• 24 de junho de 2022

Legalização, guerra às drogas e uso medicinal… Trocamos uma ideia com Will, do Canal umdois

 Legalização, guerra às drogas e uso medicinal… Trocamos uma ideia com Will, do Canal umdois

O Will é uma das cabeças pensantes por trás do umdois, canal no Youtube que está, desde 2014, focado em espalhar a palavra “maconhista” por esse mundão.

O Canal nasceu em 2014, unindo o gosto por “dar umdois” e o audiovisual, área que a maioria dos membros trabalhava. 

Hoje, nove anos depois, mudanças de membros e alguns problemas com o Youtube, a conta possui mais de 980 mil inscritos e quase 300 vídeos publicados. 

O Will é meio que o maestro que rege toda essa orquestra de Jah. Fomos até o QG do umdois para bater um papo bem legal com ele. Se liga.

Guerra às drogas

Em 2014, quando o canal foi criado, nem a liberação para importar medicamentos derivados da cannabis havia sido aprovada. Só em 2015 isso começou a ser viável. 

Hoje, até o momento, é possível encontrar uma variedade de 14 produtos em farmácias brasileiras. 

No cenário medicinal, realmente houve certa evolução desde o início do canal para agora. Will comentou sobre isso, mas fala que a principal mudança ainda precisa ser feita. 

“Uma coisa que não mudou, e pra mim seria a principal mudança, é que a guerra às drogas continua sendo uma guerra aos pretos pobres. Isso não mudou absolutamente nada”. 

O integrante do umdois comentou que ele, como um japonês nerd, poderia ir até a Avenida Paulista a qualquer hora do dia, acender um em frente da polícia, e que não ia acontecer nada. Já Cesinha (também integrante do umdois) toma enquadro praticamente todo dia em Osasco.

Ele diz que sempre perguntam para ele quando é que a maconha vai ser legalizada no Brasil. A resposta é clara: “A maconha já está legalizada, basta estar com o CEP certo e a cor certa”.  

Mais gente falando sobre maconha

Na década de 1970, o lendário Bezerra da Silva cantava “Malandro Não Vacila” e colocava a maconha na música. 

Na década de 1990, Marcelo D2 e a rapaziada do Planet Hemp acabou com tudo em lançamentos como “Legalize Já”, “Mantenha o Respeito”, “Queimando Tudo” e tantos outros sucessos que viraram hinos para a galera da “ganja”. 

Mas era muito pouco, eram bandas e cantores isolados falando sobre a erva. Hoje, a cena mudou e parece que a bolha foi furada.

“O pensamento está mudando no Brasil (sobre maconha), pois se você for pensar aí, a Ludmilla fez música sobre maconha, a Gloria Groove também. E na minha época, era só o Planet Hemp que falava sobre maconha”, comentou Will. 

Ele diz que, hoje, há vários artistas que nem levantam de fato a bandeira, mas gostam de fumar um, e não escondem isso. 

E que o que muda de fato o pensamento de uma sociedade é a cultura. Falar sobre o assunto em músicas, séries, filmes, novelas, etc… É isso que realmente faz a diferença. 

A importância do umdois para a cena da cannabis

Sobre as influências na cultura brasileira, falando mais sobre maconha no mainstream, como Ludmilla, Gloria Groove, Baco Exu do Blues e Racionais Mc´s, por exemplo, não se pode deixar de lado a relevância do Canal umdois. 

O grupo ajuda a combater e mudar certos preconceitos estabelecidos levando informação para a galera na internet. 

“Começamos a fazer para mostrar nossas brisas, mas, com o tempo, sentimos que começamos a ter uma certa responsabilidade. Eu acho que nós temos nosso papel, mas não é a gente que tá no controle da luta não, a gente faz parte disso”, enfatiza Will, sobre o umdois ser peça chave no movimento canábico. 

Ele comenta ainda que muita gente acha que o pessoal do umdois é especialista no assunto, mas, que na verdade, não, eles só são maconheiros que fazem vídeos. Mas diz também que, às vezes, rir de chapado tem sua importância também. 

Mercado estrangeiro

O canal tem um quadro muito aclamado pelos fãs, o famoso “umdois viagem”. Os integrantes viajam pelo mundo, ficam “So High” e curtem o momento. 

Um dos vídeos mais vistos do umdois é o “umdois viagem Califórnia”, onde mostram como é o delivery da erva, como funciona o mercado legal de cannabis e todo esse processo. 

O Will comentou sobre isso e diz que tem um “gostinho especial”: 

“É estranho (comprar em países legalizados). Uma sensação única assim, quando você paga, pega o troco, nota fiscal, é diferente. Mas a melhor coisa é saber mesmo o que você tá fumando, saber a porcentagem certinha das coisas. No Brasil existe uma erva muito boa e tal, mas não se sabe exatamente o que tem alí”. 

Uso medicinal

O uso medicinal da cannabis tem duas vertentes. Os produtos à base da planta, como óleos, cremes, comestíveis e vaporizadores; e o baseado, que é fumado para relaxar. 

Falando com o Will sobre isso, ele comentou que não fuma maconha só para ficar chapado e curtir uma onda, mas que sempre teve um propósito. 

“Creio que o uso medicinal, mesmo que sem eu perceber que era medicinal, sempre fez parte da minha vida. Por exemplo, quando eu jogo bola e saio todo quebrado e tal, costumo fumar um depois para relaxar. E o uso medicinal é uma linha muito tênue, porque eu poderia tomar um dorflex, mas eu escolho fumar um baseado. Quem vai dizer que meu uso não foi medicinal? Me ajudou.” 

Diversos pontos importantes foram abordados no papo. Racismo, legalização, mercado gringo, uso medicinal. 

O importante mesmo é que conversas como essas sejam cada vez mais frequentes no Brasil. Para que a cannabis deixe de ser um tabu para a sociedade, e que fique claro a importância da planta para tanta gente.

Mas, evidente, é preciso que a estrutura social mude no país para que a discriminação, a violência policial e a guerra às drogas sumam junto com as leis de proibição. 

Arthur Pomares

Jornalista e produtor de conteúdo da Cannalize. Apaixonado por café, futebol e boa música. Axé.

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