Políticos e representantes do governo defenderam avanço da cannabis durante a abertura do Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal

Deputado Caio França na abertura do CBCM – Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal
A abertura do Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal reuniu nesta quinta-feira (21) parlamentares e representantes do governo federal em torno de um tema que, aos poucos, deixa de ocupar apenas o campo da saúde e passa a integrar discussões sobre agricultura, indústria, ciência e desenvolvimento econômico no Brasil.
Durante o evento, deputados e autoridades defenderam o avanço da regulamentação da cannabis medicinal, criticaram entraves ideológicos e destacaram o potencial do país para disputar protagonismo global na produção de cannabis e cânhamo industrial.
O deputado Bacelar afirmou que a atual política de drogas contribui diretamente para o encarceramento em massa no país. Segundo ele, o Brasil precisa construir um marco regulatório amplo para organizar políticas nacionais voltadas à cannabis medicinal.
“Imagine um país como o nosso, com a tradição agrícola que temos. Isso seria uma revolução no Brasil”, declarou.
O parlamentar também comentou a expectativa em torno da tramitação da PL 399, projeto que busca regulamentar o cultivo de cannabis para fins medicinais e industriais. Para Bacelar, existe número suficiente para derrubar recursos pendentes e encaminhar a proposta ao Senado, embora o cenário eleitoral possa dificultar negociações no curto prazo.
“É um momento de otimismo em função da pressão da sociedade que precisa desses medicamentos”, disse. “Nós vamos conseguir colocar o Brasil para disputar com a China o papel de líder global na produção deste material.”
O deputado estadual Caio França relembrou a tramitação da política paulista de fornecimento de cannabis medicinal pelo SUS e afirmou que enfrentou resistência desde a apresentação do projeto.
“O preconceito está próximo da ignorância. Quando liam meu projeto, pensavam que eu queria legalizar a maconha em São Paulo”, afirmou.
Leia também: Quem é Caio França, deputado responsável pela cannabis no SUS em São Paulo
Segundo ele, o programa paulista ainda possui limitações importantes. Embora o texto contemple medicamentos com THC, França afirma que as regras atuais impõem restrições que dificultam o acesso.
“Hoje temos 750 famílias acessando o protocolo. Mas é muito pouco. Dor crônica e autismo grau 3 poderiam estar incluídos”, disse.
O parlamentar também comparou o alcance do programa estadual com o trabalho realizado por associações de pacientes.
“Não faz sentido que associações tenham dezenas de milhares de pacientes atendidos e o estado de São Paulo não consiga atender nem mil pacientes.”
Já o ministro Paulo Teixeira classificou a cannabis medicinal como um tema de saúde pública e afirmou que o Brasil está atrasado por razões ideológicas.
“Esse é um tema fundamental por ser um direito de saúde pública. O Brasil está muito atrasado”, afirmou.
O ministro relembrou discussões realizadas ao lado do pesquisador Elisaldo Carlini e citou a tentativa de regulamentação da cannabis pela Anvisa antes da mudança na diretoria da agência durante o governo Bolsonaro.
Segundo ele, a regulamentação atual da Anvisa representou avanço, mas ainda possui limitações, principalmente em relação às restrições de THC.
“Nós não podemos discutir limites de THC porque é o médico quem tem que decidir, e não a lei”, declarou.
Paulo Teixeira também defendeu maior reconhecimento às associações de pacientes e sugeriu que o SUS reserve recursos específicos para apoiar essas entidades.
“As associações fazem um trabalho que nem o SUS faz”, afirmou.
Além disso, o ministro destacou a importância da Embrapa, das universidades e da pesquisa científica para o desenvolvimento do setor no país.
Leia também: Projetos de Lei de Cannabis além do PL 399
Ao longo do debate, os participantes demonstraram otimismo moderado em relação ao avanço da pauta no Congresso ainda este ano.
“A política é igual feijão, só funciona na pressão”, disse Paulo Teixeira ao comentar a possibilidade de votação do PL 399 no final do ano.
O ministro também afirmou que um eventual recorte específico para o cânhamo industrial poderia facilitar a tramitação política do tema.
Na mesma linha, Caio França defendeu que pré-candidatos passem a incluir a cannabis medicinal e o cânhamo em seus planos de governo para ampliar o debate público durante o período eleitoral.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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