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Casal Hemp Vegan encara críticas “sem falir” e “sem fugir”



09/08/2025


Em entrevista à Cannalize, Barbara Arranz e Gustavo Palencia rebatem a Anvisa e acreditam em “perseguição”, mas não se intimidam com os haters 

Fundadores da Hemp Vegan, Barbara Arranz e Gustavo Palencia, em entrevista à Cannalize

Fundadores da Hemp Vegan, Barbara Arranz e Gustavo Palencia, em entrevista à Cannalize

Não tem sido fácil para a Hemp Vegan.  

Até o ano passado, tudo andava bem: faturamento consistente, captação anual de recursos bem-sucedida e a experiência de ter apresentado um grande e chamativo estande na maior feira de Cannabis do Brasil, com produtos entregando mais que estética, “experiência”. 

Mas alguns problemas começaram a aparecer: o direito de importar seus produtos ao Brasil foi revogado, o velho fantasma do cancelamento deu as caras nas redes sociais e, mais recentemente,  Anvisa determinou o recolhimento de produtos contendo termos como “hemp” na embalagem.  

Em comunicado oficial no fim de julho, a Anvisa alegou que a marca não seguia normas de rotulagem. Esse foi o segundo ato do órgão regulador, que já havia autuado a empresa em fevereiro por publicidade indevida. Procurada, a Anvisa não respondeu às perguntas da reportagem, até a publicação desta matéria. 

Leia também: Anvisa proíbe a comercialização de produtos da Hemp Vegan

Em uma longa e provocativa publicação no LinkedIn, entitulada “Carta aos que constroem com a gente”, Gustavo Sanchez Palencia, CEO da marca, apresentou dados coerentes e sustentou um argumento provocativo de “censura” ao pequeno empreendedor brasileiro.  

“Não estamos discutindo risco sanitário real, mas interpretação subjetiva sobre o nome de uma marca na embalagem. A censura ao natural não é científica, é política”, reagiu. 

No Instagram, rede social menos corporativa, os ataques ainda caíam como pedras: comentários acusatórios de “calote em investidores” e “produtos falsos”, que Bárbara Arranz respondia com veemência (e uma gota de deboche): “Calúnia na internet também é crime, ok? Produtos falsos? Só se for na cabeça de quem acha que sabe tudo e não sabe de NADA”.  

Não é exagero dizer que, mesmo com dias de glória, a Hemp Vegan tem tido dias de luta. Por isso, a Cannalize foi atrás do “casal Hemp Vegan” para saber como está sendo viver no olho do furacão. Acompanhe a entrevista completa e exclusiva abaixo: 

Nota da redação: Esta entrevista foi realizada por videochamada e posteriormente transcrita. As respostas foram editadas exclusivamente para clareza, fluidez e organização textual, sem alteração do conteúdo ou do sentido original das falas. A versão integral da entrevista está registrada e disponível para consulta, conforme solicitado pelos próprios entrevistados. 

No fim de julho, a Anvisa divulgou a decisão de proibir a comercialização, distribuição, fabricação, propaganda e uso de produtos da Hemp Vegan, alegando que os termos presentes nas embalagens podem “confundir os consumidores”. Como vocês receberam essa notícia? 

Gustavo Palencia: Olha, pra entender essa decisão da Anvisa, é importante voltar um pouco no tempo. Desde fevereiro a gente já vinha enfrentando entraves com a agência, que começou bloqueando nossos produtos de canabidiol — inclusive um que era produzido por uma empresa europeia, com toda a documentação em dia. A alegação foi o uso de imagens e depoimentos no nosso site, que supostamente configurariam publicidade. A gente acatou a notificação, fez os ajustes, retirou imagens. Segui, inclusive, o mesmo protocolo que outras empresas seguiram, como a Cannect, e mesmo assim os pacientes continuaram recebendo mensagens negativas da Anvisa ao tentar importar. 

Então, quando a decisão mais recente veio — dessa vez, proibindo os nossos cosméticos por causa do nome “Hemp Vegan” na embalagem — foi um choque, mas também a continuidade de algo que já estava acontecendo. A fábrica respondeu a Anvisa apresentando o registro da marca no INPI, mas a agência simplesmente ignorou e só se manifestou publicamente depois, sem qualquer tipo de diálogo direto conosco. 

Sinceramente, parece uma perseguição. A gente está falando de uma empresa pequena, com operação enxuta no Brasil, dois empreendedores tentando fazer acontecer. E ainda assim, o tratamento foi como se fôssemos uma grande corporação desobedecendo normas de propósito. Falta à Anvisa um papel mais educativo, mais próximo do empreendedor. Em outros países, o procedimento seria primeiro apresentar um “book” com o que está errado, oferecer orientação, e só depois aplicar alguma sanção. Aqui, o caminho foi o oposto: primeiro vem a proibição, depois — se vier — a explicação. 

Bárbara Arranz: E o que mais me incomoda é a forma como isso subestima a inteligência do consumidor brasileiro. A gente está em 2025 e, de repente, surge essa ideia de que um nome ou uma identidade visual pode confundir as pessoas sobre a composição de um cosmético. Como assim? Estamos falando de um mercado que já está amadurecendo, com produtos que têm registro, que passaram por aprovação, e que não contêm nenhum derivado de cannabis. O que está em questão é o nome da marca. 

A decisão veio como um baque. Principalmente porque a gente está desde 2020 se esforçando pra fazer tudo certo: enfrentamos resistência para entrar em shopping, criamos quiosques, desenvolvemos franquias… sempre buscando diálogo com os órgãos competentes. A gente já sabia que trazer uma proposta disruptiva como essa, de falar sobre cannabis no varejo, incomodaria. Mas honestamente, não esperávamos que viesse dessa forma. 

E mais: nunca houve publicidade direta dos produtos. As imagens que estavam no site eram de pessoas que usaram e aprovaram, com depoimentos espontâneos. Se até isso for considerado irregular, quer dizer que o consumidor nem pode mais compartilhar sua experiência no Instagram? É uma confusão conceitual muito séria, porque mistura o que é propaganda, o que é marca e o que é liberdade de expressão. 

Gustavo: Exato. E agora estamos falando de um prejuízo muito alto, um estoque inteiro de produtos que não podem ser vendidos. Temos que recolher, redesenhar as embalagens, submeter tudo de novo — para os mesmos órgãos que aprovaram esses cosméticos dois anos atrás. É como se o empreendedor fosse penalizado por seguir as regras. E se fosse só a questão de ajustar, tudo bem. Mas ninguém respondeu a fábrica, ninguém chamou pra conversar. Só veio a bomba pública. 

Entre os nomes dos produtos, destacam-se termos como “PsiloGlow”, “MagicLSD” e “AlucinaCreme” que, segundo a agência, podem transmitir informações falsas ou confusas sobre a fórmula, origem ou finalidade dos produtos. De onde veio a decisão de usar estes nomes? 

Bárbara Arranz: Essa decisão foi uma escolha bem pensada e muito pessoal minha, construída em conjunto com uma designer que trabalhava comigo no processo de branding. Desde o início, sempre entendi que nossa proposta no mercado precisava ser criativa, provocadora e alinhada a uma identidade de marca que conversasse com inovação, ousadia e o universo canábico como símbolo — mesmo que, nos cosméticos em questão, não houvesse nenhum derivado de cannabis na composição. 

Para mim, nomes como PsiloGlow ou MagicLSD são metáforas, referências culturais que ativam curiosidade — como tantas outras marcas fazem há décadas. Tem um exemplo clássico que eu sempre gosto de citar: o creme Morte Súbita, da Lola Cosméticos. É um nome impactante, mas ninguém acha que vai morrer ao usá-lo. Por que, então, nosso MagicLSD seria mais problemático? São camadas simbólicas. No caso, a sigla LSD, por exemplo, também pode ser entendida como “lindo, solto e desembaraçado” — que é exatamente a proposta do produto. 

Gustavo Palencia: É isso. Existe um limite entre a literalidade e o jogo criativo de uma marca. A Anvisa, nesse caso, parece desconsiderar completamente esse contexto. Se formos seguir essa lógica, então marcas como Coca-Cola também deveriam ter mudado de nome décadas atrás, já que a substância que deu origem ao nome era realmente presente na fórmula por muito tempo. 

Na prática, a sensação que a gente tem é de que estão tentando podar o que é novo, o que é fora do padrão, o que desafia o conservadorismo. Só que não dá para barrar um produto apenas porque ele tem um nome criativo. Isso é cercear a liberdade empreendedora e sufocar o pequeno. Porque se fosse uma multinacional usando esses mesmos nomes com uma campanha milionária, será que o tratamento seria o mesmo? 

Bárbara: Eu também vejo isso como um posicionamento político. Quando decidi dar esses nomes, sabia que poderia gerar incômodo. Mas também sabia que era necessário. São mais de dez anos de atuação no setor, e eu sinto que tenho, sim, um papel de furar essa bolha. Não estou aqui para repetir fórmulas que já estão no mercado. O que me move é trazer algo novo, mesmo que isso custe caro. 

Claro, dentro da empresa, nem todo mundo concorda com isso. Às vezes rola debate interno. Mas é uma escolha consciente: assumir a polêmica para abrir espaço para que, no futuro, outras marcas possam ousar também. Se eu tenho que levar as pedradas por isso, tudo bem. Eu assumo esse papel. 

A Anvisa citou a Lei nº 6.360/1976, que impede a fabricação de produtos sem comprovação técnica ou registro regular. Os produtos estão sem registro? 

Gustavo Palencia: De forma alguma. A gente estranhou bastante essa menção da Anvisa, porque em nenhum momento fomos notificados ou alertados sobre qualquer irregularidade relacionada à ausência de registro técnico dos produtos. Todas as comunicações oficiais que recebemos até agora se referem exclusivamente ao uso do nome “Hemp” nas embalagens. Nada mais. 

Então, quando a Anvisa publica uma nota generalizando, como se estivéssemos operando sem cumprir exigências básicas, isso nos preocupa — não só pela imprecisão da informação, mas pelo impacto direto na nossa imagem pública. É importante dizer: não estamos na informalidade. Pelo contrário, sempre procuramos seguir os caminhos institucionais, ainda que eles sejam lentos, burocráticos ou confusos. 

Bárbara Arranz: A fábrica com a qual trabalhamos no Brasil tem todas as certificações em dia, inclusive o GMP, que é um selo de Boas Práticas de Fabricação. Para conseguir entrar num shopping com um quiosque, por exemplo — como a gente fez —, é necessário apresentar à administração uma série de documentos, e os registros de todos os produtos são os primeiros da lista. Esses registros foram aprovados oficialmente em fevereiro de 2024, e até então estavam absolutamente em conformidade com o que a legislação exigia. 

Foi só em maio que surgiu esse pedido de recolhimento, e, mesmo assim, o motivo não foi ausência de registro, e sim o uso de termos considerados “confusos” nas embalagens. Ou seja, tecnicamente, nossos produtos estavam — e ainda estão — dentro da legalidade. O problema está num campo muito mais subjetivo, relacionado à interpretação da identidade visual e da linguagem da marca. 

Gustavo: É isso. O que nos incomoda é que essa suposta ausência de comprovação técnica nunca foi levantada diretamente pra gente. Não tivemos nenhuma notificação formal da Anvisa dizendo “olha, vocês estão irregulares do ponto de vista técnico”. A fábrica foi notificada sobre o uso do termo “Hemp”, apresentou a documentação comprobatória do INPI, e depois disso… silêncio. Nenhuma resposta da Anvisa. E aí, meses depois, a bomba cai na mídia, como se fôssemos irresponsáveis. 

Se há algo de errado, o mínimo que a agência deveria fazer era dialogar — ou, no mínimo, responder. O que não dá é pra jogar no ventilador uma informação que não condiz com os fatos e esperar que o empreendedor arque sozinho com o prejuízo e a má reputação. 

No comunicado da Anvisa ainda consta que os cosméticos são fabricados em nome da BE Factory, empresa que é responsável legal pelos itens interditados. Isso quer dizer que os produtos são White label? 

Gustavo Palencia: Sim, são produtos white label — e sempre foram. Desde o início da operação no Brasil, optamos por esse modelo de produção terceirizada, justamente porque não temos estrutura ou capital para montar uma fábrica própria aqui. E tudo isso é feito de forma totalmente legal e transparente. Não existe nada de errado em trabalhar com white label, desde que os processos sejam conduzidos com responsabilidade, e é exatamente o que fazemos. 

A fábrica responsável pela produção dos nossos cosméticos é uma parceira sólida, com certificações como GMP e com um histórico respeitável. Eles são responsáveis pela produção em nome da nossa marca — o que é uma prática comum no setor de cosméticos e outros segmentos. 

Bárbara Arranz: É importante também desfazer um equívoco muito comum: ser white label não significa pegar um produto pronto de catálogo e simplesmente colar seu rótulo. Existe esse modelo — que muitas marcas fazem, sim —, mas o nosso caso é completamente diferente. A gente desenvolveu cada fórmula do zero, junto com a equipe técnica da fábrica. 

Eu mesma estive à frente desse processo. Levamos quase um ano em desenvolvimento até chegar nas composições ideais. Foi a primeira vez, inclusive, que a fábrica trabalhou com determinados tipos de cogumelos. Ou seja, não são produtos genéricos. São autorais, pensados para refletir nossa identidade, nossos valores, e também para responder a uma demanda real do mercado por inovação na cosmetologia. 

Gustavo: Exato. O processo é colaborativo. A gente leva as ideias, os ativos desejados, as funcionalidades que queremos alcançar. A fábrica, por sua vez, valida a viabilidade técnica e a segurança do produto. No fim, a fórmula é nossa, com a chancela técnica deles. Isso inclui todo o controle de qualidade e as exigências sanitárias necessárias para o produto estar no mercado. Então, sim, é white label — mas com muito mais trabalho envolvido do que as pessoas costumam imaginar. 

Bárbara: E só pra reforçar: não existe nada de irregular nisso. É uma prática comum e prevista na legislação. Só que, por alguma razão, o termo “white label” acaba sendo usado de forma pejorativa, como se fosse sinônimo de produto sem procedência, o que não é o caso aqui. O desenvolvimento foi cuidadoso, personalizado, e com foco em qualidade e inovação. 

Lucas Panoni entrevista Barbara Arranz e Gustavo Palencia. Imagem: reprodução

Lucas Panoni entrevista Barbara Arranz e Gustavo Palencia. Imagem: reprodução

Ainda segundo a Anvisa, o uso do termo “Hemp” é inadequado por potencialmente enganar o consumidor. Mas, a defesa alega que Hemp é o nome da marca, registrado no INPI. O que pode justificar esse desentendimento com a Agência? 

Bárbara Arranz: Olha, sinceramente, até agora a gente ainda está tentando entender. É como se algumas peças do quebra-cabeça simplesmente não encaixassem. A Anvisa chegou com essa decisão alegando que o uso do termo “Hemp” nas embalagens poderia induzir o consumidor ao erro — mas a verdade é que esse nome não está sendo usado para descrever composição ou ativo. Hemp Vegan é o nome da marca, devidamente registrada no INPI. Isso foi apresentado pela fábrica na resposta formal enviada à Anvisa, e ainda assim, não recebemos retorno. 

Além disso, esse não foi o primeiro episódio. Antes dessa questão com os cosméticos, já tínhamos enfrentado um bloqueio relacionado ao canabidiol — mesmo sem comercializarmos diretamente. A Hemp Vegan nunca vendeu CBD. Quem faz isso é um parceiro, a Linha Canábica, com profissionais de saúde. E mesmo assim, nossos pacientes passaram a receber notificações automáticas da Anvisa ao tentarem importar. Parece perseguição, sabe? 

Gustavo Palencia: É, e o ponto central pra mim é o seguinte: se existe alguma dúvida quanto à legalidade do uso do nome da marca na embalagem, o caminho mais lógico seria abrir um diálogo, convocar uma conversa técnica, oferecer um parecer. Não uma interdição pública, sem aviso prévio, sem resposta às manifestações da empresa. 

E aqui entra um questionamento maior: até que ponto a atuação da Anvisa está sendo pedagógica, construtiva? Porque, nesse caso, o que vimos foi uma decisão que atropela o processo e desconsidera a boa-fé do empreendedor. A fábrica respondeu com documentação oficial e… silêncio. Aí, meses depois, a gente vê a notícia explodindo na mídia. Isso mina qualquer sensação de segurança jurídica. 

Bárbara: E tem outra camada nisso tudo. Vamos combinar: a gente ousou. Colocamos um quiosque dentro de shopping center, de frente pra marcas como Natura e O Boticário. Um cosmético com nome de cogumelo, com design ousado, com o termo “Hemp” estampado na embalagem. Isso inevitavelmente incomoda. Causa ruído.  

“A gente tem motivos para acreditar que pode ter havido uma denúncia — ou que estamos diante de mais um episódio da velha guerra contra mercados emergentes, o que, infelizmente, não é novidade. Essa percepção foi levantada por consultores da nossa operação. Mas o que nos surpreendeu foi a forma como a Anvisa reagiu: sem nos chamar para um diálogo técnico, sem ouvir o outro lado, optando por uma medida pública e punitiva desde o início.

E assim, não é sobre “se achar grande”. A gente não é uma gigante do setor, muito pelo contrário. Mas estamos ali ocupando um espaço simbólico importante. Somos uma marca pequena, mas com identidade forte, com uma narrativa ativista. Isso gera atrito — e talvez o incômodo esteja mais ligado a isso do que a uma real infração sanitária. 

Gustavo: Pra mim, existe aí uma colisão entre dois mundos. O mundo da burocracia engessada e o mundo da inovação, da disrupção. A Anvisa está presa a uma lógica que não compreende o que é marca, o que é identidade, o que é linguagem de mercado. E isso se agrava quando o produto em questão — mesmo sendo um cosmético — carrega um nome que remete ao universo canábico. 

A nossa marca é Hemp Vegan. Ela foi pensada assim, registrada assim, e usada assim desde o começo. Agora, ser obrigado a retirar o nome da própria marca das embalagens, sem qualquer etapa de diálogo, é muito difícil de aceitar. Claro que vamos seguir as regras — estamos recolhendo os produtos, redesenhando as embalagens —, mas também vamos buscar nossos direitos. Porque existe uma Constituição acima da normativa da Anvisa. 

Bárbara: E eu só queria deixar claro que a gente não está aqui negando erros ou desafiando a autoridade do órgão. A questão é o modo como isso foi feito. A forma como a marca foi tratada, publicamente exposta, sem abertura para correção, sem direito de defesa. Isso não é só injusto, é desmobilizador. O que a gente quer é continuar empreendendo, com responsabilidade, com criatividade e com respeito às regras. Mas também com respeito ao nosso direito de existir como marca. 

Qual foi o tamanho do prejuízo até agora, considerando custos de produção, divulgação e distribuição? Há produtos encalhados em estoque?

Gustavo Palencia: Sim, infelizmente temos um prejuízo considerável. Hoje temos cerca de R$ 600 mil em produtos cosméticos prontos para venda que estão encalhados, simplesmente porque não podemos mais comercializá-los com a embalagem original. Esses produtos estão sendo recolhidos pela própria fábrica, que vai fazer os ajustes necessários para que possamos tentar novamente submeter os cosméticos à liberação. E essa cifra não inclui apenas o custo de produção — estamos falando de R$ 600 mil em vendas que deixamos de realizar. É o faturamento que ficou na mesa. 

Se somarmos outros custos, como material gráfico, embalagens, campanhas de divulgação, estrutura de franquias e contratos rompidos, o prejuízo total gira em torno de R$ 1,1 milhão. Isso tudo em meio a um momento importante da operação no Brasil, em que vínhamos amadurecendo, estruturando a equipe, aprimorando a tecnologia e ganhando tração com o público. O impacto é enorme. 

Bárbara Arranz: Esse número pode até ser maior, se considerarmos o novo ciclo que será necessário para reformular os produtos. As novas embalagens, por exemplo, são caras — até porque a gente não entrega o básico, entregamos uma experiência. O design faz parte do posicionamento da marca, e isso tem um custo. Então, além de engolir o prejuízo, ainda teremos que reinvestir pesado para voltar ao mercado. 

Como esperam reverter a decisão da Anvisa?

Gustavo Palencia: O primeiro passo é prático: desencalhar o estoque. Sem vender, não conseguimos sustentar a operação no Brasil, e essa é a prioridade no momento. Já começamos o processo de recolhimento dos produtos e ajuste das embalagens, removendo a marca Hemp Vegan da forma como aparecia anteriormente. Vamos reapresentar esses produtos com um visual atualizado, que atenda às exigências da Anvisa, mesmo que discordemos delas. 

Mas isso é só o curto prazo. A médio e longo prazo, vamos sim buscar nosso direito de usar a marca registrada. Hemp Vegan é nossa identidade, está no INPI, e não deveria ser proibida dessa forma. Se for necessário, vamos acionar juridicamente as instâncias superiores, inclusive o STJ, para garantir esse direito. A Constituição assegura a livre iniciativa e o respeito à propriedade intelectual. A Anvisa pode ter um regulamento, mas ela não está acima da Constituição. 

Bárbara Arranz: A ideia é continuar, mas com inteligência. A gente entendeu que, para não ser engolido pelo sistema, também precisamos jogar conforme as regras. Então sim, vamos recolher, reformular e reenviar. Mas também vamos usar esse momento para reforçar nossa identidade, talvez de uma forma ainda mais criativa, mais sutil, mas igualmente disruptiva. O nome da marca vai continuar existindo — só vai mudar um pouco a forma de aparecer no rótulo. 

Esta situação trouxe à tona outros problemas envolvendo a marca e os empresários, como uma acusação de golpe em investidores e uma nota de 2021 denunciando a comercialização de produtos de CBD falsificados pela marca Linha Canábica da Bá. Como se defendem das acusações?

Bárbara Arranz: Olha, a internet hoje virou um tribunal 24 horas por dia. E em 2021 eu vivi isso na pele. Sofri um cancelamento muito duro, em parte porque cometi erros — disse coisas infelizes, num tom errado, que acabaram sendo usadas contra mim. Foi um processo muito pessoal, e também doloroso. Mas eu nunca pedi para retirar nenhuma das matérias que me atacavam, mesmo as que tinham informações absurdas. Nunca acionei o jurídico. Eu preferi não apagar nada porque acredito que isso também é parte da minha trajetória. 

ATUALIZAÇÃO (11/08) – Novas informações vieram à tona após a publicação da entrevista. No sábado (09/08), a jornalista e influenciadora GabiiWeed afirmou em suas redes sociais ter sido processada e notificada extra-judicialmente por Bárbara Arranz em razão do conteúdo de suas reportagens — o que contradiz a resposta dada na entrevista. A Cannalize trata o caso com máxima seriedade, está apurando todos os fatos e busca ouvir ambas as partes para esclarecimentos.

Dito isso, a acusação de que vendíamos CBD sem princípio ativo é mentirosa. Foi uma narrativa construída com base em desinformação. Quem comprova a veracidade do nosso trabalho são os mais de 5 mil pacientes que estão conosco desde 2019, mães de crianças autistas, pacientes reais que tiveram resultados. Isso é o que importa para mim. 

Gustavo Palencia: Sobre os investidores, é importante esclarecer: até o ano passado, a gente nunca teve sócios nem captação externa. Tudo foi feito com capital próprio. Em 2023, ao pivotar a Linha Canábica para um modelo de marketplace mais robusto, decidimos abrir a operação para um grupo pequeno de investidores. E foi aí que cometemos erros: escolhemos mal algumas parcerias, criamos expectativas comerciais que não se concretizaram e acumulamos prejuízo. Mas fomos totalmente transparentes, inclusive na DRE (demonstração de resultados) apresentada aos investidores. 

Não houve golpe. O que houve foi risco — e risco assumido por todos. O prejuízo de R$ 2,4 milhões em 2023 foi informado, discutido e aprovado entre as partes. E hoje, esse mesmo investidor ainda está com a gente. Isso mostra que não houve má-fé. 

Bárbara: Nunca tivemos uma ação trabalhista sequer. E olha que estamos nessa desde 2017. O que aconteceu em 2023 foi uma tentativa legítima de crescer, de apostar em franquias, em estoque, em eventos — mas erramos. Erramos em escolhas, em formatos, em estratégias. E estamos pagando por isso com o próprio corpo. Mas seguimos aqui, trabalhando, olhando no olho, enfrentando. Não fugimos. 

Considerando que a trajetória de vocês é marcada por sucesso e superação — desde a busca pelo tratamento de um filho em 2017 até a abertura de uma loja em Madri, cultivo de cannabis na Eslovênia e uma relação íntima com o ativismo canábico —, o que têm a dizer sobre todo esse contexto turbulento e como encaram a opinião pública?

Bárbara Arranz:
Hoje eu lido bem melhor com a opinião pública, mas não foi sempre assim. Em 2021, aquilo me destruiu. Tive depressão profunda. Fiquei com a sensação de que estava fazendo tudo errado, mesmo sabendo do bem que meu trabalho causava. Mas com o tempo eu entendi: prego que se destaca leva martelada. Eu me expus, eu falei alto, eu ousei — e isso incomoda. E tudo bem. Isso é parte do papel de quem está à frente, abrindo caminho. 

A verdade é que eu estou nesse mercado porque a maconha melhorou a vida do meu filho e também a minha, desde a infância. Eu tenho propósito. E por mais pedras que a gente leve, também recebemos flores. Teve paciente que me tatuou na perna, gente que me chama de madrinha dos filhos. Isso é real. Isso vale mais do que qualquer hater. 

Bárbara compartilhou foto de fã que tatuou homenagem a ela

Bárbara compartilhou foto de fã que tatuou homenagem a ela. Foto: arquivo pessoal

Gustavo Palencia:
A nossa escolha sempre foi pelo varejo. Enquanto outros optaram por associações ou pela via farmacêutica, a gente preferiu colocar o pé no chão, no balcão, educando consumidores. A loja física, o quiosque no shopping, o creme polêmico na prateleira — tudo isso é ferramenta de mudança cultural. 

E sim, custou caro. Talvez se a gente tivesse sido menos agressivo, mais conservador, teríamos menos problemas hoje. Mas também não estaríamos abrindo espaço para o novo. A Hemp Vegan representa disrupção. E a opinião pública vai sempre oscilar entre admiração e crítica. A gente aprendeu a conviver com isso.

Apesar do período turbulento, o que vislumbram para o futuro da Hemp Vegan?

Bárbara Arranz: No começo, confesso: eu quis jogar tudo pro alto. Falei pro Gustavo: “me enterra viva, não aguento mais”. São sete anos levando pancada, sendo pioneira, carregando tudo nas costas. Mas depois passou. Agora é hora de recomeçar, com mais estratégia, mais cuidado, mas sem abandonar nossa essência. 

Estamos recolhendo os cosméticos, redesenhando as embalagens, e a nova linha vai ser relançada em breve. Inclusive já temos uma leva de maquiagens prontas, com pegada neon, super Hemp Vegan. Estamos mudando apenas a grafia no logotipo — de “Hemp Vegan” para “H**p Vegan” — como forma de atender às exigências regulatórias, sem abrir mão da identidade. 

Leia também: Anvisa barra rótulo e Hemp Vegan age para desencalhar 

Mais do que isso, queremos descentralizar a operação, criar uma empresa mais humana, mais comunitária, mais colaborativa. Quando a notícia saiu, lançamos um formulário chamado Sacolão Proibido para enviar brindes e surpresas às pessoas que nos apoiam. Em dois dias, mais de 4.200 pessoas se inscreveram. Isso diz muito sobre o que estamos construindo. 

Gustavo Palencia: A gente está se ajustando, claro — inclusive com base nas mudanças da legislação —, mas o foco segue o mesmo: educar, romper tabus, crescer com responsabilidade. Temos produtos novos chegando, inclusive via RDC 327, o que deve ampliar nosso leque de atuação. E o mais importante: a empresa não vai falir, não vai sumir, não vai fugir. Se incomodamos até aqui, vamos continuar incomodando — mas agora com ainda mais preparo, e respeitando o jogo. 

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Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.