Sativa ou indica já não explicam os efeitos da cannabis. Entenda o que são quimiotipos e por que a ciência mudou a forma de classificar a planta.

Durante décadas, a cannabis foi classificada de forma quase binária: sativa ou indica. Esses termos se popularizaram no mercado e passaram a funcionar como atalhos para explicar efeitos — mais estimulantes de um lado, mais relaxantes do outro. No entanto, a ciência avançou. Com isso, essa divisão perdeu força e começou a ser questionada.
Hoje, pesquisadores e profissionais de saúde defendem uma abordagem mais precisa para entender os efeitos da cannabis: a classificação por quimiotipos.
A distinção entre sativa e indica surgiu a partir de características morfológicas da planta, como altura, formato das folhas e origem geográfica. Porém, esses critérios não explicam de forma confiável os efeitos no organismo humano.
Além disso, estudos mais recentes mostram que plantas visualmente parecidas podem produzir efeitos completamente diferentes. Por outro lado, variedades com nomes distintos podem apresentar composições químicas quase idênticas.
Na prática, isso significa que a aparência da planta não determina seus efeitos. Quem define a resposta do organismo é a química.
Os quimiotipos classificam a cannabis de acordo com sua composição química, especialmente pela proporção entre os principais canabinoides produzidos pela planta.
Em vez de perguntar se uma variedade é sativa ou indica, essa abordagem busca responder questões mais relevantes, como:
Essa proposta surgiu ainda nos anos 1970. Desde então, pesquisadores passaram a adotá-la como um modelo mais sólido para o uso científico e medicinal da cannabis.
Leia também: Você sabe qual a diferença entre o CBD e o THC?
Quimiotipo I: dominância de THC
Nesse perfil, o THC aparece em quantidade muito maior que o CBD. Por isso, essas plantas costumam provocar efeitos psicoativos mais intensos, como alteração de percepção, euforia ou sedação.
Na prática clínica, médicos podem explorar esse quimiotipo em situações específicas, como dor intensa ou espasticidade. Ainda assim, a prescrição exige cautela, já que o THC também pode desencadear efeitos adversos em pessoas mais sensíveis.
As relações mais comuns incluem proporções como 20:1, 50:1 ou até 100:1 (THC:CBD).
Quimiotipo II: equilíbrio entre THC e CBD
O quimiotipo II apresenta THC e CBD em proporções mais próximas. Como resultado, tende a gerar efeitos mais modulados e previsíveis.
Nesse caso, o CBD pode atenuar parte dos efeitos do THC. Por isso, esse perfil costuma ser associado a um melhor equilíbrio entre eficácia terapêutica e tolerabilidade.
Não por acaso, algumas formulações farmacêuticas utilizadas em outros países seguem exatamente essa lógica de equilíbrio. As proporções mais comuns variam entre 4:1 e 1:4.
Quimiotipo III: dominância de CBD
No quimiotipo III, o CBD assume o papel principal, enquanto o THC aparece em níveis muito baixos.
Assim, esse perfil não provoca alterações cognitivas relevantes e apresenta um potencial maior de segurança, especialmente em tratamentos de longo prazo. Por esse motivo, ele costuma ser associado a contextos terapêuticos como epilepsia, ansiedade e processos inflamatórios.
As proporções mais frequentes vão de 1:8 até 1:25 (THC:CBD).
Com o avanço das pesquisas, outros perfis químicos passaram a ganhar atenção.
O quimiotipo IV, por exemplo, se caracteriza pela dominância de CBG (canabigerol). Embora ainda pouco explorado clinicamente, esse canabinoide já demonstra potencial terapêutico em estudos iniciais.
Já o quimiotipo V inclui plantas que produzem quantidades mínimas ou indetectáveis de canabinoides. Nesse caso, o uso costuma se concentrar em aplicações industriais, como fibra e sementes.
Esses perfis reforçam, portanto, que a cannabis apresenta uma diversidade química muito maior do que a antiga divisão entre sativa e indica sugere.
A classificação por quimiotipos permite uma abordagem mais precisa, segura e baseada em evidências. Na prática, isso ajuda médicos a:
Ao mesmo tempo, o paciente passa a entender melhor o que esperar de cada produto. Assim, diminui-se a frustração causada por rótulos genéricos e promessas pouco claras.
À medida que a cannabis medicinal avança no Brasil e no mundo, o vocabulário também evolui.
Sativa e indica continuam existindo como termos botânicos. No entanto, já não explicam, sozinhos, a complexidade dos efeitos da planta.
Os quimiotipos representam, portanto, um passo importante para afastar a cannabis da generalização e aproximá-la da ciência, da clínica e da individualização do cuidado.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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