• 24 de junho de 2022

É verdade que a maconha é a porta de entrada para outras drogas? 

 É verdade que a maconha é a porta de entrada para outras drogas? 

Durante muito tempo a ideia de que a maconha é um incentivo para o uso de outras substâncias se perpetuou no pensamento popular. Mas será que isso é verdade?

A maconha é a substância psicoativa ilícita mais utilizada no mundo e também a droga mais consumida no Brasil, de acordo com o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Embora o uso adulto seja proibido no país, ela pode ser encontrada em diversos locais, como festas, baladas, feiras, shows e até em roda de amigos. 

As pessoas utilizam para uma série de motivos, para relaxar, “entrar na onda”, ou até como tratamento. Mas será que ela realmente é a porta de entrada para outras drogas? 

Mas de onde saiu essa ideia?

De acordo com o  advogado e coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Renato Filev, a ideia de “porta de entrada” é uma teoria que tenta resumir um fenômeno complexo, que é o uso de substâncias. 

Ele explica que depois que a cannabis foi proibida, ela continuou a ser usada e era vendida por pessoas que também comercializavam ilegalmente outras substâncias, como, derivados da coca, derivados da papoula e também substâncias sintéticas.

Os componentes classificados como danosos, tratam-se de substâncias ainda mais perigosas que a cannabis. Por isso, a planta era relacionada a outras drogas.

“Observa-se que as pessoas que já fizeram o uso da cannabis, já tinham feito o uso de outras substâncias psicotrópicas, como o álcool e o tabaco. Então, se existe alguma porta de entrada, deveriam ser estas”, ressalta.

Não há relação alguma

A verdade é que não há estudos que comprovem a relação da maconha com outras drogas. 

De acordo com o Programa de Atendimento a Dependentes Químicos da Universidade de São Paulo (Unesp), algumas drogas podem sim ser a porta de entrada para outras. No entanto, não é o caso da maconha.

Isso porque os consumidores tendem a fazer o uso esporádico e cerca de 90% tendem a abandonar a erva depois de um tempo. 

Comportamento

Segundo uma análise de dados divulgada pelo Instituto Baker para Políticas Públicas da Universidade de Rice, no Texas, fumar maconha não leva nem ao aumento do consumo da própria maconha. 

De acordo com William Martin, diretor do programa, os gráficos traçam o padrão do consumo de drogas no país há mais de 40 anos.

Males da maconha

Contudo, isso não quer dizer que ela não vicia ou que possa fazer mal. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a cannabis recreativa pode sim causar dependência. 

Embora o vício seja classificado entre leve e moderado, a alta quantidade de tetraidrocanabinol (THC), componente da planta que gera os efeitos alucinógenos, pode trazer algumas consequências ao cérebro e até ao coração.

Cannabis como solução

Por outro lado, a cannabis tem sido a solução para vícios. 

Pelo menos é  o que dizem alguns estudos levantados pela Aline da Silva, da equipe Cannect Ciência. O projeto nada mais é do que um time da empresa Cannect, que mapeia os principais estudos científicos sobre a planta no Brasil.

Um deles é uma pesquisa feita com fumantes, publicada em 2013. O estudo científico, feito também com placebos, avaliou o impacto do uso do Canabidiol (CBD) em 24 fumantes que desejavam parar de fumar.

Os resultados demonstram que o grupo que utilizou o CBD reduziu significativamente o número de cigarros fumados em aproximadamente 40% durante o tratamento. Já os tratados com placebo, não mostraram diferenças na quantidade de cigarros por dia. 

Já em outra pesquisa pré-clínica, publicada na J Pharmacol, mostrou que o Canabidiol atua como neuroprotetor, prevenindo lesões cerebrais induzidas pelo etanol. Ou seja, ele preveniu a neurodegeneração do cérebro em ratos compulsivos por álcool. 

Cannabis na prática

Resultados possíveis até pelo uso recreativo, como no caso do Thiago da Silva Schiavo, morador de Perus, uma cidade de São Paulo. Hoje com 33 anos, o barbeiro conseguiu deixar a cocaína graças à cannabis. 

À cannalize ele relata que fez uma técnica de redução de danos, que troca uma droga por outra mais branda, no caso, a maconha.

A redução de danos é garantida pela Portaria 1.028 desde 2005, e tem a premissa de minimizar os reflexos negativos das drogas. Ela não é uma fórmula, mas é personalizada para cada um. 

Resultados da troca

Schiavo conta que entendeu que precisava mudar em 2012, quando percebeu prejuízos no seu corpo e na sua mente. Não se alimentava direito, não dormia bem, por isso, decidiu que precisava parar de usar cocaína.

“Mas eu sabia que não poderia fazer isso sem substituir por outra coisa”, relata. 

Em questão de um mês ele já tinha conseguido trocar a cocaína pela maconha, e agora, a sua relação com a planta é muito mais saudável. Hoje ele dorme e se alimenta melhor e é até mais interativo que antes. “Tem dias que eu não fumo e nem sinto falta”, relata.

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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