Na última quinta-feira (26), o InovaHC, hub de inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, recebeu um mini simpósio sobre Psicoterapia Assistida por Psicodélicos (PAP).
O evento foi promovido pelo Instituto Alma Viva. Além disso, reuniu especialistas do Brasil, Canadá e Reino Unido para apresentar evidências científicas sobre o uso da psilocibina no tratamento da depressão.
Mais do que uma introdução ao tema, o encontro discutiu protocolos clínicos, responsabilidade terapêutica e os limites atuais da pesquisa.
Participaram o neuropsicofarmacologista David Nutt, do Imperial College London; a psiquiatra Elisa Brietzke, da Queen’s University; e a professora Gisele Fernandes-Osterhold, da University of California, San Francisco.
Todos atuam diretamente em pesquisa clínica com psicodélicos.
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Três aulas, um campo em reconstrução
O simpósio foi dividido em três aulas de 25 minutos.
Primeiramente, Gisele Fernandes-Osterhold apresentou os princípios da Psicoterapia Assistida por Psicodélicos. Em seguida, David Nutt falou sobre o futuro dos psicodélicos na saúde mental. Por fim, Elisa Brietzke abordou o uso da psilocibina no tratamento da depressão maior.
Além das evidências atuais, os especialistas resgataram o passado do campo. O debate incluiu o uso ancestral de cogumelos psilocibinos por povos originários. Também foi citado o encontro entre Maria Sabina e R. Gordon Wasson, em 1955.
No entanto, as pesquisas foram interrompidas nas décadas de 1960 e 1970. Decisões políticas bloquearam um campo que, até então, avançava rapidamente.
Hoje, contudo, o cenário é diferente. A chamada renascença psicodélica impulsiona novos estudos clínicos em universidades de referência. Essas pesquisas investigam depressão, transtornos relacionados ao trauma e dependências. Em especial, focam pacientes que não respondem bem às terapias convencionais.
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“O problema é político”, afirma David Nutt
Durante sua apresentação, David Nutt criticou o histórico de proibição.
““O problema é político. Temos que mudar as ideias de 50 anos atrás. Nos anos 70 os governos queriam obliterar as pesquisas com psicodélicos. Eles quase conseguiram. Nós começamos a reavaliar. Os psicodélicos são os menos perigosos.”
Segundo ele, essas substâncias atuam em regiões cerebrais com alta densidade de receptores. Além disso, influenciam a neuroplasticidade.

Professor David Nutt explica sobre psicodélicos em evento online
“Os psicodélicos alteram o crescimento dos neurônios, mudando como entendemos o passado.”
Ao comparar com antidepressivos convencionais, o pesquisador utilizou uma metáfora.
“É como o gesso em uma fratura. Ele não conserta, mas mantém parado. Os psicodélicos são diferentes. Eles quebram os pensamentos depressivos mudando a maneira como funcionam.”
Ele também mencionou estudos envolvendo tabagismo, dor crônica e vício em jogos.
“Em fibromialgia, a dor se reduziu por 4 semanas. 12 de 15 fumantes pararam de fumar totalmente. É o tratamento mais eficaz contra o tabagismo. Estamos começando um estudo piloto para pessoas com vício em jogo.”
A urgência por novas respostas
Para Elisa Brietzke, o debate envolve tempo e risco.
“Os antidepressivos demoram até 6 meses para fazer efeito. Precisamos de opções mais rápidas e diferentes dos antidepressivos convencionais.”
Segundo ela, a proposta não é substituir tratamentos já consolidados. Pelo contrário. O objetivo é ampliar as alternativas para pacientes resistentes às terapias atuais.
Assim, a psilocibina surge como possibilidade dentro de protocolos estruturados e acompanhados clinicamente.
Consciência, identidade e responsabilidade clínica
Gisele Fernandes-Osterhold aprofundou os fundamentos terapêuticos da PAP. Segundo ela, o estado induzido pela psilocibina pode envolver a dissolução temporária da egoconsciência.
Nesse contexto, vínculos rígidos de identidade se tornam mais flexíveis. Como resultado, o paciente pode reorganizar a forma como se percebe.
“Esses estados têm resultados clínicos. Esses compostos conduzem a mudanças de consciência e podem redefinir o conceito de si.”
No entanto, ela reforçou limites importantes.
“Estamos tentando entender como a dosagem influencia o estudo clínico. Não podemos dizer que a psilocibina pode curar câncer ou Parkinson. Podemos, sim, entender como lidar melhor com esses diagnósticos.”
Por fim, destacou o potencial transformador da abordagem.
“O potencial da PAP é empoderar as pessoas a se apropriarem da sua própria vida.”
Ciência, ética e impacto social
O Instituto Alma Viva é o Centro de Ensino e Pesquisa da Biocase Brasil. Para a Biocase, apoiadora da iniciativa, o avanço do campo deve ocorrer com maturidade científica. Além disso, precisa estar ancorado em ética e responsabilidade.
O foco, portanto, não é promover substâncias. O objetivo é ampliar o debate sobre novas possibilidades terapêuticas para pessoas que ainda não encontraram respostas eficazes na saúde mental.
Realizar o encontro no InovaHC reforça essa mensagem. O núcleo atua em três pilares: cultura de inovação, co-desenvolvimento tecnológico e conexão com o ecossistema.
Assim, ideias podem se transformar em soluções. E a ciência pode gerar impacto social de forma responsável.




