Cannalize entrevista o psicanalista Jairo Coutinho que nos contou como foi a ideia e os objetivos para publicar o livro cannabis no autismo. Confira!
O Dr. Jairo Coutinho, médico psiquiatra, com mais de 50 anos de experiência em atendimento psiquiátrico, psicoterápico e medicina psicossomática, lança nessa quinta-feira, 18/06, o livro: cannabis medicinal no autismo: Fundamentos terapêuticos baseados em evidências científicas.

cannabis no autismo jairo coutinho
Antes do lançamento, Dr. Jairo concedeu uma entrevista exclusiva para a Cannalize contando sobre o que motivou a produção do livro e como ele poderá ajudar na promoção da qualidade de vida do paciente com Transtorno do Espectro Autista (TEA), confira!
A ideia de escrever um livro sobre cannabis medicinal e a relação com o autismo surgiu na minha prática psiquiátrica.
Em uma consulta, uma mãe me apresentou a ideia, pois ela soube que havia uma possibilidade de tratamento com CBD para criança autista e me perguntou sobre essa questão.
Isso aconteceu em de 2015, quando a receita de CBD passou a ser liberada aqui no Brasil. Então pensei: “Vamos ver”. Eu sempre fui muito aberto a descobrir coisas novas, pesquisar, estudar e então comecei a investigar sobre o uso de cannabis medicinal no tratamento do autismo.
Nesses anos mergulhando nessa prática médica utilizando CBD, reparei uma carência muito grande de informações e pesquisas sobre a utilização dos derivados da cannabis no autismo. O que é um vazio muito grande.
A partir de então, comecei a fazer levantamentos bibliográficos e acabei descobrindo muito preconceito em relação à utilização da cannabis, principalmente entre pessoas que tratavam pacientes com autismo.
O que eu espero com o livro é democratizar esse conhecimento sobre o uso de cannabis medicinal como parte do tratamento de autismo. Levar evidências científicas para colegas médicos, familiares, profissionais de saúde, educação e assistência social.
O livro veio justamente para ajudar a criar consciência sobre as possibilidades do uso dos derivados da cannabis no tratamento do autismo, inclusive influenciando políticas públicas.
Essa é a dimensão da importância do tema. O livro vai ajudar nesse debate e a formar uma consciência nacional sobre o assunto.
Primeiro, falando das evidências científicas da cannabis na medicina de forma geral: hoje existem cerca de 40 mil artigos científicos mostrando utilidade dos derivados da cannabis para muitas terapias, não só as psiquiátricas.
O que mais me chamou atenção e foi um dos principais motivos para escrever o livro cannabis medicinal no autismo foi um artigo publicado em 2025. Nele, o pesquisador analisou cerca de 500 casos de autismo em um processo de meta-análise, investigando diversos trabalhos já publicados.
Esse estudo chegou à conclusão de que o CBD é extremamente útil e faz diferença significativa em relação ao placebo, inclusive em estudos duplo-cegos.
Isso mostra a força da evidência científica especialmente em relação aos sintomas que acometem autistas em momentos de sobrecarga.
Existe um consenso bastante consistente, mas não no sentido de “curar” o autismo. O autismo não é uma doença. É uma neurodivergência, um modo próprio de estar no mundo. Portanto, não existe remédio para isso.
Pelo contrário, pessoas autistas podem ter vidas absolutamente normais e extremamente bem-sucedidas, como muitos exemplos demonstram.
Bill Gates já afirmou que, provavelmente, seria diagnosticado dentro do espectro hoje. Greta Thunberg é declaradamente autista.
Aqui no Brasil temos a Letícia Sabatella, que descobriu o autismo aos 52 anos enquanto investigava o diagnóstico do filho. Ela mesma disse que descobrir o autismo foi libertador.
Por quê? Porque pessoas neurodivergentes têm formas diferentes de perceber o mundo, e isso é extremamente valioso. Então o consenso científico existe em relação à ação do CBD sobre sintomas decorrentes das sobrecargas sensoriais, cognitivas e emocionais do autismo.
Hoje alguns médicos admitem eventualmente o uso da cannabis para convulsões refratárias, mas é uma visão muito estreita. Eu até entendo, porque no Brasil a possibilidade legal de prescrição é muito recente.
Isso começou principalmente por causa da história da Annie Fischer, uma criança de sete anos que tinha cerca de 80 convulsões por semana.
A mãe dela foi aos Estados Unidos, viu o uso medicinal da cannabis, trouxe clandestinamente para o Brasil e percebeu uma redução drástica das convulsões já na primeira semana.
Essa mãe começou uma mobilização junto com outras mães e, em 2015, a Anvisa autorizou oficialmente o uso medicinal da cannabis.
Hoje entendemos que existem características muito específicas: dificuldades nas relações sociais, de contato olho no olho e comportamentos repetitivos, além de certa rigidez cognitiva e comportamental.
Muitas vezes o sofrimento vem exatamente dessa rigidez. A pessoa precisa que tudo permaneça igual e qualquer mudança pode gerar sofrimento intenso, levando a dois tipos de resposta de sobrecarga.
Uma delas é o chamado meltdown, quando existe uma explosão emocional. A criança pode se automutilar, bater na parede, se jogar no chão.
O outro é o shutdown, que é um apagamento, um isolamento. A pessoa simplesmente “desliga”, ela pode ser sair de uma festa, abandonar um ambiente ou se isolar completamente porque aquele estímulo gerou sofrimento.
Essas manifestações são consequência de sobrecarga emocional, cognitiva e sensorial. E é justamente nessas manifestações que os canabinoides apresentam as melhores evidências científicas que, inclusive, pude notar em minha prática clínica.
Cada episódio de sobrecarga é, na verdade, um problema na administração das informações que chegam ao cérebro. É como se a adrenalina estivesse funcionando em 220 quando deveria estar em 110 volts.
O que temos há milhares de anos de observação clínica é justamente essa capacidade da cannabis de “relaxar”, no sentido de levar o sistema nervoso para um estado de equilíbrio.
Isso foi muito bem demonstrado por pesquisadores como Elisaldo Carlini e Raphael Mechoulam, que mostraram a existência do sistema endocanabinoide.
Esse sistema existe há milhões de anos nos organismos animais e funciona justamente regulando a comunicação neuronal.
Quando um neurônio transmite informação para outro, o organismo produz endocanabinoides que regulam esse excesso de atividade. Estamos falando de um cérebro com 86 bilhões de neurônios e centenas de trilhões de conexões. É um sistema extremamente complexo.
Então meu raciocínio é: se conseguimos regular essa transmissão neuronal, conseguimos regular também as sobrecargas.
Mas isso não funciona como uma solução mágica pontual. Não é “estou mal agora, vou tomar uma gotinha”. O que funciona é um acompanhamento contínuo, progressivo, encontrando a dosagem ideal para aquele indivíduo.
Existem casos em que doses pontuais ajudam como, por exemplo, artistas antes de entrar em cena e mulheres durante o período menstrual, mas o mais importante é construir um equilíbrio contínuo.
Tenho pacientes que eram não verbais e passaram a desenvolver fala após encontrar o ponto adequado da terapia. Mas isso exige acompanhamento frequente e cuidado continuado.
Não. Isso é muito importante. Estou falando muito da cannabis, mas, para mim, principalmente em crianças e adolescentes, as abordagens não farmacológicas são fundamentais.
Ação pedagógica adequada, suporte familiar e estratégias educacionais. O medicamento ajuda a pessoa a desenvolver possibilidades, mas não produz isso sozinho. No caso dos adultos, por exemplo, considero a psicoterapia fundamental.
A terapia cognitivo-comportamental ajuda muito o paciente a identificar situações de sobrecarga e desenvolver estratégias para enfrentá-las. A cannabis pode ajudar na regulação, mas ela precisa estar integrada dentro de um cuidado muito mais amplo.
Para saber mais sobre o livro “Cannabis medicinal no autismo”, assista à live de lançamento com o psicanalista Jairo Coutinho no Instagram da Cannalize. Esperamos vocês lá.
Rodrigo Svrcek
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