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Doce e amargo: o que o Nobel de Literatura diz sobre a cannabis 



09/10/2026


O glykypikron de Safo por Anne Carson, Nobel de Literatura de 2026 é a melhor imagem para o efeito bifásico dos canabinoides

Doce e amargo: o que o Nobel de Literatura diz sobre a cannabis 

Doce e amargo: o que o Nobel de Literatura diz sobre a cannabis

Na segunda-feira, 5 de outubro, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska concedeu o Nobel de Medicina a  Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel por descobertas que levaram ao desenvolvimento da optogenética: usar luz para ligar e desligar neurônios específicos, com precisão de milissegundos. 

Três dias depois, a Academia Sueca deu o Nobel de Literatura a Anne Carson. O motivo, segundo a Academia, foi uma obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea. 

Uma descoberta permite iluminar circuitos neuronais. A outra reacende palavras de 2.600 anos. Parecem conversas distintas. Não são. 

Quem é Anne Carson 

Canadense, nascida em Toronto em 1950, Carson é classicista de formação e lecionou em Princeton, McGill, Michigan e NYU. Traduziu Safo, Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Escreve livros que se recusam a caber num gênero só: ensaio, verso, tragédia, libreto e quadrinho, eventualmente na mesma obra. 

Anne Carson

Anne Carson. Foto: Pontus Lundahl/AP

Seu primeiro livro, de 1986, nasceu da tese de doutorado e se chama Eros the Bittersweet. É nele que está a ponte com a cannabis. 

Glykypikron: doce e amargo ao mesmo tempo 

Num fragmento de Safo, poeta grega do século VII a.C., Eros é chamado de glykypikron. A palavra junta doce (glykys) e amargo (pikros) num único termo. 

Carson parte de um detalhe que tradutores costumam desfazer: Safo diz “doceamargo”, não “agridoce”. A ordem importa, porque o doce vem primeiro. E o ponto central é que não se trata de prazer seguido de dor, mas de prazer e dor na mesma experiência, inseparáveis. 

Sir Lawrence Alma Tadema, R.A., O.M. Sappho and Alcaeus Google Art Project

Safo admirando o poeta Alceu de Mitilene. Imagem: Domínio Público

Há um segundo movimento no livro. Para Carson, o desejo tem sempre três pontos: quem deseja, quem é desejado e aquilo que se interpõe entre os dois. Tire o terceiro ponto e o desejo desaparece. Em outras palavras, ela descreve o eros como um circuito e não como uma substância. 

O doce e amargo da farmacologia 

Quem prescreve cannabis conhece o glykypikron na prática: a mesma molécula que acalma pode angustiar. O fenômeno tem nome, efeito e está documentado em humanos. 

Num ensaio randomizado e duplo-cego da Universidade de Chicago, 42 voluntários saudáveis receberam placebo, 7,5 mg ou 12,5 mg de THC oral antes de um teste padronizado de estresse social. A dose menor reduziu o desconforto relatado após o teste. A maior aumentou o humor negativo antes e durante a tarefa [1]. 

O mecanismo começa a ser entendido e ele é de circuito. Em camundongos, o efeito ansiolítico da dose baixa de um agonista CB1 dependeu dos receptores em terminais glutamatérgicos corticais. O efeito ansiogênico da dose alta dependeu dos receptores em terminais GABAérgicos [2]. Mesmo receptor, neurônios diferentes, sinais opostos. 

O doce e o amargo não estão na molécula. Estão no lugar onde ela age. 

A palavra e o receptor 

Carson passou a carreira traduzindo fragmentos e textos em que falta quase tudo. Em “If Not, Winter”, sua tradução de Safo, ela marca com colchetes o que o papiro perdeu. A lacuna vira parte do sentido. Uma palavra isolada diz pouco, mas o quê a cerca decide o que ela significa. 

A optogenética levou a neurociência à mesma conclusão. Ao permitir ativar ou silenciar um tipo de neurônio por vez, ela mostrou que perguntar “o que faz o CB1?” é incompleto. A pergunta certa é: o CB1 em qual circuito, em qual terminal, em que momento? 

O sistema endocanabinoide funciona como uma gramática. Os endocanabinoides são produzidos no neurônio pós-sináptico e viajam de volta ao terminal pré-sináptico para modular a liberação de neurotransmissores. É uma sinalização retrógrada, que só faz sentido dentro da frase em que aparece. 

Carson recusa gêneros fixos para seus livros. O receptor recusa uma função fixa. Os dois Nobel desta semana dizem a mesma coisa por caminhos opostos: o contexto decide. 

Uma ressalva necessária 

Nenhum dos dois prêmios tem relação com cannabis. O Nobel de Medicina não premiou pesquisa canabinoide, tampouco Anne Carson escreveu sobre o tema. Um poema de Safo não prova nada sobre o receptor CB1. 

O que proponho aqui é uma analogia: uma forma de pensar, não uma evidência. Os dados citados aqui vêm de um ensaio pequeno, com voluntários saudáveis, e de um estudo em animais

O doceamargo da boa prescrição 

Talvez a melhor definição de uma prescrição com fitocanabinoides bem feita esteja numa palavra grega com 2.600 anos. Toda molécula ativa no sistema endocanabinoide carrega o doce e o amargo ao mesmo tempo. O trabalho do médico é encontrar o contexto (a dose, a via, o perfil, o momento) em que o doce vem primeiro. 

Safo sabia disso sem receptores. Carson nos devolveu a palavra. A optogenética, agora, nos dá a luz para ver onde ela acontece. 

Referências 

  1. Childs E, Lutz JA, de Wit H. Dose related effects of delta 9 THC on emotional responses to acute psychosocial stress. Drug Alcohol Depend. 2017;177:136–44. doi:10.1016/j.drugalcdep.2017.03.030 
  1. Rey AA, Purrio M, Viveros MP, Lutz B. Biphasic effects of cannabinoids in anxiety responses: CB1 and GABA(B) receptors in the balance of GABAergic and glutamatergic neurotransmission. Neuropsychopharmacology. 2012;37(12):2624–34. doi:10.1038/npp.2012.123 
  1. Carson A. Eros the Bittersweet. Princeton (NJ): Princeton University Press; 1986. 
  1. Carson A, tradutora. If Not, Winter: Fragments of Sappho. New York: Alfred A. Knopf; 2002. 
  1. Nobel Assembly at Karolinska Institutet. The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2026: press release [Internet]. Estocolmo: NobelPrize.org; 2026 out 5 [citado 2026 out 9]. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2026/press-release/ 

 

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Dr. Guilherme Marques

Dr. Guilherme Marques é diretor médico da Cannect e aprofunda suas percepções sobre a relação entre a cannabis e a sociedade na Cannalize.