Parceria visionária entre Cannect e FoliuMed projeta um futuro de evidências que podem “mudar como a medicina cuida das pessoas”.

A estratégia de Allan Paiotti para o futuro da cannabis
O mercado brasileiro de cannabis medicinal amadureceu rápido. Em poucos anos, saiu de um ambiente marcado pela escassez de produtos e desconhecimento médico para um setor com dezenas de marcas, novas regulamentações e milhares de pacientes em tratamento.
Mas, para algumas empresas do setor, o próximo passo já não está apenas em ampliar portfólio ou disputar preço. Está em construir ciência, acompanhamento clínico e protocolos terapêuticos mais sofisticados.
É justamente nesse contexto que surge a parceria entre a Cannect e a FoliuMed.
Mais do que um acordo comercial, a aproximação entre as duas empresas reflete uma transformação mais ampla do mercado brasileiro de cannabis medicinal — que começa a migrar da lógica do produto para a lógica do cuidado integrado.
Quando a Cannect foi criada, em meio à pandemia, a cannabis medicinal ainda ocupava um espaço relativamente pequeno no ecossistema da saúde brasileira. Mas, segundo Allan Paiotti, fundador da empresa, o problema que motivou a criação da plataforma nem sequer estava ligado inicialmente à cannabis.
A preocupação central era outra: o abandono do cuidado por pacientes crônicos.
Paiotti conta que, durante o período da pandemia, observou um fluxo constante de pacientes indo ao pronto-socorro por descompensações que poderiam ter sido evitadas com acompanhamento preventivo, adesão correta ao tratamento e monitoramento contínuo.
“Grande parte dos pacientes crônicos não se mantém conectada ao tratamento porque não tem ninguém acompanhando de fato”, afirma.
A partir dessa percepção, nasceu a ideia de criar um ecossistema capaz de conectar médicos, pacientes e ferramentas de acompanhamento contínuo. A proposta envolvia não apenas facilitar o acesso ao tratamento, mas também construir uma jornada de cuidado mais próxima e personalizada. A cannabis medicinal entrou nesse processo como uma oportunidade natural.
Nos primeiros anos de operação, a Cannect encontrou um obstáculo que ainda acompanha o setor até hoje: a falta de educação médica estruturada sobre terapia canabinoide.
Segundo Paiotti, o mercado brasileiro ainda era extremamente novo em 2021, e poucos profissionais tinham segurança para prescrever.
Isso acontece porque a cannabis medicinal apresenta um grau de complexidade diferente de medicamentos tradicionais. Enquanto remédios convencionais seguem protocolos mais padronizados, os tratamentos com canabinoides dependem de respostas muito individualizadas.
“A planta é complexa. Existem mais de 400 canabinoides”, explica.
Além disso, fatores genéticos influenciam diretamente na resposta terapêutica do paciente. Isso exige monitoramento próximo, ajustes frequentes e acompanhamento clínico contínuo.
Foi nesse contexto que a Cannect passou a estruturar soluções mais integradas, como equipes de enfermagem e acompanhamento ativo de pacientes ao longo da evolução terapêutica.
Para Paiotti, parte da resistência médica em relação ao THC não está necessariamente ligada a preconceito ideológico, mas à complexidade operacional da molécula.
O executivo afirma que o THC exige acompanhamento mais cuidadoso, principalmente em pacientes com predisposição genética a condições como depressão ou dependência.
“Não é uma questão de medo. É usar conhecimento, ciência e medicina a favor da necessidade individual de cada paciente”, diz.
Essa visão ajuda a entender por que a Cannect passou a investir em ferramentas de acompanhamento clínico e até testes genéticos voltados à personalização terapêutica.
Segundo ele, o desafio atual da cannabis medicinal não é apenas ampliar acesso, mas desenvolver inteligência clínica capaz de individualizar tratamentos.
Leia também: Oliver Zügel: “A cannabis precisa virar medicina”
Nos últimos anos, o mercado brasileiro de cannabis medicinal foi inundado por novas marcas, especialmente após as regulamentações da Anvisa que facilitaram a importação e comercialização de produtos.
Agora, porém, o setor começa a entrar em uma nova fase.
Para Paiotti, muitos produtos disponíveis hoje se tornaram semelhantes entre si. Com isso, a diferenciação começa a migrar para critérios como qualidade farmacêutica, padronização, rastreabilidade e geração de evidência clínica.
É justamente nesse ponto que a FoliuMed chamou atenção da Cannect.
Segundo o fundador da plataforma, a empresa alemã não chegou ao Brasil apenas com uma proposta comercial baseada em preço ou expansão rápida de mercado.
A aposta da FoliuMed estaria na produção de ciência clínica, desenvolvimento de protocolos e acompanhamento estruturado de pacientes.
“Em vez de simplesmente entrar no mercado com preços competitivos, eles vieram com a proposta de produzir ciência, gerar evidência clínica e acompanhar pacientes dentro de protocolos estruturados”, afirma.
Leia também: Cannect e FoliuMed se unem para mais evidências científicas
A parceria entre Cannect e FoliuMed também revela uma mudança importante no próprio posicionamento da cannabis medicinal dentro da saúde.
Cada vez mais, o tratamento deixa de ser apresentado apenas como um produto isolado e passa a integrar estratégias terapêuticas mais amplas, combinadas com acompanhamento multidisciplinar e protocolos personalizados.
Para Paiotti, essa mudança representa um novo estágio de maturidade do setor.
Hoje, embora o Brasil tenha mais de 600 mil médicos registrados, apenas uma pequena parcela já prescreveu cannabis medicinal. A expectativa da Cannect é que a expansão da educação médica acelere a consolidação da terapia nos próximos anos.
Ao mesmo tempo, ele acredita que o mercado deve caminhar para tratamentos cada vez mais sofisticados, envolvendo combinações de diferentes canabinoides e abordagens integradas de cuidado.
“Hoje falamos muito de CBD e THC. Mas existem centenas de outros canabinoides sendo estudados”, afirma.
Nesse cenário, a parceria com a FoliuMed surge menos como um movimento isolado e mais como um retrato de para onde o mercado brasileiro de cannabis medicinal parece estar caminhando: menos foco em commodity e mais atenção à ciência, rastreabilidade e acompanhamento clínico.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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