Entenda o que é RWE, a hierarquia das evidências científicas e o que a ciência diz sobre o THC no tratamento clínico de pacientes crônicos.

O RWE é o principal método utilizado para encontrar evidências científicas sobre o uso do THC em medicamentos
Quando se fala de tratamentos à base de cannabis medicinal, principalmente com uso de THC, o principal questionamento é: isso realmente funciona?
Para responder essa pergunta de quem ainda é cético sobre o potencial dos canabinoides para terapias de doenças crônicas, existem dois conceitos bastante aceitos na comunidade científica: o RWE (Real World Evidence) e a hierarquia das evidências científicas.
Com o uso desses dois conceitos, é possível compreender divergências entre os resultados de estudos científicos, porque há médicos cautelosos em adotar a cannabis por parte do tratamento e porque pacientes relatam benefícios, mesmo em casos de evidências limitadas.
As evidências científicas são o conjunto de dados produzidos a partir de estudos científicos específicos que ajudam a comunidade médica a compreender:
Nesse contexto, nem toda a evidência científica tem o mesmo peso. Por isso, foi criada a hierarquia de evidências para determinar o nível de confiança de cada informação obtida no estudo.
A hierarquia das evidências científicas é dividida em cinco níveis diferentes de confiabilidade, que vão desde meta-análises até o relato pessoal do paciente.
O nível 1 é considerado o mais confiável a partir do ponto de vista da comunidade científica. Isso porque, ela tem como premissa analisar e compilar diversos estudos sobre o mesmo tema, o que se traduz em maior confiabilidade.
Em segundo lugar no ranking de confiança, temos os ensaios clínicos randomizados. Nesse tipo de estudo, os pacientes são divididos em grupos: os que recebem os medicamentos à base de cannabis e os que recebem placebos.
Conhecido como teste duplo-cego, nem o paciente e nem o médico sabem quem pertence a cada grupo.
O objetivo dessa análise é observar a eficácia do tratamento mais próximo da realidade do paciente, excluindo vieses científicos por parte do pesquisador.
Apesar de estar no segundo nível de confiabilidade, os ensaios clínicos randomizados possuem limitações como: não representar a vida real, exclusão de pacientes complexos e protocolos extremamente rígidos.
Os estudos observacionais têm como objetivo mensurar o impacto dos tratamentos com base na rotina real dos pacientes. Nesse caso, a comunidade médica procura avaliar:
No universo da cannabis medicinal, estudos observacionais recentes demonstraram que: pacientes relatam melhora significativa, redução de dor e melhora de sono e bem-estar.
O grande problema desse nível de análise, é que fica mais difícil medir o efeito real da medicação. Por isso, são considerados mais realistas, porém menos confiáveis cientificamente.
Os relatos de caso têm como característica a descrição dos efeitos da terapia em um grupo restrito de pacientes e, muitas vezes, sem comparação com pacientes que estão fazendo uso de placebo.
Como os resultados partem de um grupo restrito de pessoas, o valor com evidência científica é menor.
No entanto, pode ser a porta de entrada para estudos mais complexos que tragam dados mais confiáveis do ponto de vista científico.
Os resultados científicos baseados em opinião ou relato pessoal são considerados baixos, dentro da hierarquia de evidências científicas.
O motivo disso é que os resultados partem de depoimentos de pacientes e experiências isoladas, o que torna impossível mensurar a validade do tratamento.
No entanto, assim como o nível 4, os relatos pessoais podem servir de ponto de partida para estudos mais robustos em busca de evidências mais sólidas.
O RWE é o conceito que define a evidência do mundo real. Ou seja, nesse caso, os estudos são feitos em campo, fora do rigor e das restrições acadêmicas. Se enquadram nessa categoria análises feitas com:

Tabela comparativa entre os métodos RCT e RWE de evidência científica
A principal questão quando se aborda tratamento com alta concentração de THC, é: por que as evidências sobre o uso de THC são tão controversas?
Aqui, nessa situação temos a colisão dos dois tipos de evidências científicas. Em estudos feitos a partir da metodologia RWE, pacientes tratados com cannabis medicinal relatam melhora significativa para sintomas de dores crônicas.
Enquanto isso, profissionais adeptos da literatura científica consideram que as evidências sobre o uso de canabinoides para tratamento de pacientes ainda é limitada ou moderada.
Isso acontece porque, terapias com cannabis medicinal ainda enfrentam barreiras regulatórias, clínicas e científicas para comprovar a efetividade de seus tratamentos.
A falta de consistência entre os estudos é uma das barreiras que os estudos com THC enfrentam. Isso acontece devido ao tratamento personalizado que a cannabis oferece.
Por conta disso, cada paciente conta com dosagem, posologia, concentração de THC e tipos de canabinoides diferentes na formulação de seus medicamentos.
Por causa disso, se torna mais complexo comparar resultados de estudos diferentes, afinal a base de análise não é a mesma.
Um dos principais problemas é a falta de consistência entre os estudos.
Essa é outra questão levantada por quem relativiza as evidências científicas sobre o tratamento com cannabis medicinal. De acordo com esse argumento, nos medicamentos convencionais:
E isso não acontece quando se pensa em medicamentos com cannabis medicinal, seja com CBD, THC ou outro elemento da planta. Entretanto, há uma série de motivos para essa alegada “falta de padronização”. A cannabis é uma planta complexa, com:
É justamente por conta dessa combinação de canabinoides é que existe o efeito entourage encontrado em alguns medicamentos.
Com isso, podemos dizer que não existe um único efeito do THC e que o resultado dos tratamentos depende da dosagem e da interação com outros canabinoides.
Outro fator crítico em relação às evidências sobre o uso do THC em tratamentos clínicos é a duração dos estudos realizados com cada paciente. Os indicativos para esse argumento são que as análises têm como característica comum:
Por conta da brevidade dos estudos com cannabis medicinal, não é possível medir efeitos a longo prazo, tolerância e impacto de tratamento contínuo.
Um argumento que pesa quando se questiona as evidências científicas em torno do uso de medicamentos com cannabis é a limitação de pacientes usados em testes clínicos.
De maneira geral, em estudos feitos com cannabis medicinal, há um rigor maior na seleção de pacientes para os testes clínicos. Normalmente, ficam fora dos grupos de estudo:
Por causa disso, o argumento de quem é contra as evidências sobre tratamento com cannabis é que os resultados provêm de um grupo idealizado e não com pacientes reais, o que inviabiliza a mensuração dos resultados.
Por fim, o que limita os estudos com cannabis medicinal são as barreiras regulatórias. Durante muitas décadas, estudos e tratamentos com cannabis sofream restrições, já que não era possível estudar os benefícios da planta de maneira legal.
Nesse contexto, os principais entraves para o uso de cannabis estudos e tratamentos foram:
Hoje, os estudos RWE mostram que tanto o THC quando os demais canabinoides apresentam as melhores evidências para o tratamento de sintoma relacionados às seguintes doenças:
Contudo, os estudos atuais ainda apresentam evidências limitadas, de acordo com o rigor científico, para as seguintes condições:
O grande debate está em relação às evidências científicas em relação ao tratamento de pacientes com THC e outros canabinoides estão justamente na diferença da abordagem dos critérios científicos.
Por um lado, estudos acadêmicos e científicos mostram resultados promissores, porém dentro de uma análise bastante recente e restrita.
Por outro lado, estudos de campo realizados com pacientes reais, apresentaram resultados animadores, pois os próprios pacientes relataram melhora no quadro clínico. Principalmente em sintomas de dores crônicas, insônia, estresse e ansiedade.
A questão sobre essa dualidade de interpretação do avanço da cannabis medicinal no tratamento de doentes crônicos é: qual caminho seguir levando em consideração a saúde, a segurança e o bem-estar do paciente?
Talvez a melhor resposta para o momento seja conciliar evidência científica, dados do mundo real e a individualidade de cada paciente. Você concorda?
Sim, mas com níveis variados dependendo da condição.
Pode ajudar, principalmente a dor neuropática, com efeito geralmente moderado.
Por limitações metodológicas e regulatórias.
Sim, mas deve ser interpretado junto com estudos clínicos.
Depende da condição, o THC costuma ser mais analgésico direto.
Rodrigo Svrcek
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