Atraso da Anvisa na decisão sobre cultivo de cannabis pode gerar prejuízo de R$ 5 bilhões, afetar pacientes, empregos e a economia nacional.

Atraso da Anvisa pode gerar prejuízo de R$ 5 bilhões
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) solicitou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) mais seis meses para decidir se vai autorizar ou não o cultivo de cannabis para fins medicinais no Brasil. A medida, que representa mais um atraso em um debate que se arrasta há anos, pode custar caro ao país em termos econômicos, sociais e científicos.
De acordo com levantamento da consultoria Kaya Mind, a regulamentação poderia gerar 226 mil empregos e movimentar R$ 1,1 bilhão ao ano já nos primeiros anos, com potencial de alcançar R$ 4,9 bilhões anuais. O adiamento, portanto, não apenas posterga o acesso de pacientes a tratamentos mais acessíveis, como também trava a formação de uma cadeia produtiva nacional.
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Para Larissa Uchida, CEO da Expocannabis Brasil, maior feira do setor no país, o impacto é imediato:
“O impacto é direto porque, como a atual regulamentação atende somente ao setor medicinal, o adiamento atrasa o desenvolvimento de uma indústria nacional estruturada e a ampliação da oferta para os pacientes que precisam do tratamento. Para o setor produtivo, científico e econômico, o adiamento gera insegurança regulatória e afasta investidores que preferem países com marcos regulatórios mais estáveis na América do Sul, como Uruguai, Colômbia, Argentina e Paraguai. O Brasil, com todo seu potencial agrícola, perde tempo em consolidar uma cadeia nacional capaz de gerar empregos, reduzir custos logísticos e, principalmente, facilitar o desenvolvimento mais pesquisas.”
A fala de Uchida evidencia um ponto central: enquanto países vizinhos avançam em seus marcos regulatórios, o Brasil corre o risco de perder competitividade em um setor que une saúde, inovação e sustentabilidade.
Segundo Uchida, o Brasil já possui capacidade agrícola e científica para atender padrões internacionais, mas carece de uma regulamentação ampla e integrada:
“O que falta é uma regulamentação ampla e integrada. Hoje, o debate está concentrado no cultivo para fins medicinais e farmacêuticos, mas a cannabis é uma planta multissetorial, capaz de atender indústrias diversas: têxtil, alimentícia, cosmética, construção civil, energia e biocombustíveis. Uma regulamentação restrita ao medicinal perde a oportunidade de posicionar o Brasil como líder global em bioeconomia.”
O país domina boas práticas agrícolas, rastreabilidade e certificações exigidas por mercados como União Europeia e Canadá. O desafio, portanto, não é técnico, mas político e regulatório.
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Os ganhos de uma regulamentação ampla vão muito além da saúde. Uchida destaca:
“Os benefícios de uma regulamentação ampla vão muito além da saúde. A cannabis pode ser um vetor de desenvolvimento sustentável e transversal, impactando diretamente a sociedade e a economia: na saúde pública, ampliando o acesso a terapias seguras; na economia, criando um novo setor agrícola e industrial; na sustentabilidade, substituindo insumos poluentes; e na agenda internacional, alinhando-se a diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.”
Na prática, isso significa reduzir a dependência de medicamentos importados caros, gerar empregos qualificados e estimular a inovação em setores como moda, construção civil e biocombustíveis.
O Brasil reúne condições únicas para se tornar referência mundial no cultivo de cannabis. Clima favorável, terras férteis e tradição agrícola já colocam o país entre os maiores produtores de soja, milho e café. Essa expertise poderia ser facilmente adaptada para a cannabis, garantindo produção em larga escala, baixo custo e alta qualidade.
Além disso, o mercado interno, com mais de 200 milhões de habitantes, representa um dos maiores potenciais consumidores do mundo. A integração com o Sistema Único de Saúde (SUS) poderia ampliar ainda mais o acesso, tornando o Brasil um caso singular de política pública de saúde associada à inovação regulatória.
“O Brasil tem uma vantagem agrícola incomparável: clima favorável, terras férteis e uma tradição no agronegócio que já coloca o país como líder mundial em soja, milho e café. Isso nos dá potencial para produzir cannabis em larga escala, com baixo custo e alta qualidade. Outra peculiaridade é o tamanho do mercado interno. Com mais de 200 milhões de habitantes e uma crescente aceitação social da cannabis medicinal, temos um dos maiores potenciais consumidores do mundo.”
A Expocannabis Brasil, que chega à sua terceira edição em novembro, deve reforçar esse debate. O evento reúne especialistas, investidores, pacientes e representantes do poder público para discutir os rumos do setor. Para Uchida, a feira é um espaço estratégico para mostrar que a cannabis não é apenas uma pauta de saúde, mas uma solução transversal para a economia e a sustentabilidade.
O evento também funciona como vitrine para startups, laboratórios e agricultores interessados em explorar o potencial da planta. Em um cenário de indefinição regulatória, a feira se consolida como espaço de resistência e articulação.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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