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O que é RWE e qual é a hierarquia das evidências científicas?



23/05/2026


Entenda o que é RWE, a hierarquia das evidências científicas e o que a ciência diz sobre o THC no tratamento clínico de pacientes crônicos.

grupo de cientistas procurando evidências cientificas sobre o THC

O RWE é o principal método utilizado para encontrar evidências científicas sobre o uso do THC em medicamentos

Quando se fala de tratamentos à base de cannabis medicinal, principalmente com uso de THC, o principal questionamento é: isso realmente funciona? 

Para responder essa pergunta de quem ainda é cético sobre o potencial dos canabinoides para terapias de doenças crônicas, existem dois conceitos bastante aceitos na comunidade científica: o RWE (Real World Evidence) e a hierarquia das evidências científicas. 

Com o uso desses dois conceitos, é possível compreender divergências entre os resultados de estudos científicos, porque há médicos cautelosos em adotar a cannabis por parte do tratamento e porque pacientes relatam benefícios, mesmo em casos de evidências limitadas.  

O que são evidências científicas na medicina? 

As evidências científicas são o conjunto de dados produzidos a partir de estudos científicos específicos que ajudam a comunidade médica a compreender:  

  • eficácia de um tratamento; 
  • segurança; 
  • efeitos colaterais; 
  • impacto na qualidade de vida do paciente. 

Nesse contexto, nem toda a evidência científica tem o mesmo peso. Por isso, foi criada a hierarquia de evidências para determinar o nível de confiança de cada informação obtida no estudo.  

Qual é a hierarquia das evidências científicas? 

hierarquia das evidências científicas é dividida em cinco níveis diferentes de confiabilidade, que vão desde meta-análises até o relato pessoal do paciente.  

Nível 1: meta-análises e revisões sistemáticas 

O nível 1 é considerado o mais confiável a partir do ponto de vista da comunidade científica. Isso porque, ela tem como premissa analisar e compilar diversos estudos sobre o mesmo tema, o que se traduz em maior confiabilidade.  

Nível 2: ensaios clínicos randomizados (RCTs) 

Em segundo lugar no ranking de confiança, temos os ensaios clínicos randomizados. Nesse tipo de estudo, os pacientes são divididos em grupos: os que recebem os medicamentos à base de cannabis e os que recebem placebos.   

Conhecido como teste duplo-cego, nem o paciente e nem o médico sabem quem pertence a cada grupo.  

O objetivo dessa análise é observar a eficácia do tratamento mais próximo da realidade do paciente, excluindo vieses científicos por parte do pesquisador.  

Apesar de estar no segundo nível de confiabilidade, os ensaios clínicos randomizados possuem limitações como: não representar a vida real, exclusão de pacientes complexos e protocolos extremamente rígidos.  

Nível 3: estudos observacionais 

Os estudos observacionais têm como objetivo mensurar o impacto dos tratamentos com base na rotina real dos pacientes. Nesse caso, a comunidade médica procura avaliar:  

  • como o tratamento funciona na prática; 
  • resposta individual; 
  • impacto na qualidade de vida. 

No universo da cannabis medicinal, estudos observacionais recentes demonstraram que: pacientes relatam melhora significativa, redução de dor e melhora de sono e bem-estar. 

O grande problema desse nível de análise, é que fica mais difícil medir o efeito real da medicação. Por isso, são considerados mais realistas, porém menos confiáveis cientificamente. 

Nível 4: relatos de caso 

Os relatos de caso têm como característica a descrição dos efeitos da terapia em um grupo restrito de pacientes e, muitas vezes, sem comparação com pacientes que estão fazendo uso de placebo.  

Como os resultados partem de um grupo restrito de pessoas, o valor com evidência científica é menor.  

No entanto, pode ser a porta de entrada para estudos mais complexos que tragam dados mais confiáveis do ponto de vista científico.  

Nível 5: opinião ou relato pessoal 

Os resultados científicos baseados em opinião ou relato pessoal são considerados baixos, dentro da hierarquia de evidências científicas.  

O motivo disso é que os resultados partem de depoimentos de pacientes e experiências isoladas, o que torna impossível mensurar a validade do tratamento.  

No entanto, assim como o nível 4, os relatos pessoais podem servir de ponto de partida para estudos mais robustos em busca de evidências mais sólidas.  

O que é RWE (Real World Evidence)? 

O RWE é o conceito que define a evidência do mundo real. Ou seja, nesse caso, os estudos são feitos em campo, fora do rigor e das restrições acadêmicas. Se enquadram nessa categoria análises feitas com: 

  • pacientes em tratamento real; 
  • registros clínicos; 
  • relatos monitorados; 
  • uso contínuo. 

Diferença entre RCT e RWE 

Tabela comparativa entre os métodos RCT e RWE de evidência científica

Tabela comparativa entre os métodos RCT e RWE de evidência científica

 

Por que o THC tem evidência controversa? 

A principal questão quando se aborda tratamento com alta concentração de THC, é:  por que as evidências sobre o uso de THC são tão controversas? 

Aqui, nessa situação temos a colisão dos dois tipos de evidências científicas. Em estudos feitos a partir da metodologia RWE, pacientes tratados com cannabis medicinal relatam melhora significativa para sintomas de dores crônicas 

Enquanto isso, profissionais adeptos da literatura científica consideram que as evidências sobre o uso de canabinoides para tratamento de pacientes ainda é limitada ou moderada.  

Isso acontece porque, terapias com cannabis medicinal ainda enfrentam barreiras regulatórias, clínicas e científicas para comprovar a efetividade de seus tratamentos.  

1. Estudos heterogêneos 

A falta de consistência entre os estudos é uma das barreiras que os estudos com THC enfrentam. Isso acontece devido ao tratamento personalizado que a cannabis oferece.  

Por conta disso, cada paciente conta com dosagem, posologia, concentração de THC e tipos de canabinoides diferentes na formulação de seus medicamentos.  

Por causa disso, se torna mais complexo comparar resultados de estudos diferentes, afinal a base de análise não é a mesma.  

Um dos principais problemas é a falta de consistência entre os estudos. 

2. Difícil padronização farmacológica 

Essa é outra questão levantada por quem relativiza  as evidências científicas sobre o tratamento com cannabis medicinal.  De acordo com esse argumento, nos medicamentos convencionais: 

  • um comprimido tem sempre a mesma dose; 
  • a molécula é isolada; 
  • o efeito é mais previsível; 

E isso não acontece quando se pensa em medicamentos com cannabis medicinal, seja com CBD, THC ou outro elemento da planta. Entretanto, há uma série de motivos para essa alegada “falta de padronização”. A cannabis é uma planta complexa, com:  

  • mais de 100 canabinoides; 
  • além de ter terpenos e outros compostos ativos.

É justamente por conta dessa combinação de canabinoides é que existe o efeito entourage encontrado em alguns medicamentos.   

Com isso, podemos dizer que não existe um único efeito do THC e que o resultado dos tratamentos depende da dosagem e da interação com outros canabinoides.  

3. Limitação de tempo dos estudos 

Outro fator crítico em relação às evidências sobre o uso do THC em tratamentos clínicos é a duração dos estudos realizados com cada paciente.  Os indicativos para esse argumento são que as análises têm como característica comum:   

  • duração de dias a semanas; 
  • raramente ultrapassam poucos meses; 
  • foco em resultados imediatos. 

Por conta da brevidade dos estudos com cannabis medicinal, não é possível medir efeitos a longo prazo, tolerância e impacto de tratamento contínuo.  

4. Seleção limitada de pacientes 

Um argumento que pesa quando se questiona as evidências científicas em torno do uso de medicamentos com cannabis é a limitação de pacientes usados em testes clínicos.  

De maneira geral, em estudos feitos com cannabis medicinal, há um rigor maior na seleção de pacientes para os testes clínicos.  Normalmente, ficam fora dos grupos de estudo:  

  • pacientes com múltiplas doenças; 
  • pessoas com ansiedade ou depressão; 
  • Idosos; 
  • usuários de múltiplos medicamentos. 

Por causa disso, o argumento de quem é contra as evidências sobre tratamento com cannabis é que os resultados provêm de um grupo idealizado e não com pacientes reais, o que inviabiliza a mensuração dos resultados.  

5. Barreiras regulatórias e históricas 

Por fim, o que limita os estudos com cannabis medicinal são as barreiras regulatórias. Durante muitas décadas, estudos e tratamentos com cannabis sofream restrições, já que não era possível estudar os benefícios da planta de maneira legal. 

Nesse contexto, os principais entraves para o uso de cannabis estudos e tratamentos foram: 

  • dificuldade de aprovação ética; 
  • limitação de financiamento; 
  • restrições legais em vários países; 
  • baixa padronização de produtos.

O que a ciência diz hoje sobre o THC? 

Hoje, os estudos RWE mostram que tanto o THC quando os demais canabinoides apresentam as melhores evidências para o tratamento de sintoma relacionados às seguintes doenças:   

  • dor crônica;  
  • suporte à quimioterapia;  
  • espasticidade associada à esclerose múltipla.

Contudo, os estudos atuais ainda apresentam evidências limitadas, de acordo com o rigor científico, para as seguintes condições:  

  • ansiedade; 
  • insônia; 
  • dor geral; 

RWE vs evidência científica no THC 

O grande debate está em relação às evidências científicas em relação ao tratamento de pacientes com THC e outros canabinoides estão justamente na diferença da abordagem dos critérios científicos.  

Por um lado, estudos acadêmicos e científicos mostram resultados promissores, porém dentro de uma análise bastante recente e restrita.  

Por outro lado, estudos de campo realizados com pacientes reais, apresentaram resultados animadores, pois os próprios pacientes relataram melhora no quadro clínico. Principalmente em sintomas de dores crônicas, insônia, estresse e ansiedade.    

A questão sobre essa dualidade de interpretação do avanço da cannabis medicinal no tratamento de doentes crônicos é: qual caminho seguir levando em consideração a saúde, a segurança e o bem-estar do paciente? 

Talvez a melhor resposta para o momento seja conciliar evidência científica, dados do mundo real e a individualidade de cada paciente. Você concorda?  

Principais dúvidas sobre evidências científicas e cannabis medicinal 

1. Cannabis medicinal tem comprovação científica?

Sim, mas com níveis variados dependendo da condição. 

2. THC funciona para a dor? 

Pode ajudar, principalmente a dor neuropática, com efeito geralmente moderado.

3. Por que a evidência não é forte? 

Por limitações metodológicas e regulatórias. 

4. RWE é confiável? 

Sim, mas deve ser interpretado junto com estudos clínicos. 

5. THC é melhor que CBD? 

Depende da condição, o THC costuma ser mais analgésico direto.

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Rodrigo Svrcek