
TDAH como é ser um ET em um mundo neurotípico
Este texto, na verdade, é uma carta dirigida ao meu eu do passado e a todas as pessoas que diariamente lutam contra isso e ainda não sabem nomear ou definir o que estão passando.
Aos 18 anos, busquei um psiquiatra que me disse que eu não poderia ter TDAH, porque “ia bem na escola”. Dez anos depois, aos 28, recebi meu diagnóstico formal: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade.
O diagnóstico liberta. Faz você parar de se sentir um ET no meio de tanta gente neurotípica. Faz você se abraçar, acolher suas dificuldades e criar estratégias para lidar com elas. A medicação não é uma “muleta” ou “doping”.
Eu finalmente entendi que muitas das minhas aflições, ansiedades e angústias eram frutos da disfunção executiva e que esse era um dos meus maiores desafios.
“A disfunção executiva refere-se a um conjunto de dificuldades que afetam a capacidade de uma pessoa de planejar, priorizar, organizar, iniciar e concluir tarefas, além de gerenciar o tempo, manter a atenção, usar a memória de trabalho, controlar impulsos, etc.”
O tratamento não me tornou uma pessoa com supercapacidade de cumprir tarefas, mas me tornou capaz de finalmente funcionar, planejar, organizar pensamentos e não só iniciar, mas também conseguir finalizar o que comecei. Não estou falando só de remédio, tá? Estou falando também de orientações em terapia, como fazer listas de tarefas e até listas de distrações (incluindo aquelas procrastinações produtivas, sabe? Tipo fazer aquela tarefa mais agradável que só precisamos entregar em um mês e ignorar a que é urgente).
Este não é um texto para autodiagnóstico, ainda mais porque hoje ter TDAH está na “moda”. É um texto para reduzir o estigma e incentivar pessoas a buscarem profissionais para um diagnóstico certeiro e tratamento. Assim podem finalmente se aceitarem e se acolherem: com suas facilidades, dificuldades, déficits cognitivos e hiperfocos.
A aceitação não é passividade. Podemos aceitar uma situação e, ainda assim, buscar melhorias ou mudanças. A diferença está na atitude: em vez de lutar contra a realidade, trabalhamos com ela. Não há tempo a perder tentando ser alguém que não somos.
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Raíssa Ximenes
Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis
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