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Como a medicina brasileira encara o THC?



13/05/2026


Resistência ao THC na medicina pode estar menos ligada ao preconceito e mais à imprevisibilidade clínica, mas o debate está mudando

Como a medicina brasileira encara o THC

Como a medicina brasileira encara o THC?

O THC está há anos presente na prática clínica de médicos prescritores de cannabis medicinal no Brasil. Ainda assim, segue cercado por desconfiança, cautela e pelo rótulo de “promessa terapêutica”.

Mas afinal: se tantos profissionais já utilizam a substância em casos reais de dor crônica, por que ela ainda parece distante de uma consolidação mais ampla dentro da medicina?

Para investigar essa hipótese, a Cannalize entrevistou duas médicas que utilizam canabinoides no manejo da dor: Thayane Guimarães e Rafaela Bock. O objetivo era entender se a resistência ao THC ainda nasce principalmente de preconceitos ideológicos — ou se existe um problema mais profundo relacionado à prática clínica cotidiana.

O resultado aponta para um cenário mais complexo.

As médicas relatam confiança no potencial terapêutico do THC, especialmente em dores intensas e refratárias. Ao mesmo tempo, descrevem dificuldades importantes relacionadas à previsibilidade da resposta clínica, individualização de doses e necessidade de acompanhamento constante dos pacientes.

Em outras palavras: o medo em torno do THC parece menos moral e mais operacional.

O THC costuma aparecer quando os tratamentos tradicionais falham

Na prática clínica descrita pelas entrevistadas, a cannabis raramente surge como primeira opção terapêutica.

Antes dela, entram medicamentos já tradicionais no tratamento da dor crônica, como antidepressivos, anticonvulsivantes e opioides.

“Antidepressivos. Outros remédios psicotrópicos que têm um impacto secundário na dor, como anticonvulsivantes e também opioides”, explica Rafaela Bock.

Já Thayane Guimarães afirma que o tratamento da dor começa antes mesmo da cannabis, com mudanças no estilo de vida e redução de processos inflamatórios.

Dra Thayane Guimarães

Dra Thayane Guimarães

“A primeira coisa que eu aprendi foi a desinflamar o corpo. Porque tudo que a gente consome entra pela nossa boca.”

Segundo ela, alimentação e atividade física fazem parte da base terapêutica.

“É um pilar muitíssimo importante para quem sofre com dor crônica.”

O THC, portanto, não aparece como substituição imediata dos tratamentos tradicionais, mas como ferramenta complementar — especialmente quando os efeitos colaterais das terapias convencionais se tornam difíceis de sustentar.

“Inicialmente, entra como uma complementação ao tratamento”, afirma Rafaela.

Com o avanço do tratamento, o objetivo passa a ser reduzir gradualmente medicamentos mais agressivos, principalmente opioides.

Fibromialgia, dor neuropática e dor oncológica aparecem entre os principais casos

As duas médicas apontam que o THC costuma ganhar espaço principalmente em pacientes com dores intensas ou de difícil controle.

“Os pacientes com dor neuropática muito intensa ou mesmo com dor oncológica, mas também atendo muito fibromialgia”, relata Rafaela.

Thayane descreve cenário semelhante:

“Quando há um caso de crise de fibromialgia, eu prescrevo THC.”

Segundo Rafaela, em dores consideradas mais severas, o THC pode inclusive entrar logo no início do manejo.

“Quando é dor bem grave, bem intensa, como neuralgia do trigêmeo, eu já entro de cara com uma concentração maior de THC.”

As entrevistas mostram que o canabinoide já ocupa um espaço relevante em dores refratárias — especialmente quando os protocolos tradicionais não conseguem entregar melhora satisfatória.

O principal problema parece ser a baixa previsibilidade clínica

Apesar da confiança no potencial terapêutico do THC, ambas as médicas descrevem um desafio recorrente: cada paciente responde de uma maneira diferente.

“Cada pessoa tem uma forma de responder ao tratamento”, afirma Thayane.

Rafaela vai na mesma direção:

“A variabilidade da resposta individual é uma questão.”

Segundo ela, isso dificulta até mesmo a forma como o tratamento é apresentado ao paciente.

“Sempre é uma prescrição feita com vários poréns.”

Na prática, isso significa que o THC ainda escapa parcialmente da lógica tradicional da medicina baseada em protocolos altamente padronizados.

Enquanto alguns pacientes apresentam melhora importante com doses baixas, outros parecem praticamente resistentes à substância.

“Eu tenho pacientes que usam 80 mg de THC por dia e é como se fosse água”, relata Rafaela.

Por outro lado, pequenas doses também podem provocar efeitos psicoativos relevantes em determinados casos.

“Eu tive um paciente que me desobedeceu. Ao invés dele tomar um quarto da goma, tomou a goma inteira. Ele ficou 8 horas sem conseguir trabalhar porque teve efeito psicoativo”, conta Thayane.

Esse cenário cria um problema central para o avanço do THC dentro da prática médica: dificuldade de previsibilidade, reprodutibilidade e padronização terapêutica.

“Start low, go slow”: o THC exige acompanhamento próximo

As entrevistas mostram que o manejo do THC costuma seguir uma lógica gradual e altamente individualizada.

“Tem que ir com a dose muito baixa, aumentando aos poucos, observando efeitos colaterais”, explica Thayane.

Rafaela descreve abordagem semelhante:

“Vou começar com uma dose menor e vou titular aos poucos.”

A estratégia conhecida internacionalmente como “start low, go slow” (“comece baixo e vá devagar”) aparece como uma das principais ferramentas de segurança clínica utilizadas pelas prescritoras.

Leia também: Start low, go slow: o que significa?

Mas isso também exige um tipo de acompanhamento que nem sempre se encaixa na dinâmica tradicional da medicina.

Dra. Rafaela Bock

Dra. Rafaela Bock

“O acompanhamento próximo com o médico é fundamental para um bom ajuste do THC”, afirma Rafaela.

Segundo ela, o médico precisa observar constantemente:

  • tolerância;
  • efeitos colaterais;
  • velocidade de adaptação;
  • resposta analgésica;
  • necessidade de ajuste de dose.

Na prática, o tratamento exige uma medicina mais personalizada e menos automatizada.

O medo médico parece diminuir conforme cresce a experiência clínica

Um dos pontos mais interessantes das entrevistas é que nenhuma das médicas demonstra rejeição ideológica ao THC.

Pelo contrário, ambas relatam que o receio inicial tende a diminuir conforme o profissional ganha experiência prática.

“Quem nunca prescreveu tem um pouco de medo do que vai acontecer com o paciente nas primeiras prescrições”, afirma Thayane.

Com o tempo, porém, a percepção muda.

“A partir do momento que você começa a prescrever, perde aquele medo inicial.”

Rafaela vai ainda mais longe:

“Se eu quero que um tratamento aja na dor, a minha primeira escolha vai ser o THC.”

As falas sugerem que a resistência médica talvez esteja menos ligada a preconceitos morais e mais à insegurança diante de um tratamento considerado difícil de prever e manejar.

Falta formação estruturada sobre sistema endocanabinoide

As duas médicas também apontam um problema educacional importante.

Segundo Thayane, o sistema endocanabinoide ainda praticamente não faz parte da formação médica tradicional.

“Nada sobre sistema endocanabinoide é ensinado nas faculdades de medicina.”

Ela acredita que a medicina canabinoide deveria ser tratada como uma especialidade própria.

“Quem quisesse prescrever de verdade deveria fazer uma pós e não cursinhos.”

Rafaela acrescenta que ainda faltam pesquisas capazes de explicar por que alguns pacientes respondem tão bem ao THC enquanto outros parecem quase resistentes à substância.

“Faltam pesquisas para identificar por que alguns pacientes não reagem tão bem ao THC.”

Ela levanta inclusive a possibilidade de fatores genéticos influenciarem diretamente a metabolização do canabinoide.

“Se todo paciente já tivesse o teste genético para saber se ele é um bom ou mau metabolizador do THC, isso já nos ajudaria.”

O debate talvez esteja mudando

As entrevistas sugerem que o debate sobre THC na medicina pode estar entrando em uma nova fase. A pergunta talvez já não seja apenas “o THC funciona?”.

Para parte dos médicos que já trabalham com cannabis medicinal, a discussão agora parece girar em torno de outros desafios:

  • como prever resposta terapêutica;
  • como individualizar doses;
  • como reduzir efeitos colaterais;
  • como formar médicos;
  • como transformar experiência clínica em protocolos mais seguros e reproduzíveis.

No fim, o principal obstáculo descrito pelas entrevistadas não parece ser convencer médicos de que o THC possui potencial terapêutico.

Leia também: THC: Se funciona, por que ainda não virou medicina?

O desafio maior talvez seja transformar esse potencial em uma medicina mais previsível, padronizada e operacionalmente segura dentro da prática clínica cotidiana.

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Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.