• 16 de agosto de 2022

Pobreza menstrual e cânhamo industrial: Como o setor pode mudar essa realidade?

 Pobreza menstrual e cânhamo industrial: Como o setor pode mudar essa realidade?

Foto: Freepik

Além de ajudar a suprir a necessidade de milhares de pessoas que não têm acesso à itens de higiene menstrual, empresas propõe que o setor as incorpore na nova indústria. Entenda

A pobreza menstrual é uma triste realidade no Brasil.  Para muitas pessoas, os absorventes ainda são considerados um artigo de luxo, e precisam ser substituídos por pedaços de pano, miolo de pão e até restos de jornais. 

De acordo com dados divulgados no ano passado pelo Fundo das Nações Unidas Para Infância (UNICEF), cerca de 4 milhões de meninas sofrem com a privação de higiene nas escolas e 200 mil delas não têm acesso à absorventes.

62% afirmaram que já deixaram de ir à escola ou a algum outro lugar de que gostam por causa da menstruação, e 73% sentiram constrangimento nesses ambientes.

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E a realidade não muda muito quando estão em casa. Cerca de 713 mil meninas não têm acesso a banheiro ou chuveiro em casa. A probabilidade dela ser negra é ainda, três vezes maior. 

A vida das presidiárias do Brasil também é assustadora. De acordo com um levantamento divulgado pela Folha de S. Paulo, apenas 5 dos 21 presídios paulistas distribuem quantidades adequadas de absorventes. 

Programas públicos

Em março deste ano, o Diário Oficial da União finalmente publicou a nova lei 14.214/21, criada para amenizar o problema. O Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual determina que estudantes do ensino fundamental e médio, mulheres em situação de vulnerabilidade e presidiárias, recebam absorventes gratuitamente. 

O presidente Jair Bolsonaro havia vetado no ano passado, mas o seu veto foi derrubado pelo Congresso Nacional e publicado ainda neste ano. 

Ongs e instituições privadas também possuem programas para disponibilizar absorventes para pessoas em situações vulneráveis.

Como a cannabis entra na história?

Conversamos com a Poliana Rodrigues (31), que desenvolve calcinhas absorventes feitas de cânhamo, chamada Floyou. Uma alternativa ainda mais ecológica que as calcinhas menstruais tradicionais.

Por dentro do assunto, Rodrigues conta que além da disponibilização de serviços básicos de higiene pessoal é necessário se aproximar dessas mulheres e tentar mudar a realidade delas como um todo. 

Algo que pode ser uma bandeira dessa nova indústria. 

“A maneira que a gente poderia lidar, enquanto marca, não é só com parcerias com Ongs que estão distribuindo absorventes, mas discutindo e fomentando mudanças, se aproximando dessas mulheres”, ressalta.

Ela destaca mulheres penitenciárias, por exemplo. Não só disponibilizar, mas a indústria de tecidos poderia capacitá-las para fazer calcinhas menstruais. “Precisamos pensar nessas pessoas, precisamos pensar em reparação”, complementa.

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Além de suprir necessidades

Rodrigues comenta que além de corrigir o problema da pobreza menstrual nas cadeias, o desenvolvimento de projetos com estas mulheres também ajudaria a dar novas chances fora das grades. 

De acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto Igarapé divulgada em 2019, em 15 estados brasileiros, apenas 15,8% das mulheres trabalham. O número de mulheres remuneradas é ainda menor, cerca de 23,9%.

“Facilitar o acesso (ao mercado de trabalho) e acolher essas pessoas, pode ser transformador para a indústria”, completa.

Método ainda mais sustentável 

O cânhamo é uma derivação da cannabis bastante utilizada na indústria para a fabricação de diversos insumos, como tecidos.

Apesar do uso de calcinhas especiais para o período menstrual ter crescido, as peças ainda são feitas de algodão, material que tem gerado polêmica por causa dos seus prejuízos ao meio ambiente.

De acordo com um relatório da Kaya Mind, o cânhamo tem três vezes a resistência à tração que o algodão, além de outros benefícios, como o consumo menor de água, preservação do solo e um ciclo de produção menor. 

“A ideia da calcinha de cânhamo é a possibilidade das camadas absorventes serem substituídas pelo cânhamo. As grandes marcas têm o discurso do algodão orgânico, mas há uma série de problemáticas, ele ainda vem de mão de obra escrava e produtos não tão legais”, acrescenta. 

Segundo Rodrigues, a solução é mais ecológica, hipoalergênica e não demanda pesticidas. Por isso, além das calcinhas, também outras peças, como roupas de bebê, por exemplo.

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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