
“Homem com H” Cannabis, saúde e machismo
Neste momento encontro-me ouvindo Ney Matogrosso e me questionando: o que é ser homem com H?
“Porque eu sou é homi”
Gosto como essa música é uma forma de ironizar e questionar a masculinidade tradicional…
Por que é mais “aceitável” um homem beber uísque para “aguentar a pressão” do que admitir uma vulnerabilidade psicológica?
O Novembro Azul foca na saúde do homem, e o machismo é, sem dúvida, um dos maiores bloqueios para que homens cuidem da própria saúde.
Diversas pesquisas mostram que os homens procuram serviços de saúde (clínicos gerais, especialistas e psicólogos) significativamente menos que as mulheres. Muitas vezes, só o fazem quando levados por parceiras ou quando a dor ou sintoma são incapacitantes.
E isso tudo tem um desfecho trágico: Segundo relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), um em cada cinco homens morre antes dos 50 anos e muitas das principais causas de morte nas Américas, incluindo doenças cardíacas, violência interpessoal e acidentes de trânsito, estão diretamente relacionadas a comportamentos “machistas” construídos socialmente.
No Brasil (e globalmente), a taxa de suicídio entre homens é drasticamente maior. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 75% a 80% das mortes por suicídio no país são de homens. Isso é frequentemente associado à depressão não diagnosticada e não tratada, mascarada pela pressão de “ser forte”.
Se o homem admite sua vulnerabilidade, existe o julgamento social rotulando-o de “fraco” ou “cheio de frescura”. Se ele fica em silêncio para “aguentar como homem”, o “bicho” o come por dentro, levando aos desfechos trágicos que os dados mostram, tornando o machismo essa dança perigosa, em que qualquer atitude se torna insatisfatória.
E é exatamente nesse vácuo de cuidado que a cannabis entra. Ela surge não como tratamento, mas como automedicação.
O homem que não pode ir à terapia para tratar sua ansiedade — “homem não pode ter frescura” — e descobre que a cannabis o ajuda a “relaxar” ou a dormir. O homem que sofre de dor crônica por um trabalho braçal — mas que “aguenta a dor” — encontra no uso adulto da planta um alívio que ele não ousa pedir a um médico.
Aqui, a cannabis não é uma escolha de saúde, mas uma ferramenta de sobrevivência. Ela surge na solidão, longe dos olhares que o julgariam duplamente: primeiro, por estar vulnerável; segundo, por usar uma substância “ilícita”.
Mas o que acontece quando esse homem decide sair da automedicação e buscar ajuda formal? É aí que entra a cannabis medicinal de verdade, acompanhada por um profissional habilitado. Surge como uma ferramenta terapêutica essencial, muitas vezes abordando exatamente os problemas que o “Homem com H” foi ensinado a esconder.
A pressão constante para ser o provedor, ser bem-sucedido e “não demonstrar fraqueza” gera níveis altíssimos de ansiedade.
O CBD (canabidiol) é amplamente estudado e utilizado por seu potencial ansiolítico, atuando no sistema nervoso central para ajudar a regular o humor, muitas vezes sem os efeitos colaterais “embotantes” de alguns antidepressivos tradicionais ou o risco de dependência dos benzodiazepínicos.
“O homem que não aguenta dor é fraco”.
Homens são maioria em trabalhos fisicamente desgastantes (construção civil, indústria, agricultura) e também em muitos esportes de alto impacto.
A regra é “aguentar a dor”.
Alternativa a opióides e antiinflamatórios: A cannabis medicinal oferece um mecanismo diferente para o manejo da dor, com potencial analgésico e anti-inflamatório, apresentando um perfil de segurança muito superior.
A cannabis não é a cura para o câncer, mas sim um suporte fundamental durante o tratamento. O homem que enfrenta quimioterapia ou radioterapia para o câncer de próstata (ou outros) sofre com efeitos colaterais, como náuseas intensas, perda de apetite, dor oncológica e ansiedade.
A cannabis medicinal é extremamente eficaz em:
Leia mais: Cannabis no tratamento de câncer? O que a ciência diz
A ansiedade não tratada e a pressão para “resolver tudo” frequentemente se manifestam como insônia crônica. Como mencionado acima, a solução masculina padrão costuma ser o álcool (“uma dose para apagar”).
A cannabis medicinal, através de diferentes perfis de fitocanabinoides (incluindo o THC e o CBN), é uma ferramenta poderosa para induzir e manter o sono, sem a ressaca do álcool ou os riscos de dependência de muitos hipnóticos (indutores de sono).
Em suma, a cannabis medicinal oferece tratamento para exatamente aquilo que o machismo ensina o homem a esconder: a dor, seja ela física ou mental.
Neste Novembro Azul, talvez o ato mais corajoso de masculinidade seja quebrar o silêncio — seja para falar sobre o exame de próstata, sobre saúde mental ou sobre uma opção terapêutica que ainda carrega um grande estigma. Porque o homem com H cuida SIM da saúde.
PARA SABER MAIS…
Masculinidade tóxica fará com que 1 em cada 5 homens nas Américas não alcancem os 50 anos – Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), 2019.
Grupo-Oficina de Homens: masculinidades, uso de substâncias e cuidados generificados em saúde em um Centro de Atenção Psicocial – Álcool e Drogas, 2025.
Dados sobre Suicídio por Gênero (Fiocruz/Ministério da Saúde) – Boletim Epidemiológico Nº 55 – Panorama dos suicídios e lesões, 2024.
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Raíssa Ximenes
Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis
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