Allan Paiotti, CEO da Cannect, fala à Rádio Hemp sobre cannabis medicinal, pacientes crônicos, Anvisa, flores e o futuro do mercado no Brasil.

Allan Paiotti na Rádio Hemp
Na última segunda-feira (13), o executivo Allan Paiotti, CEO da Cannect, concedeu entrevista à Rádio Hemp em conversa com o jornalista Ricardo Amorim.
O encontro abordou o presente e o futuro da cannabis medicinal no Brasil, destacando como a empresa estruturou um ecossistema de cuidado coordenado para pacientes crônicos, o papel da cannabis como ferramenta terapêutica, e até o retorno das flores terapêuticas ao ecossistema.
A entrevista, transmitida ao vivo na webrádio, mostrou como saúde, negócios e ativismo se encontram em um debate que pode redefinir o setor no país, sempre considerando a importância da ciência e da boa relação com órgãos reguladores, como a Anvisa, e a projeção de um mercado que deixou para trás a fase do deslumbre para entrar em um ciclo de maturidade e crescimento sustentável.
Durante a pandemia, Allan Paiotti, então diretor do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, percebeu um padrão preocupante: pacientes crônicos voltavam ao pronto-socorro em intervalos curtos.
Esses pacientes sofriam de diabetes, hipertensão, asma ou problemas cardíacos e buscavam o hospital por falta de acompanhamento contínuo.
“Mais de 60% dos pacientes crônicos ao redor do mundo desconectam do seu tratamento porque não tem ninguém acompanhando ativamente aquela situação.”
Dessa experiência nasceu a visão da Cannect: criar um ecossistema de cuidado coordenado, conectando pacientes a médicos habilitados, com acompanhamento ativo e protocolos de longo prazo. Hoje, a empresa já acompanha quase 50 mil pacientes e viabilizou mais de 100 mil tratamentos.
Ao estudar o tema, Paiotti se surpreendeu com a amplitude terapêutica da cannabis medicinal no Brasil:
“E eu fiquei muito surpreso em ver o tipo de doença que, de fato, a cannabis estava sendo utilizada. E, na sua grande maioria, são doenças crônicas.”
Ele destacou o amplo espectro de atuação dos canabinoides:
“Você pode tomar um remédio para insônia, um canabinoide focado na insônia, mas ele vai te ajudar eventualmente em outros tipos de condições clínicas que você tem, que você nem estava imaginando. Eu, por exemplo, pratico esporte de alto impacto e uso cannabis para a inflamação e dores derivadas do esporte, e isso me ajuda no sono.”
A Cannect se diferencia pela curadoria técnica e pela preocupação com a qualidade dos tratamentos.
O médico tem uma série de ferramentas que reforçam sua avaliação: ele vai ter uma curadoria de produtos, tem uma base científica que sistematiza tudo que é produzido de conhecimento científico ao redor do mundo sobre cannabis medicinal. Não entra nada dentro do ecossistema da Cannect […] se não estiver absolutamente suportada por uma evidência científica.
Além disso, a empresa avalia certificados de origem, processos de fabricação e documentação de qualidade, garantindo que apenas produtos seguros cheguem aos pacientes.
O tema das flores sempre foi polêmico no Brasil. Quando começaram a ser importadas, em 2023, a Cannect adotou cautela:
“Naquele momento nós criamos um portfólio muito restrito de flores, com um disclaimer muito claro da nossa direção médica […] apenas para médicos que já estavam no grau de maturidade para poder fazer a correta avaliação de uso das flores.”
Hoje, segundo Paiotti, a empresa comunica “muito cuidadosamente” sua parceria com a ASPAEC, uma associação autorizada judicialmente a produzir medicamentos à base de cannabis, incluindo as inflorescências, para seus associados.
“A ASPAEC é uma associação nova, que acabou de começar a operar, muito consciente deste trabalho, e a Cannect vai ser um braço da ASPAEC para que as pessoas possam seguir o rito formal de se associar devidamente e acessar estes tratamentos, passando por médicos habilitados que vão entender se eles podem ser tratados com os óleos ou as flores medicinais que a associação tem.”
No último domingo, circulou pela internet uma notícia afirmando que a Cannect voltou a comercializar flores. Para Allan, a informação é imprecisa, pois não se trata de comercialização direta, mas de mediação responsável, garantindo acesso seguro e regulado às flores de cannabis.
“Não estamos comercializando as flores. O que fizemos foi criar uma conexão com uma associação que estava já há alguns anos aguardando uma autorização formal para fazer, de fato, a produção de medicamento a base de cannabis medicinal para seus associados.”
Paiotti acredita que o Brasil está prestes a dar um salto em pesquisa e desenvolvimento:
“Eu não tenho mais dúvida de que a cannabis, em geral, vai ser liberada. A gente vai ter o cultivo aqui em breve, em um ciclo de 1, 2, 3 anos. […] O Brasil tem ótimos laboratórios, ótimos centros de pesquisa, ótimos pesquisadores e a gente vai levar isso à frente.”
Com universidades já reconhecidas internacionalmente, o país tem condições de se tornar um polo de pesquisa científica em cannabis medicinal, unindo estudos clínicos e dados de vida real coletados pela Cannect.
Quando o assunto foi a Anvisa, órgão público responsável por fiscalizar o uso de cannabis medicinal como recurso terapêutico no Brasil, Paiotti elogiou a atuação da agência reguladora:
“A Anvisa foi muito corajosa com as regulações, as resoluções que ela fez. […] Mesmo com tanta interferência e interesses, eu acho que eles estão fazendo um trabalho correto.”
E destacou a postura colaborativa da Cannect:
“Eu tenho esses dados e falo para a Anvisa: ‘Como é que eu posso disponibilizar isso para vocês? Como é que eu posso disponibilizar esse processo de curadoria técnica para ajudar na reflexão do desenvolvimento do marco regulatório?’”
Para Allan, essa relação de cooperação e transparência fortalece a credibilidade do setor.
A Cannect não se limita à cannabis medicinal. Paiotti explicou a expansão para novos protocolos:
“Nós estamos trazendo superfoods, protocolos de algas funcionais, cogumelos funcionais com estudos clínicos, e também um protocolo de obesidade com a tirzepatida, sempre com acompanhamento médico e psicológico. A nossa visão está no paciente.”
A visão é clara: oferecer saúde integral, com foco no paciente e não apenas em produtos.
Sobre o futuro do setor, Paiotti foi direto:
“Eu nunca acreditei nessa tese de que esse negócio em dois anos nós viramos milionários. […] Nós começamos a Cannect com uma visão de longo prazo, de criar algo estruturado e resgatar uma visão de cuidado mais próximo do paciente.”
Para ele, o futuro do mercado brasileiro está em crescimento sustentável, com foco em ciência, regulação e saúde individualizada.
Curiosamente, Allan contou rapidamente sobre os motivos pelos quais a Cannect adquiriu o portal Cannalize, em 2021, especializado em jornalismo sobre cannabis.
“A ideia da Canalize é falar com o público consumidor final, nós como indivíduos, que como eu tinha o preconceito, eles não entendiam o que era canábis, o que era, ou quando falava de maconha, como é que generaliza esse conceito. Então, a canalismo tá lá pra explicar isso, né?”
Como bem disse o chefe, o objetivo da Cannalize é desmistificar o uso da planta, oferecendo informação de qualidade e combatendo preconceitos.
Por fim, a entrevista na Rádio Hemp mostrou que a cannabis medicinal no Brasil já não é apenas pauta de ativismo: é um setor que amadurece, sustentado por ciência, regulação e foco no paciente.
A fala de Allan Paiotti reforça que o futuro da cannabis no país passa por responsabilidade institucional, pesquisa robusta e visão de longo prazo — um caminho que pode transformar tanto a saúde quanto a economia brasileira.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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