Dor, fadiga e névoa mental: como a cannabis pode ajudar pacientes com fibromialgia a recuperar equilíbrio e qualidade de vida.

É um desafio diário de conviver com um desconforto que os exames não mostram (e que muita gente não entende).
A fibromialgia é um transtorno caracterizado por dor generalizada, fadiga extrema, distúrbios do sono e alterações de humor. Para quem vive essa realidade, a própria pele às vezes parece pesar, e a dor se torna uma companhia indesejada, constante e silenciosa.
O que acontece é a exaustão silenciosa de acordar já cansado, a frustração de precisar cancelar planos em dias ruins e o desafio diário de conviver com um desconforto que os exames não mostram (e que muita gente não entende). Para quem vive essa realidade, o maior desejo é recuperar a autonomia e a energia para viver um dia comum sem que o próprio corpo seja um obstáculo.
Em um cenário onde tratamentos convencionais (como analgésicos, antidepressivos e fisioterapia) muitas vezes trazem alívios breves ou efeitos colaterais pesados, a natureza nos oferece uma sabedoria antiga e uma ferramenta terapêutica fundamentada na ciência.
A cannabis não vem como uma resposta mágica, mas sim, como uma regulação para nosso maestro interno: O Sistema Endocanabinoide, que coordena o equilíbrio do humor, apetite, sono e dor. Os compostos ativos da cannabis (como o CBD e o THC) entram no jogo para conduzir e orientar esse sistema.
Embora a cannabis não seja uma cura, estudos e relatos clínicos mostram que ela pode atuar nos principais sintomas da fibromialgia.
A dor da fibromialgia não decorre de uma lesão física visível, mas de uma falha na forma como o sistema nervoso processa os estímulos. É o que a medicina chama de Sensibilização Central.
Os fitocanabinoides (canabinoides da planta) possuem fortes propriedades analgésicas e anti-inflamatórias, ajudando a modular a forma como o sistema nervoso central processa os sinais de dor, lidando com estes antes que sobrecarreguem o cérebro.
O efeito relaxante ajuda a diminuir os espasmos e a tensão muscular frequentes nos pacientes. Uma frase comum aos pacientes é: “A dor pode estar até presente, mas não me incomoda mais”.
Além do corpo, a fibromialgia também afeta a mente. A chamada fibrofog (ou névoa mental) é um sintoma caracterizado por falhas de memória recente, dificuldade de concentração e raciocínio lento.
Ele ocorre porque o cérebro, constantemente bombardeado por alertas de dor e privado de sono profundo, entra em fadiga, frequentemente acompanhada de neuroinflamação.
Aqui, os compostos da cannabis agem com suas propriedades neuroprotetoras e anti-inflamatórias. Ao reduzir a inflamação do sistema nervoso e garantir um sono reparador, a cannabis ajuda a dissipar essa névoa. Certas cepas e formulações (especialmente as que contêm THC e CBN) ajudam a induzir o sono e a melhorar a qualidade do descanso profundo.
Já o CBD, tem demonstrado efeitos ansiolíticos, ajudando a lidar com o peso emocional de viver com dor crônica.
Enfim, a mente, finalmente descansada e sem precisar gastar toda a sua energia lidando com a dor, recupera a clareza para focar no presente.
Leia também: Lula sanciona lei e transforma fibromialgia em PCD
O tratamento é altamente individualizado: a dosagem, a proporção entre CBD e THC e a via de administração variam de acordo com as necessidades de cada paciente.
Por isso, o acompanhamento por um médico prescritor capacitado em medicina endocanabinoide é fundamental para garantir a segurança, ajustar as doses corretamente e minimizar possíveis efeitos adversos.
Raíssa Ximenes
Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis
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