A associação Santa Gaia, que já estava com dois processos em andamento para regulamentar a prática, foi pega de surpresa na sede da empresa

‘Todos sabiam da associação’, diz diretora depois da apreensão da PF Foto Arquivo Pessoal
Na manhã desta quarta-feira, (16), a Associação Santa Gaia, sediada em Lins, interior de São Paulo, foi alvo de um mandado de busca e apreensão emitido pela Justiça Estadual. Embora toda a cidade soubesse do cultivo, a suspeita é que tenha sido fruto de uma denúncia.
A ação com mais de 20 policiais surpreendeu diretores, colaboradores e pacientes, resultando na retirada de todo o material de cultivo, laboratório e produtos medicinais utilizados no atendimento de milhares de pessoas. O presidente da associação,Guilherme Augusto Viel continua preso e será ouvido amanhã.
Segundo o comunicado, não há qualquer ordem judicial que determine a interrupção das atividades da associação.
Segundo a diretora da entidade, Caroline Penques, a polícia chegou armada por volta das 8h da manhã na sede da associação. Além dos pés de cannabis e materiais utilizados para a extração, a polícia também pegou tudo o que tinha o símbolo da cannabis, como bonés, camisetas e chaveiros.
“No laboratório, arrebentaram a porta pedidndo para todos colocarem a mão na cabeça. Foi uma falta de respeito com os funcionários, que tiveram que ir de camburão para a delegacia como sefossem bandidos”, relata Penques.
No mesmo endereço também está a casa da família e da sogra, lugares que também foram revirados pelos policiais. Embora ela e o marido também tenham habeas corpus para o cultivo, todos os produtos pessoais, incluindo em um óleo utilizado no tratamento do Guilherme, foi confiscado.
“A associação nunca foi um segredo na cidade. Todos sabiam o que fazíamos. Estávamos em todos os eventos, em todas as feiras. Já falamos da Santa Gaia até na Câmara dos Vereadores aqui da cidade”, acrescenta. Falei que tínhamos tudo documentado, a associação é transparente.
Caroline Penques contou também que ainda não pode ver o marido, que está detido e foi enquadrado como suposto traficante de drogas. A entidade está interditada com um adesivo da prefeitura.

‘Todos sabiam da associação’, diz diretora depois da apreensão da PF Foto Arquivo Pessoal
Caroline Penques desconfia que a apreensão possa ser resultado de uma denúncia de um vizinho, que reclamou do cheiro há três semanas. Consequentemente, a vigilância sanitária foi até o local para verificar, o que estava acontecendo. “É só uma vez por ano que temos esse cheiro”, acrescenta.
Segundo o advogado da entidade, Antônio Pinto, há dois processos judiciais em curso: um habeas corpus coletivo e uma ação cível no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, que buscam a regulamentação da associação na lei.
A Santa Gaia considera a operação um reflexo de descompasso entre a Justiça Estadual, a Polícia Civil e a Justiça Federal, que já teria conhecimento das ações em andamento e da relevância social do trabalho desenvolvido.
A associação também destaca o contexto atual de avanço na regulamentação da Cannabis pela União, que recentemente solicitou mais prazo à Justiça para ampliar o diálogo com instituições científicas e comunidades tradicionais.
“Logo agora quando a própria União pede mais tempo para uma regulamentação mais justa e democrática que inclua as associações”.
Ainda neste mês, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pediu mais seis meses para regulamentar o cultivo de cannabis. Um dos motivos foi a falta de diálogo com as associações, que fornecem os produtos para boa parte da população.
Antônio, advogado da entidade, falou sobre o assunto:
Com atuação reconhecida em todo o país, a Santa Gaia atende mais de 9 mil pacientes, incluindo crianças, idosos e pessoas com doenças graves como epilepsia, Parkinson, Alzheimer, câncer e dores crônicas.
Atualmente, 170 famílias recebem medicação gratuitamente, 97 pacientes são atendidos sem custo pela clínica social, e 53 colaboradores trabalham diariamente para garantir o acesso digno ao tratamento.
A apreensão dos materiais coloca em risco a continuidade do atendimento e a estabilidade clínica de milhares de pacientes.
Diante disso, a associação faz um chamado à mobilização de pacientes, médicos, familiares e apoiadores da Cannabis Medicinal no Brasil, pedindo solidariedade e respeito às entidades que atuam legalmente em defesa da saúde e da dignidade humana.
A campanha de apoio pode ser acompanhada pelas redes sociais com as hashtags #TodosPelaSantaGaia e #CannabisÉTratamento.
Tainara Cavalcante
Jornalista pela Fapcom (Faculdade Paulus de Comunicação) e pós graduada na FAAP (Fundação Armando Alves Penteado) em Jornalismo Digital, atua como produtora de conteúdo no Cannalize, Dr. Cannabis e Cannect. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.
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