
Dor pós-operatória: Um cuidado mais humanizado com cannabis
A dor após-operatória é uma experiência quase universal. Mesmo com todos os avanços da medicina moderna, o controle da dor ainda é um desafio diário nos hospitais e consultórios.
A dor não é apenas um sintoma, ela é um sinal do corpo, uma forma de comunicação que precisa ser compreendida e respeitada. Quando não é controlada, pode afetar o sono, o humor, o apetite e até retardar a recuperação.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que toda avaliação de dor seja feita de forma individualizada, usando instrumentos simples e eficazes, como a EVA (Escala Visual Analógica), na qual o paciente aponta de 0 (sem dor) a 10 (pior dor possível) e permite que a equipe de saúde defina metas de alívio.
Também serve para avaliar a eficácia dos analgésicos e ajuda a reduzir complicações. Essa avaliação é essencial para ajustar o tratamento e garantir que o paciente não sofra desnecessariamente.
Nos últimos anos, a cannabis medicinal vem despertando o interesse de médicos e pacientes como uma alternativa promissora no manejo da dor, inclusive na fase pós-operatória. Embora a maior parte das evidências ainda se concentre em dores crônicas, como fibromialgia, neuropatias e dores musculoesqueléticas, há cada vez mais estudos investigando seu potencial para modular a resposta inflamatória e a percepção dolorosa aguda.
Os principais compostos ativos da planta, o CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol), atuam sobre o Sistema Endocanabinoide, um conjunto de receptores distribuídos pelo cérebro e pelo corpo que ajuda a regular processos como dor, humor, sono e imunidade.
O CBD, por exemplo, tem ação ansiolítica, anti-inflamatória e analgésica, e pode auxiliar na redução da ansiedade e da tensão muscular, frequentemente associadas à dor pós-cirúrgica. Já o THC, quando utilizado em doses adequadas, é mais analgésico que o CBD e é muito eficaz para o dor neuropática, que ocorre por inflamação, compressão ou lesão dos nervos.
Em muitos casos, o uso combinado de ambos, com predominância do CBD, pode reduzir a necessidade de opioides, medicamentos tradicionalmente usados para dores mais intensas, mas que trazem risco de dependência e efeitos adversos importantes. Essa possibilidade coloca a Cannabis como uma ferramenta complementar, capaz de tornar o processo de recuperação mais confortável, seguro e humano.
É fundamental compreender que a cannabis não substitui os tratamentos convencionais para dor, mas pode ser integrada dentro de uma abordagem multimodal, aquela que combina diferentes recursos, como analgésicos, Fisioterapia e Acupuntura, por exemplo. Essa combinação tem se mostrado mais eficaz do que qualquer método isolado.
Observamos na prática que os pacientes que fazem uso de formulações com predominância de CBD e pequenas quantidades de THC relatam uma sensação de maior estabilidade emocional e melhora da ansiedade, menor reatividade à dor e melhora do sono, dois fatores fundamentais na recuperação.
O uso medicinal da cannabis deve sempre ser prescrito e acompanhado por um profissional habilitado, que possa avaliar o histórico do paciente, as possíveis interações medicamentosas e ajustar a dose de forma segura. Cada organismo responde de maneira única, e a individualização é a chave para o sucesso terapêutico.
Falar sobre Cannabis na dor pós-operatória é também falar sobre uma mudança de paradigma: a busca por uma medicina mais empática, que valoriza o bem-estar, o conforto e o protagonismo do paciente na sua própria recuperação.
A cannabis não é uma “cura milagrosa”, mas pode representar um passo importante rumo a um cuidado mais completo, onde o alívio da dor não é apenas a ausência de sofrimento, mas o caminho para desfrutar uma vida com equilíbrio, autonomia e esperança.
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Lucas Lomba
Dr. Lucas Monteiro Lomba, Médico Especialista em Acupuntura com Especialização em Dor pela USP. Prescritor de Cannabis Medicinal e Palestrante. CRM-SP 154.510 | RQE 133743
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