Diretor da Anvisa Thiago Campos admite que defendia mais THC no cultivo, mas explica por que a Anvisa escolheu cautela e o que pode mudar no futuro.

Thiago Campos, diretor da Anvisa. Foto: Arquivo pessoal
Em entrevista ao podcast de Anita Krepp Cannabis Hoje Pod, o diretor da Anvisa, Thiago Campos, afirmou que defendia um limite maior de THC no cultivo de cannabis no Brasil. Ainda assim, a agência optou por uma escolha mais cautelosa no texto final da regulamentação.
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Segundo o diretor, a decisão de fixar o teto em 0,3% de THC não impede o desenvolvimento de medicamentos com teor mais elevado do canabinoide. Além disso, a norma atual abre espaço para avanços futuros, à medida que novas evidências científicas sejam produzidas.
A declaração ocorre após a publicação das novas regras para o cultivo de cannabis no país. Desde então, parte do setor criticou o limite, por considerá-lo excessivamente restritivo. Por outro lado, Campos sustenta que o percentual definido não inviabiliza a cadeia produtiva medicinal.
“O 0,3% de THC pode não inviabilizar a produção de nenhum medicamento que tenha teor de THC superior a isso”, afirmou.
“Ou seja, isso não é um limitador para o teor de THC dos produtos ou dos medicamentos que vierem a ser registrados.”
Durante a entrevista, Thiago Campos reconheceu que sua posição pessoal era mais avançada do que o texto aprovado pela diretoria colegiada da Anvisa. Nesse sentido, ele explicou que havia disposição para ir além, mas o consenso interno pesou na decisão final.
“Eu ainda estava inclinado a fazer a regulamentação com teor maior de THC”, disse.
No entanto, o diretor destacou que a cultura regulatória da Anvisa prioriza a precaução, sobretudo em temas ainda cercados por estigma e forte polarização política. Por isso, a diretoria optou por um caminho considerado mais seguro.
“É melhor dar um passo seguro e avançar no futuro do que não dar passo nenhum”, afirmou.
Campos relatou que a regulamentação resultou de um processo intenso de negociação interna. Durante cerca de 30 dias, a cannabis medicinal se tornou o tema central da agência. Nesse período, a Anvisa suspendeu outras pautas e concentrou esforços exclusivamente no debate sobre o tema.
De acordo com o diretor, a estratégia foi construir um texto capaz de obter maioria na diretoria colegiada. Para ilustrar essa lógica, ele citou um conselho recebido de um ex-diretor da agência.
“Voto bom é voto aprovado”, resumiu.
A partir disso, a equipe buscou um meio-termo que destravasse a regulamentação, sem gerar riscos de rejeição ou retrocesso institucional.
Um dos principais pontos da entrevista foi a distinção entre o limite imposto ao cultivo e o teor final dos medicamentos. Nesse ponto, Campos reforçou que o percentual de 0,3% se aplica apenas à planta cultivada, não ao produto farmacêutico.
Assim, a Anvisa pode autorizar medicamentos com concentrações mais altas de THC, desde que atendam aos critérios sanitários e regulatórios.
Além disso, a liberação do cultivo e da pesquisa deve gerar dados mais sólidos. Com isso, a agência poderá revisar parâmetros no futuro, considerando fatores como clima, solo e viabilidade produtiva no Brasil.
Durante a conversa, Thiago Campos também abordou o peso histórico e social que envolve a cannabis no Brasil. Primeiro diretor negro da Anvisa, ele afirmou que não ignora a relação entre a criminalização da planta e o racismo estrutural presente nas políticas do Estado.
Segundo Campos, a institucionalidade brasileira historicamente associou a cannabis à repressão de corpos negros. Para ele, esse processo produziu um estigma que ainda influencia o debate regulatório.
Ao mesmo tempo, o diretor destacou que sua atuação na Anvisa se apoia na ciência como ferramenta central de transformação. Ele afirmou que reconhecer o racismo estatizado não é incompatível com a necessidade de produzir evidências robustas.
Pelo contrário. Na avaliação dele, apenas a pesquisa científica pode sustentar avanços regulatórios duradouros e defensáveis em um ambiente institucional ainda sensível ao tema.
Campos também ressaltou a importância da mobilização social para que a cannabis medicinal chegasse à agenda pública. Para ele, nenhum avanço regulatório ocorre sem pressão organizada da sociedade.
Segundo o diretor, mães, associações de pacientes, profissionais de saúde e jornalistas tiveram papel central nesse processo. Esses atores, ao longo dos anos, transformaram uma demanda individual em um movimento coletivo.
Por isso, ele avalia que a pauta da cannabis não pode mais ser ignorada por nenhum governo. Independentemente de posições ideológicas, a mobilização social consolidou o tema como uma questão de saúde pública.
Para o diretor, a norma atual não representa um ponto final. Pelo contrário, ela funciona como um ponto de partida para retirar a cannabis do campo exclusivamente ideológico e levá-la para o campo da ciência.
“Com pesquisa, a gente passa a ter robustez científica para defender qualquer limite que seja viável”, afirmou.
Por fim, a entrevista marca a primeira manifestação pública de Thiago Campos sobre os bastidores da regulamentação desde que assumiu a diretoria da Anvisa. A conversa integra a edição comemorativa de 100 episódios do Cannabis Hoje Pod.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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