ou recreativa ao menos uma vez na vida, aumentou para 32,9%.
Com base em dados de uma análise crítica do ex-secretário nacional de drogas do Uruguai, Diego Oliveira, Mercedes destacou que a regulamentação aumentou a percepção de risco e o controle de acesso, o que contribuiu para estabilizar o consumo.
Além disso, o país manteve índices de uso problemático estáveis, em torno de 2,1% desde 2011, e registrou aumento na idade de início do consumo, passando para a faixa dos 18 a 20 anos. Esses dados indicam que a legalização não gerou explosão de consumo nem agravou problemas de saúde pública, diferentemente do que muitos críticos temiam.
Por outro lado, Mercedes também lembrou que, apesar dos avanços, o modelo uruguaio enfrenta grandes desafios, como a necessidade de flexibilizar a regulação para ampliar a cobertura do mercado legal, melhorar a acessibilidade nas farmácias e diversificar produtos.
Para ela, também é preciso aumentar investimentos em pesquisa e atualizar o marco regulatório sobre drogas. No cenário internacional, barreiras de exportação, limitações logísticas e restrições financeiras dificultam a expansão do mercado.
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Tainara Cavalcante
Jornalista pela Fapcom (Faculdade Paulus de Comunicação) e pós graduada na FAAP (Fundação Armando Alves Penteado) em Jornalismo Digital, atua como produtora de conteúdo no Cannalize, Dr. Cannabis e Cannect. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.
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