Hoje advogado, Maurício lembra de como a maconha ajudou na garantia mais qualidade de vida ao seu pai durante os últimos anos de vida

A maconha ajudou o meu pai na reta final da sua vida
Foto: Arquivo Pessoal
Apesar de ter o mesmo nome do pai, por décadas, Maurício Barroso Junior viveu com uma imagem fragmentada, marcada por preconceitos e ausência. O reencontro com o pai depois de adulto, trouxe mudanças não só sentimentais, mas de vários conceitos, como a maconha, por exemplo.
O filho cresceu afastado do pai, que era conhecido como “o mala” e vivia à margem dos padrões sociais impostos pela família materna. Na época, Maurício Pai, mais conhecido como “Denissal”, fumava maconha, além de outros psicotrópicos. A relação com a sua mãe foi interrompida por imposições familiares e preconceitos raciais e sociais.
“Minha avó impôs que os vínculos com a família Barroso seriam desfeitos”, diz Maurício, que só voltou a conviver com o pai na juventude, após entrar na Universidade de Brasília.
Foi depois de adulto que Maurício foi buscar mais informações sobre o pai. Reencontro que rendeu uma aproximação que nunca teve. A realidade do seu pai também era outra, o que trouxe um choque de realidade que até então não tinha conhecido. “Meu pai me mostrou outros valores, do coletivo, do amor, da fraternidade”, afirma.
Mas foi durante a luta contra o câncer que essa relação se intensificou ainda mais. Primeiro, Denissal já enfrentava uma hepatite C desde 1998. Infelizmente a infecção no fígado se tornou crônica e depois, as coisas só pioraram.
Não demorou muito para aparecer um câncer no reto que evoluiu para metástase. O tratamento com morfina, embora necessário, causava efeitos colaterais e não resolvia o problema da dor. “Ele gritava de dor. Também começou a perder peso, vomitava tudo que comia”, relata.
Foi então que surgiu a ideia de utilizar a cannabis para ajudar na ganha de peso. Vendo o pai fumar, Maurício já havia percebido que a maconha dava fome, ou a famosa “larica”.
Quando a maconha é ingerida, o THC (tetrahidrocanabinol), principal canabinoide que gera os efeitos psicoativos da planta, se conecta com os receptores do sistema nervoso central que controlam a fome e o apetite.
Isso confunde o cérebro, ele não entende que já estamos satisfeitos e a fome vem mesmo quando se acaba de comer. O canabinoide também pode desencadear um surto de um hormônio chamado grelina, mais conhecido como hormônio da fome.
A família de Denissal percebeu que a cannabis não só ajudava no apetite, mas também na melhora da dor. Além de ajudar no apetite, a cannabis é cada vez mais estudada por suas propriedades analgésicas.
Os efeitos foram transformadores. “Ele ficou mais relaxado. As dores aconteciam, mas em menor grau. Os vômitos também diminuíram e ele começou a comer mais”, descreve. “Ficava mais conciliável, mais de boa, mais gordinho.”
Segundo a colunista da Cannalize, Dra. Raíssa Ximenes, o uso da cannabis para dor é eficiente porque age de forma multifatorial. “Em vez de apenas bloquear o sinal da dor, os canabinoides atuam em todas as suas vias, influenciando a transmissão, a modulação e até a percepção do estímulo doloroso no cérebro,” explica.
Evidências já têm demonstrado que a cannabis ajuda a aliviar a dor em pacientes com câncer, inclusive que não respondem a analgésicos tradicionais.

‘A maconha ajudou o meu pai na reta final da sua vida’ Foto: Arquivo Pessoal
Como por exemplo, um estudo observacional feito em Harvard, que associou o uso da cannabis a uma melhora na dor, no sono e também na função cognitiva dos pacientes. Outras duas pesquisas, uma feita em Israel e a outra no Canadá, também chegaram à mesma conclusão.
Maurício destaca que, embora o tratamento não tenha revertido o quadro clínico, trouxe dignidade e conforto nos últimos meses de vida. “Do ponto de vista de saúde, a gente deu muita qualidade de vida a ele.”
Infelizmente Maurício Pai faleceu no dia 1º de julho de 2018, aos 62 anos. A experiência vivida impulsionou Maurício a se tornar advogado e ativista da causa canábica.
“A maconha afastou meus pais, mas também ajudou meu pai na reta final da vida dele”, afirma. Hoje, ele luta por regulamentações mais justas e pelo fim do preconceito que ainda cerca a planta. “Não é possível que a gente venha à Terra só pra pensar na gente”, conclui.
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Tainara Cavalcante
Jornalista pela Fapcom (Faculdade Paulus de Comunicação) e pós graduada na FAAP (Fundação Armando Alves Penteado) em Jornalismo Digital, atua como produtora de conteúdo no Cannalize, Dr. Cannabis e Cannect. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.
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