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THC pode ser perigoso em casos de epilepsia, diz estudo



11/02/2026


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Estudo publicado em revista científica aponta que o THC pode agravar crises epilépticas, mesmo em pacientes em tratamento.

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Um estudo científico recente acende um alerta para pessoas com epilepsia que fazem uso de cannabis. Segundo pesquisadores norte-americanos, o consumo de produtos ricos em tetrahidrocanabinol (THC) pode estar associado à piora do controle das crises epilépticas, mesmo em pacientes que utilizam terapias avançadas, como a neuroestimulação cerebral.

O trabalho foi publicado na revista Epilepsy & Behavior Reports e analisa dois casos clínicos de pacientes com epilepsia focal refratária. Em ambos, o uso crônico de cannabis coincidiu com aumento da frequência e da gravidade das crises. Os autores destacam que, embora o canabidiol (CBD) tenha eficácia comprovada em situações específicas, o THC pode produzir efeitos opostos em alguns pacientes.

Leia também: Como a cannabis está transformando o tratamento epilepsia refratária

CBD e THC atuam de forma diferente no cérebro

A literatura científica diferencia claramente os efeitos dos dois principais canabinoides da cannabis. O CBD, que não possui efeito psicoativo, é aprovado pelo FDA para o tratamento de síndromes epilépticas graves, como Lennox-Gastaut e Dravet. Isso ocorre devido às suas propriedades anticonvulsivantes bem documentadas.

Por outro lado, o THC atua diretamente sobre os receptores canabinoides do tipo 1 (CB1), amplamente distribuídos no sistema nervoso central. Dessa forma, ele pode alterar a excitabilidade neuronal. Em alguns casos, isso reduz o limiar convulsivo e aumenta o risco de crises.

Além disso, os pesquisadores chamam atenção para o perfil dos produtos disponíveis no mercado. Dados recentes mostram que muitos produtos de cannabis comercializados apresentam altas concentrações de THC, frequentemente acima de 15%. Ao mesmo tempo, as proporções entre THC e CBD nem sempre são favoráveis do ponto de vista terapêutico.

Casos clínicos reforçam o alerta

No primeiro caso descrito no estudo, um homem de 25 anos com uma malformação cerebral congênita voltou a apresentar convulsões após iniciar o uso diário de cannabis. Apesar de múltiplos ajustes na medicação e da implantação de um dispositivo de neuroestimulação responsiva (RNS), o controle das crises permaneceu limitado.

No entanto, após a interrupção completa do consumo de cannabis, o paciente permaneceu 18 meses sem crises. Segundo os autores, esse desfecho sugere uma possível associação entre o THC e a piora do quadro clínico.

Já o segundo caso envolveu um homem de 29 anos com epilepsia pós-traumática. Nesse contexto, o uso diário de cannabis foi identificado como um gatilho recorrente para exacerbações das crises. O paciente chegou a apresentar episódios de status epilepticus, uma emergência neurológica grave.

Ainda assim, mesmo com mudanças frequentes no tratamento e uso de RNS, o controle clínico permaneceu difícil. A principal razão foi a incapacidade de manter abstinência da cannabis, o que levou a internações repetidas.

Possíveis mecanismos explicam a piora das crises

Os autores discutem diferentes mecanismos que podem explicar a relação entre THC e epilepsia. Entre eles está o desequilíbrio entre neurotransmissores. O THC pode reduzir a atividade do GABA, que é inibitório, e aumentar a liberação de glutamato, que é excitatório.

Além disso, a cannabis pode gerar interações farmacocinéticas com medicamentos anticonvulsivantes. Isso ocorre porque compartilham vias metabólicas no fígado, o que pode alterar a eficácia dos tratamentos.

Outro ponto relevante é o impacto sobre a neuroestimulação responsiva. Segundo os pesquisadores, o uso crônico de cannabis pode interferir na plasticidade neural. Com isso, os efeitos de longo prazo da neuromodulação podem ser reduzidos.

Estudo pede cautela e mais pesquisas

Apesar dos achados, os autores reforçam que os dados devem ser interpretados com cautela. O estudo se baseia em relatos de caso e não contou com padronização dos produtos de cannabis utilizados. Além disso, parte das informações depende do autorrelato dos pacientes.

Ainda assim, os resultados reforçam a necessidade de diferenciar claramente o uso terapêutico do CBD do consumo de cannabis rica em THC. Isso é especialmente importante em pessoas com epilepsia refratária ou em uso de terapias avançadas.

Por fim, os pesquisadores defendem a ampliação de estudos clínicos sobre o tema. À medida que o acesso à cannabis cresce, compreender quando os canabinoides ajudam — e quando podem representar um risco — se torna cada vez mais essencial.

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Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.