Em entrevista à Cannalize, expert conta por que o THC ainda gera insegurança médica e propõe solução: medicina de precisão e saber quando parar.

Wellington Briques em entrevista ao Cannalize Especial
“Uma consulta inicial de cannabis medicinal pode durar até duas horas”, diz Wellington Briques, médico, acupunturista e uma das principais referências brasileiras em medicina canabinoide.
Para ele, esse detalhe ajuda a explicar por que o THC ainda provoca insegurança em parte da classe médica — mesmo após anos de uso clínico no tratamento da dor crônica.
“O problema não é simplesmente prescrever. É necessário conhecer o paciente”, afirma.
Segundo Briques, o desafio está em algo muito mais complexo: entender rotina, metabolismo, tolerância, qualidade do sono, ansiedade, interações medicamentosas e até hábitos cotidianos do paciente antes de decidir qual canabinoide utilizar, em qual dose e em qual horário.
Ao longo de uma entrevista de mais de 40 minutos à Cannalize, o médico aprofundou uma hipótese que vem surgindo repetidamente na série sobre THC e dor crônica:
a resistência médica ao THC parece menos ligada ao preconceito ideológico e mais à dificuldade de transformar uma terapia altamente individualizada em uma medicina previsível, reproduzível e operacionalmente segura.
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Para Wellington Briques, a insegurança médica em torno do THC não nasce necessariamente de preconceitos ideológicos, mas da complexidade prática envolvida no tratamento.
Segundo ele, a terapia canabinoide exige um nível de individualização que muitas vezes entra em choque com a dinâmica tradicional da medicina.
Ao invés de consultas rápidas de poucos minutos,o médico defende longos atendimentos que examinem o paciente com precisão, analisando rotina, qualidade do sono, ansiedade, tolerância, metabolismo e interações medicamentosas para a construção terapêutica.
O médico explica que o desafio não está apenas em escolher entre CBD ou THC, mas em compreender profundamente o contexto de vida do paciente antes mesmo da primeira prescrição.
“Não é simplesmente prescrever. Você precisa entender o paciente como um todo.
A individualização hoje a gente não utiliza muitas ferramentas […] os formulários, os vários questionários diferentes para cada tipo de patologia, para caracterizar melhor o seu paciente.
Isso deveria estar sendo usado na prática clínica corrente — e não é.
Eu preciso entender, conversar melhor com esse paciente. Eu preciso ter tempo para conversar com esse paciente.
Uma consulta inicial de cannabis medicinal pode durar até duas horas”, afirma.
Na visão de Briques, parte da dificuldade da classe médica em relação ao THC vem justamente da tentativa de encaixar uma terapia altamente personalizada em um sistema acostumado a protocolos rápidos e respostas mais previsíveis.
Ao longo da entrevista, Wellington também questiona o excesso de conservadorismo que ainda cerca o THC no manejo da dor crônica. Segundo ele, existe uma diferença importante entre prudência clínica e medo clínico.
Para o especialista, a lógica do “start low, go slow” continua sendo importante, mas não resolve sozinha os desafios do tratamento. Ele acredita que muitos médicos ainda recebem orientações genéricas demais para lidar com pacientes complexos — especialmente idosos, pacientes frágeis ou pessoas com dores refratárias.
“Uma vez, um senhor com dor crônica há mais de 30 anos chegou ao consultório com indicação clara para um produto 1:1 de CBD e THC logo pela manhã.
Mas, durante a anamnese, descobri que ele dirigia duas vezes por semana para buscar os netos na escola.
Eu não posso dar THC em uma dose maior para esse senhor, ele podia ter os efeitos colaterais e o pior seria não ir buscar os netinhos na escola.
mudei a estratégia: full spectrum de manhã e o THC para a noite. Ele melhorou bem
O THC não é um vilão. A gente faz do THC um vilão quando não sabe com que dose começar, para quem começar e quando parar.”
Nesse contexto, o acompanhamento contínuo passa a ser tão importante quanto a própria molécula prescrita. Segundo ele, o tratamento real acontece nas semanas seguintes à receita, durante os ajustes finos de dose, tolerabilidade e resposta clínica.
Wellington também defende que a medicina canabinoide está deixando para trás uma fase puramente empírica e entrando em um momento de maior maturidade clínica.
“O empirismo nós já passamos. Estamos numa fase de transição.”
Segundo ele, protocolos internacionais, consensos clínicos e o avanço da medicina de precisão começam a oferecer caminhos mais estruturados para o uso terapêutico do THC.
Leia também: Por que a Big Pharma pode usar THC e a planta enfrenta restrições?
O médico acredita que o futuro da cannabis medicinal passa por ferramentas capazes de prever melhor resposta terapêutica, tolerabilidade e individualização do tratamento — incluindo genética, biomarcadores e inteligência artificial.
“Hoje eu vejo a cannabis indo para um horizonte de medicina de precisão.
Onde eu vou usar genética, ferramentas eletrônicas ou mesmo de inteligência artificial para ajudar a definir melhor o tratamento para aquele paciente específico.
Dois pacientes com dor crônica, paciente mesma idade, mesmo peso, mesmo sexo, o mesmo produto, provavelmente não vai funcionar igual clinicamente para esses dois pacientes.
Então é medicina de precisão mesmo. É acertar o instrumento da forma como você precisa tocar.”
Para Briques, a grande discussão da próxima década talvez não seja mais descobrir se o THC funciona, mas como transformar uma terapia altamente personalizada em uma medicina previsível, segura e reproduzível.
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A entrevista completa com Wellington Briques vai ao ar em breve no canal da Cannalize no YouTube.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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