A compra da AtaiBeckley pela Eli Lilly mostra como o DMT e outros psicodélicos avançam rumo à medicina. Entenda essa mudança.

Eli Lilly compra AtaiBeckley: o que muda para os psicodélicos?
Você provavelmente já ouviu falar do Mounjaro. Talvez até conheça alguém que esteja usando.
O medicamento ajudou a colocar a Eli Lilly no centro da transformação dos tratamentos para diabetes e obesidade. Agora, a mesma empresa está olhando para outro campo: os psicodélicos.
Em julho de 2026, a Eli Lilly anunciou a compra da AtaiBeckley por até US$ 3,8 bilhões. O negócio dá à farmacêutica acesso a uma linha de medicamentos psicodélicos para transtornos mentais.
O principal candidato é o BPL-003. Trata-se de uma formulação intranasal de 5-MeO-DMT, uma substância psicodélica relacionada ao DMT.
O foco inicial é a depressão resistente ao tratamento.
Leia também: Visão sobre cannabis e psicodélicos mudou nos EUA
A mudança é relevante por um motivo simples. Uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo decidiu investir bilhões em uma área que, por décadas, esteve ligada à contracultura e ao misticismo.
A pergunta, portanto, mudou.
Já não basta perguntar se os psicodélicos podem entrar na medicina. Agora, precisamos entender o que acontece quando a grande indústria farmacêutica decide investir nesse campo.
Antes do Mounjaro, a Eli Lilly já tinha ajudado a mudar a relação da sociedade com a saúde mental.
Em 1987, a FDA aprovou a fluoxetina. Pouco depois, o medicamento chegou ao mercado com um nome que se tornaria conhecido em todo o mundo: Prozac.
A fluoxetina é um antidepressivo. Ela pertence à classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina.
Seu impacto, porém, foi além da farmacologia.
O Prozac ajudou a consolidar uma nova ideia. Medicamentos poderiam alterar a forma como uma pessoa se sentia e vivia o cotidiano.
Quase 40 anos depois, a Eli Lilly volta a olhar para a mente humana.
Desta vez, o caminho passa pelos psicodélicos.
A indústria farmacêutica não inventou essas moléculas.
Muito antes dos laboratórios, plantas e animais já produziam compostos psicodélicos.
A chacrona, por exemplo, é conhecida cientificamente como Psychotria viridis. Suas folhas contêm N,N-dimetiltriptamina, mais conhecida como DMT.
A jurema-preta, Mimosa tenuiflora, também contém DMT. A planta ocupa um lugar importante na história etnobotânica e ritual do Nordeste brasileiro.
Existe ainda outro exemplo curioso.

O sapo do deserto de Sonora, Incilius alvarius, produz uma secreção que contém 5-MeO-DMT. Durante muito tempo, a espécie foi chamada de Bufo alvarius (imagem acima).
Essa molécula é diferente do DMT clássico.
É justamente o 5-MeO-DMT que está relacionado ao BPL-003, desenvolvido pela AtaiBeckley como uma formulação sintética de mebufotenina benzoato.
Ou seja, a indústria não está criando uma nova experiência do zero.
Ela está tentando transformar moléculas conhecidas em medicamentos padronizados, testáveis e regulados.
DMT pode virar medicamento?
Essa é uma das questões mais interessantes do atual momento da pesquisa psicodélica.
O objetivo não é simplesmente colocar DMT em uma cápsula e vendê-lo como um antidepressivo.
O desafio é muito maior.
Pesquisadores precisam entender dose, segurança, duração dos efeitos, mecanismo de ação e possíveis benefícios clínicos.
Leia também: Estudo descobre método para “medir” psilocibina em cogumelos
Também precisam descobrir quais pacientes podem se beneficiar dessas terapias.
O BPL-003 é um exemplo dessa busca.
Segundo a Eli Lilly, o candidato apresentou redução rápida e duradoura de sintomas depressivos em um estudo de fase 2b. O programa já iniciou atividades de fase 3.
Isso ainda não significa que o medicamento esteja aprovado.
Ensaios clínicos precisam confirmar os resultados. Além disso, órgãos reguladores precisam avaliar os dados antes de qualquer eventual aprovação.
Essa diferença é fundamental.
Um psicodélico em desenvolvimento não é o mesmo que um tratamento comprovado e disponível para pacientes.
Talvez a maior mudança não seja o DMT virar remédio.
O ponto mais importante pode estar em outra pergunta: o que os psicodélicos podem ensinar sobre a mente?
Durante décadas, boa parte da farmacologia psiquiátrica buscou alterar a atividade de determinados neurotransmissores.
Agora, a pesquisa também investiga mudanças na conectividade do cérebro, na percepção, nas emoções e na plasticidade neural.
Em termos simples, a plasticidade neural é a capacidade do cérebro de formar e fortalecer conexões.
Leia também: Faculdade de medicina da USP recebe simpósio sobre psicodélicos
Essa linha de pesquisa abre uma possibilidade diferente.
Em vez de apenas corrigir um desequilíbrio químico, alguns tratamentos podem buscar mudanças mais amplas na forma como redes cerebrais funcionam.
Ainda estamos aprendendo o que isso significa na prática.
Por isso, é importante separar expectativa de evidência.
A trajetória da Eli Lilly ajuda a mostrar como a farmacologia pode mudar de direção.
Primeiro, veio o Prozac e uma nova forma de pensar sobre medicamentos para saúde mental.
Depois, vieram tratamentos como o Mounjaro, que transformaram o debate sobre diabetes e obesidade.
Agora, a empresa aposta em psicodélicos.
O movimento também mostra que o interesse pelos psicodélicos deixou de estar restrito a pequenos grupos de pesquisa e empresas especializadas.
Grandes farmacêuticas estão entrando no setor.
Isso pode acelerar investimentos, ensaios clínicos e desenvolvimento de novos medicamentos.
Também aumenta a responsabilidade.
Quando uma experiência humana complexa passa a ser transformada em produto farmacêutico, surgem novas questões sobre acesso, custo, segurança e uso adequado.
A história está apenas começando.
Do Prozac ao Mounjaro. Do Mounjaro ao 5-MeO-DMT.
A farmacologia parece estar fazendo uma curva inesperada.
Talvez a pergunta mais interessante para os próximos anos não seja se os psicodélicos vão entrar na medicina.
Eles já estão entrando.
A questão agora é o que a medicina fará com eles quando finalmente chegarem pela porta da frente.
Lucas Lomba
Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743
Inscreva-se grátis na nossa Newsletter!
A natureza poderia ser divina
Receita médica não basta para proteger o cultivo
União com o sagrado: meu casamento em uma cerimônia de Ayahuasca
O protagonismo feminino na cannabis medicinal no Brasil
Como a cannabis medicinal desafia a lógica da Big Pharma
A morte é a única certeza que temos na vida
Copyright 2019/2023 Cannalize – Todos os direitos reservados
Solicitação de remoção de imagem
Termos e Condições de Uso