A reclassificação da cannabis nos Estados Unidos, aguardada há anos pelo setor, acabou gerando mais frustração do que entusiasmo entre investidores e empresas. Embora a mudança represente um avanço regulatório relevante, seus efeitos práticos são limitados — e distribuídos de forma desigual.
A reação do mercado foi imediata. Segundo a agência Reuters, ações de empresas de cannabis chegaram a subir após o anúncio, mas rapidamente perderam força, refletindo a percepção de que a medida ficou aquém das expectativas.
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A reclassificação transfere a cannabis para uma categoria que reconhece seu uso médico, o que deve facilitar pesquisas clínicas e aproximar o setor do sistema de saúde.
Ainda assim, a mudança é parcial. Como destaca a Reuters, o novo enquadramento não representa uma legalização federal ampla e mantém de fora grande parte do mercado, especialmente o uso recreativo.
Na prática, isso preserva o principal entrave da indústria: o conflito entre legislação federal e estadual.
Um dos pontos centrais da reclassificação está na tributação.
Atualmente, empresas de cannabis nos EUA estão sujeitas à seção 280E do código tributário, que impede a dedução de despesas operacionais comuns. Isso inclui custos como salários, aluguel e logística.
De acordo com análise publicada pela Reuters, essa regra eleva significativamente a carga tributária do setor, criando um ambiente financeiro desvantajoso em comparação com outras indústrias.
Com a reclassificação, essa limitação tende a ser flexibilizada. Ainda segundo a Reuters, empresas enquadradas na nova categoria poderão passar a deduzir despesas operacionais, reduzindo a carga fiscal e melhorando margens.
No entanto, esse benefício não será universal. O portal especializado MJBizDaily ressalta que o alívio fiscal deve ser limitado, tanto pela forma como a medida foi estruturada quanto pelas incertezas sobre sua implementação prática.
Na prática, o novo cenário tende a favorecer empresas mais estruturadas e alinhadas ao modelo médico-regulatório.
Isso inclui operadores com maior capacidade de compliance e atuação no segmento medicinal — características que os aproximam da lógica da indústria farmacêutica.
Já empresas expostas ao mercado recreativo, incluindo muitos pequenos operadores, podem continuar fora desse novo enquadramento fiscal ou enfrentar dificuldades para acessar seus benefícios.
A reação dos investidores ajuda a dimensionar o impacto da medida.
Segundo a Reuters, o movimento das ações após o anúncio refletiu uma mudança rápida de percepção: de otimismo inicial para cautela.
Uma análise publicada pelo The Motley Fool apontam que o mercado esperava mudanças mais amplas, como avanços no acesso bancário e maior clareza regulatória — o que não se concretizou.
Esse descompasso entre expectativa e entrega ajuda a explicar por que a reclassificação foi recebida com frustração, apesar de seu simbolismo.
Embora a reclassificação represente um passo importante, especialmente para a pesquisa científica e o uso medicinal, ela não resolve os principais gargalos da indústria.
Além disso, pode aprofundar desigualdades já existentes.
Ao beneficiar mais diretamente empresas alinhadas ao modelo médico-regulatório, a medida tende a ampliar a distância em relação a operadores que atuam no mercado estadual fragmentado.
No fim, a mudança não redesenha o setor — mas evidencia, com mais clareza, quem está melhor posicionado para crescer dentro dele.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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