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A estratégia de Allan Paiotti para o futuro da cannabis



04/06/2026


Parceria visionária entre Cannect e FoliuMed projeta um futuro de evidências que podem “mudar como a medicina cuida das pessoas”.

A estratégia de Allan Paiotti para o futuro da cannabis

A estratégia de Allan Paiotti para o futuro da cannabis

O mercado brasileiro de cannabis medicinal amadureceu rápido. Em poucos anos, saiu de um ambiente marcado pela escassez de produtos e desconhecimento médico para um setor com dezenas de marcas, novas regulamentações e milhares de pacientes em tratamento. 

Mas, para algumas empresas do setor, o próximo passo já não está apenas em ampliar portfólio ou disputar preço. Está em construir ciência, acompanhamento clínico e protocolos terapêuticos mais sofisticados. 

É justamente nesse contexto que surge a parceria entre a Cannect e a FoliuMed. 

Mais do que um acordo comercial, a aproximação entre as duas empresas reflete uma transformação mais ampla do mercado brasileiro de cannabis medicinal — que começa a migrar da lógica do produto para a lógica do cuidado integrado. 

A origem da Cannect: o problema nunca foi apenas acesso 

Quando a Cannect foi criada, em meio à pandemia, a cannabis medicinal ainda ocupava um espaço relativamente pequeno no ecossistema da saúde brasileira. Mas, segundo Allan Paiotti, fundador da empresa, o problema que motivou a criação da plataforma nem sequer estava ligado inicialmente à cannabis. 

A preocupação central era outra: o abandono do cuidado por pacientes crônicos. 

Paiotti conta que, durante o período da pandemia, observou um fluxo constante de pacientes indo ao pronto-socorro por descompensações que poderiam ter sido evitadas com acompanhamento preventivo, adesão correta ao tratamento e monitoramento contínuo. 

“Grande parte dos pacientes crônicos não se mantém conectada ao tratamento porque não tem ninguém acompanhando de fato”, afirma. 

A partir dessa percepção, nasceu a ideia de criar um ecossistema capaz de conectar médicos, pacientes e ferramentas de acompanhamento contínuo. A proposta envolvia não apenas facilitar o acesso ao tratamento, mas também construir uma jornada de cuidado mais próxima e personalizada. A cannabis medicinal entrou nesse processo como uma oportunidade natural. 

O gargalo da cannabis medicinal estava na formação médica 

Nos primeiros anos de operação, a Cannect encontrou um obstáculo que ainda acompanha o setor até hoje: a falta de educação médica estruturada sobre terapia canabinoide. 

Segundo Paiotti, o mercado brasileiro ainda era extremamente novo em 2021, e poucos profissionais tinham segurança para prescrever. 

Isso acontece porque a cannabis medicinal apresenta um grau de complexidade diferente de medicamentos tradicionais. Enquanto remédios convencionais seguem protocolos mais padronizados, os tratamentos com canabinoides dependem de respostas muito individualizadas. 

“A planta é complexa. Existem mais de 400 canabinoides”, explica. 

Além disso, fatores genéticos influenciam diretamente na resposta terapêutica do paciente. Isso exige monitoramento próximo, ajustes frequentes e acompanhamento clínico contínuo. 

Foi nesse contexto que a Cannect passou a estruturar soluções mais integradas, como equipes de enfermagem e acompanhamento ativo de pacientes ao longo da evolução terapêutica. 

O THC e a mudança de mentalidade na medicina 

Para Paiotti, parte da resistência médica em relação ao THC não está necessariamente ligada a preconceito ideológico, mas à complexidade operacional da molécula. 

O executivo afirma que o THC exige acompanhamento mais cuidadoso, principalmente em pacientes com predisposição genética a condições como depressão ou dependência. 

“Não é uma questão de medo. É usar conhecimento, ciência e medicina a favor da necessidade individual de cada paciente”, diz. 

Essa visão ajuda a entender por que a Cannect passou a investir em ferramentas de acompanhamento clínico e até testes genéticos voltados à personalização terapêutica. 

Segundo ele, o desafio atual da cannabis medicinal não é apenas ampliar acesso, mas desenvolver inteligência clínica capaz de individualizar tratamentos. 

Leia também: Oliver Zügel: “A cannabis precisa virar medicina”

Da guerra de preços à corrida por evidência científica 

Nos últimos anos, o mercado brasileiro de cannabis medicinal foi inundado por novas marcas, especialmente após as regulamentações da Anvisa que facilitaram a importação e comercialização de produtos. 

Agora, porém, o setor começa a entrar em uma nova fase. 

Para Paiotti, muitos produtos disponíveis hoje se tornaram semelhantes entre si. Com isso, a diferenciação começa a migrar para critérios como qualidade farmacêutica, padronização, rastreabilidade e geração de evidência clínica. 

É justamente nesse ponto que a FoliuMed chamou atenção da Cannect. 

Segundo o fundador da plataforma, a empresa alemã não chegou ao Brasil apenas com uma proposta comercial baseada em preço ou expansão rápida de mercado. 

A aposta da FoliuMed estaria na produção de ciência clínica, desenvolvimento de protocolos e acompanhamento estruturado de pacientes. 

“Em vez de simplesmente entrar no mercado com preços competitivos, eles vieram com a proposta de produzir ciência, gerar evidência clínica e acompanhar pacientes dentro de protocolos estruturados”, afirma. 

Leia também: Cannect e FoliuMed se unem para mais evidências científicas

Um novo estágio para a cannabis medicinal no Brasil 

A parceria entre Cannect e FoliuMed também revela uma mudança importante no próprio posicionamento da cannabis medicinal dentro da saúde. 

Cada vez mais, o tratamento deixa de ser apresentado apenas como um produto isolado e passa a integrar estratégias terapêuticas mais amplas, combinadas com acompanhamento multidisciplinar e protocolos personalizados. 

Para Paiotti, essa mudança representa um novo estágio de maturidade do setor. 

Hoje, embora o Brasil tenha mais de 600 mil médicos registrados, apenas uma pequena parcela já prescreveu cannabis medicinal. A expectativa da Cannect é que a expansão da educação médica acelere a consolidação da terapia nos próximos anos. 

Ao mesmo tempo, ele acredita que o mercado deve caminhar para tratamentos cada vez mais sofisticados, envolvendo combinações de diferentes canabinoides e abordagens integradas de cuidado. 

“Hoje falamos muito de CBD e THC. Mas existem centenas de outros canabinoides sendo estudados”, afirma. 

Nesse cenário, a parceria com a FoliuMed surge menos como um movimento isolado e mais como um retrato de para onde o mercado brasileiro de cannabis medicinal parece estar caminhando: menos foco em commodity e mais atenção à ciência, rastreabilidade e acompanhamento clínico.

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Lucas Panoni

Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.