Estudo publicado em revista científica aponta que o THC pode agravar crises epilépticas, mesmo em pacientes em tratamento.

Um estudo científico recente acende um alerta para pessoas com epilepsia que fazem uso de cannabis. Segundo pesquisadores norte-americanos, o consumo de produtos ricos em tetrahidrocanabinol (THC) pode estar associado à piora do controle das crises epilépticas, mesmo em pacientes que utilizam terapias avançadas, como a neuroestimulação cerebral.
O trabalho foi publicado na revista Epilepsy & Behavior Reports e analisa dois casos clínicos de pacientes com epilepsia focal refratária. Em ambos, o uso crônico de cannabis coincidiu com aumento da frequência e da gravidade das crises. Os autores destacam que, embora o canabidiol (CBD) tenha eficácia comprovada em situações específicas, o THC pode produzir efeitos opostos em alguns pacientes.
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A literatura científica diferencia claramente os efeitos dos dois principais canabinoides da cannabis. O CBD, que não possui efeito psicoativo, é aprovado pelo FDA para o tratamento de síndromes epilépticas graves, como Lennox-Gastaut e Dravet. Isso ocorre devido às suas propriedades anticonvulsivantes bem documentadas.
Por outro lado, o THC atua diretamente sobre os receptores canabinoides do tipo 1 (CB1), amplamente distribuídos no sistema nervoso central. Dessa forma, ele pode alterar a excitabilidade neuronal. Em alguns casos, isso reduz o limiar convulsivo e aumenta o risco de crises.
Além disso, os pesquisadores chamam atenção para o perfil dos produtos disponíveis no mercado. Dados recentes mostram que muitos produtos de cannabis comercializados apresentam altas concentrações de THC, frequentemente acima de 15%. Ao mesmo tempo, as proporções entre THC e CBD nem sempre são favoráveis do ponto de vista terapêutico.
No primeiro caso descrito no estudo, um homem de 25 anos com uma malformação cerebral congênita voltou a apresentar convulsões após iniciar o uso diário de cannabis. Apesar de múltiplos ajustes na medicação e da implantação de um dispositivo de neuroestimulação responsiva (RNS), o controle das crises permaneceu limitado.
No entanto, após a interrupção completa do consumo de cannabis, o paciente permaneceu 18 meses sem crises. Segundo os autores, esse desfecho sugere uma possível associação entre o THC e a piora do quadro clínico.
Já o segundo caso envolveu um homem de 29 anos com epilepsia pós-traumática. Nesse contexto, o uso diário de cannabis foi identificado como um gatilho recorrente para exacerbações das crises. O paciente chegou a apresentar episódios de status epilepticus, uma emergência neurológica grave.
Ainda assim, mesmo com mudanças frequentes no tratamento e uso de RNS, o controle clínico permaneceu difícil. A principal razão foi a incapacidade de manter abstinência da cannabis, o que levou a internações repetidas.
Os autores discutem diferentes mecanismos que podem explicar a relação entre THC e epilepsia. Entre eles está o desequilíbrio entre neurotransmissores. O THC pode reduzir a atividade do GABA, que é inibitório, e aumentar a liberação de glutamato, que é excitatório.
Além disso, a cannabis pode gerar interações farmacocinéticas com medicamentos anticonvulsivantes. Isso ocorre porque compartilham vias metabólicas no fígado, o que pode alterar a eficácia dos tratamentos.
Outro ponto relevante é o impacto sobre a neuroestimulação responsiva. Segundo os pesquisadores, o uso crônico de cannabis pode interferir na plasticidade neural. Com isso, os efeitos de longo prazo da neuromodulação podem ser reduzidos.
Apesar dos achados, os autores reforçam que os dados devem ser interpretados com cautela. O estudo se baseia em relatos de caso e não contou com padronização dos produtos de cannabis utilizados. Além disso, parte das informações depende do autorrelato dos pacientes.
Ainda assim, os resultados reforçam a necessidade de diferenciar claramente o uso terapêutico do CBD do consumo de cannabis rica em THC. Isso é especialmente importante em pessoas com epilepsia refratária ou em uso de terapias avançadas.
Por fim, os pesquisadores defendem a ampliação de estudos clínicos sobre o tema. À medida que o acesso à cannabis cresce, compreender quando os canabinoides ajudam — e quando podem representar um risco — se torna cada vez mais essencial.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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