Cannabis e depressão é um assunto que ainda divide opiniões, afinal ainda não há um consenso no meio científico a respeito do uso da planta para o tratamento de saúde mental.
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Cannabis e depressão: o que a ciência diz a respeito?



29/03/2026


cannabis e depressao

Será que a cannabis pode ser usada para tratar depressão?

Cannabis ajuda ou piora a depressão? Veja o que mostram os estudos científicos mais recentes, riscos do THC, limites do CBD e possíveis terapias. 

Cannabis e depressão é um assunto que ainda divide opiniões, afinal ainda não há um consenso no meio científico a respeito do uso da planta para o tratamento de saúde mental. 

Ao analisar as revisões publicadas nas principais revistas da área, até o início deste ano, há análises prós e contras o uso de canabinoides para o tratamento da depressão. 

Há evidências que indicam que o uso de THC pode trazer mais riscos do que benefícios. Mesmo o canabidiol, que tem resultados excelentes no controle da ansiedade, ainda não é aceito, de acordo alguns pontos de visa. Confira os que últimos estudos revelam:  

O que a ciência diz sobre o uso de cannabis medicinal para depressão? 

A relação entre cannabis medicinal e depressão tem sido amplamente estudada nos últimos anos, tanto por cientistas, quanto por médicos que adotaram o óleo da planta como parte do processo terapêutico.  

Para traçar o panorama geral e tentar responder se a cannabis atrapalha ou ajuda no tratamento da depressão, listamos artigos publicados nos últimos dois anos que abordam a questão de pontos de vista diferentes.  

1. The Lancet Psychiatry (2026) 

 Lancet, uma das revistas mais respeitadas do mundo, publicou no começo de 2026 o resultado da análise de 54 ensaios clínicos conduzidos ao longo de 45 anos sobre a relação da cannabis com a depressão: 

  • não há evidências consistentes de eficácia da cannabis (CBD ou THC) para depressão, ansiedade ou TEPT; 
  • sinais positivos do uso da cannabis para o tratamento de insônia e tiques, porém com baixa evidência; 
  • risco de sintomas psicóticos, dependência e atraso no início de tratamentos convencionais. 

 2. JAMA Internal Medicine (2026) 

 Jama Internal Medicine divulgou um estudo onde avaliou o uso de medicamentos com CBD isolado ou THC/CBD combinados. Os resultados foram: 

  • evidência insuficiente para uso de produtos medicinais de cannabis no tratamento da depressão; 
  • THC, mesmo em formas medicinais, está associado a risco elevado de psicose e transtorno por uso de cannabis (CUD); 
  • recomenda-se evitar cannabis medicinal em adolescentes e pessoas com transtornos afetivos graves.

3. Frontiersin Public Health

Em 2024, a Frontiers in Public Health realizou uma investigação sobre o uso de cannabis medicinal em pacientes com depressão e transtorno bipolar. A pesquisa concluiu: 

  • pacientes que faziam uso terapêutico de cannabis apresentaram maior carga de sintomas depressivos e maníaco; 
  • o uso foi associado a pior evolução clínica e prognóstico.  

4. PsychologicalMedicine 

Psychological Medicine, decidiu analisar 22 estudos, muitos deles incluindo produtos derivados da cannabis, comparando usuários e não usuários durante os anos. No fim, a publicação demonstra: 

  • o uso (incluindo medicinal) aumentou em 29% o risco de desenvolver depressão futura; 
  • os maiores riscos foram observados em adolescentes, frequentemente usuários de cannabis medicinal para dor, insônia ou TEA. 

 5. CNS Drugs / Springer Nature 

Por fim, temos a revisão cientifica publicada pela CNS Drugs / Springer NatureO foco da pesquisa foi avaliar o uso de canabinoides medicinais, especialmente CBD e THC em formulações farmacêuticas e o impacto em transtornos mentais. Eles entenderam que:  

  • efeitos negativos estão mais associados ao THC, mesmo em preparações médicas controladas; 
  • CBD isolado apresenta sinais de possível utilidade em ansiedade, mas não há evidência clínica sólida de eficácia antidepressiva; 
  • variáveis como dose, produto, composição e idade influenciam fortemente o risco de piora clínica. 

O que dizem os especialistas em cannabis medicinal  

frasco com óleo de cbd

Remédios com CBD podem ser usados no tratamento de depressão

Estudos realizados por especialistas em cannabis medicinal como Michael Backes, María García-Gutiérrez e outros trazem um olhar diferente para da planta para o tratamento da depressão.  

De acordo com esses estudos, o uso de cannabis para depressão apresenta dois tipos de resultados, dependendo do princípio ativo usado na formulação do medicamento.   

Por exemplo, remédios à base de canabidiol (CBD), possuem ação antidepressiva rápida, demonstrando efeitos entre 30 minutos e sete dias, menos da metade dos antidepressivos comuns, que levam até dias para fazer efeito.   

A explicação para esse resultado satisfatório acorre porque o CBD aumenta a sinalização do BDNF e promove a sinaptogênese no córtex pré-frontal. Essa combinação auxilia na recuperação de conexões neurais perdidas pelo estresse crônico.  

Além disso, o CBD modula os níveis de serotonina, um neurotransmissor essencial para a regulação do humor. 

Se o canabidiol auxilia no tratamento, o THC tem a administração para depressão um pouco mais delicada. Se usado em doses baixas (entre 1mg e 5mg), a substância pode atuar na elevação do humor e alívio da depressão. 

Entretanto, se usado em doses altas, o THC pode apresentar efeito contrário e agravar quadros depressivos.  

Outros canabinoides e a depressão 

Estudo indicam que pacientes com depressão sofrem com baixos níveis de endocanabinoides naturais no sangue. Por conta disso, administrar suplementos com fitocanabinoides pode ajudar a restaurar a homeostase no organismo.  

Outros canabinoides como limoneno e o linalo, potencializam os efeitos dos fitocanabinoides, causando quadros de euforia e modulação da dopamina. Isso em falar do efeito ansiolítico, reduzindo a ansiedade 

Cannabis ajuda ou atrapalha no tratamento de depressão? 

Não há uma resposta consensual para essa pergunta. Hoje, o que podemos dizer é que a cannabis pode atrapalhar ou oferecer riscos, de acordo com alguns cenários. 

  • tratamento isolado: é considerado imprudente tratar o Transtorno Depressivo Maior (TDM) apenas com cannabis. A recomendação é ser usada como adjuvante em casos refratários aos antidepressivos convencionais;
  • transtorno bipolar: embora possa elevar o humor momentaneamente, o uso de cannabis em pacientes bipolares está associado a um pior prognóstico, com aumento na frequência e gravidade de episódios de mania;
  • ideação suicida: em casos graves, devem-se evitar medicamentos ricos no terpeno pineno, que pode provocar ansiedade;
  • histórico de psicose: pacientes com histórico pessoal ou familiar de psicose ou esquizofrenia devem evitar fórmulas com THC, pois o canabinoide pode desencadear ou agravar episódios psicóticos. 

Em resumo, a cannabis ajuda quando prescrita em doses controladas e formulações ricas em CBD, já que foca na modulação da neuroplasticidade. 

No entanto, quando a o medicamento possui altas doses de THC ou em quadros de predisposição a transtornos psicóticos e bipolares, a cannabis medicinal atrapalha. 
 

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Rodrigo Svrcek