Análise arqueológica inédita mostra que a planta era amplamente utilizada para alimentação e fibras no período Neolítico

Desenhos rupestres ilustram o período neolítico. Imagem: Envato
A cannabis teve um papel muito mais relevante nas sociedades antigas do que se imaginava. Agora, um estudo arqueológico publicado na ScienceDirect mostra que comunidades do norte da China cultivavam a planta como um dos pilares da vida cotidiana durante o período Neolítico.
Além disso, os pesquisadores deram um passo importante ao identificar, pela primeira vez, parâmetros morfológicos específicos de fitólitos de cannabis — microvestígios vegetais preservados no solo por milhares de anos.
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Os fitólitos funcionam como uma espécie de “impressão digital” das plantas. Eles se formam a partir da sílica presente nos tecidos vegetais e permanecem no solo mesmo após a decomposição.
No entanto, cientistas sempre enfrentaram dificuldades para identificar fitólitos de cannabis com precisão. Isso acontece porque suas estruturas se parecem com as de outras espécies.
Agora, com critérios morfológicos mais claros, os pesquisadores conseguem diferenciar esses vestígios com mais segurança. Como resultado, a arqueologia ganha uma ferramenta mais confiável para rastrear o uso da cannabis ao longo da história.
No início do Neolítico, as evidências mostram uma presença mais dispersa da cannabis. Com o passar do tempo, porém, esse cenário mudou.
Ao final do período, comunidades do norte da China passaram a cultivar a planta de forma sistemática. Assim, a cannabis deixou de ocupar um papel secundário e se consolidou como uma cultura central.
Principalmente, essas populações utilizavam a planta para:
Portanto, a cannabis não apenas estava presente — ela sustentava parte importante da economia doméstica.
Outro ponto fortalece ainda mais essa conclusão. Os pesquisadores encontraram fitólitos em áreas diretamente ligadas ao dia a dia das famílias.
Por exemplo, os vestígios aparecem em:
Dessa forma, o estudo afasta a ideia de um uso restrito ou ocasional. Em vez disso, os dados indicam que a cannabis fazia parte da rotina dessas comunidades.
Durante anos, muitos estudos associaram a cannabis principalmente a práticas rituais ou medicinais. No entanto, essa nova evidência muda o foco.
Agora, os dados apontam para um uso prático, contínuo e integrado à vida econômica. Ou seja, a planta funcionava como um recurso estratégico — não apenas simbólico.
Além disso, a dificuldade em identificar vestígios ao longo do tempo ajudou a distorcer essa percepção. Com técnicas mais avançadas, esse cenário começa a se corrigir.
Hoje, a cannabis volta ao centro das discussões globais. Seja pelo uso medicinal, seja pelo potencial industrial, a planta recupera espaço em diferentes setores.
Nesse contexto, o estudo oferece um insight importante: esse protagonismo não é exatamente novo. Na prática, ele retoma uma função que a cannabis já desempenhava há milhares de anos.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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