Pesquisador da UFSC defende o uso de THC em animais e diz que o Brasil virou referência mundial na cannabis veterinária

Erik Amazonas em entrevista à Cannalize
O Brasil se tornou um dos países que mais avançam no uso de cannabis medicinal para animais. A prescrição veterinária foi liberada em 2024, mas, na prática, a maior parte dos tratamentos ainda depende de extratos fornecidos por associações. Quem afirma isso é o professor Erik Amazonas, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma das principais autoridades no assunto.
Pesquisador há quase uma década, Erik coordena o PODICAN, polo de inovação da UFSC que lidera estudos com cannabis veterinária no país. Ele também é coautor do primeiro livro internacional sobre o tema, publicado pela editora Nature.
Em 2022, a UFSC obteve um habeas corpus que autorizou o cultivo e o uso acadêmico da cannabis. Com isso, nasceu o PODICAN, que hoje coordena estudos clínicos em animais de diversas espécies e melhoramento genético vegetal.

Pesquisadores da UFSC com plantas de cannabis, Erik Amazonas ao centro. Foto: Arquivo pessoal
“Conseguir cultivar legalmente abriu um novo ciclo para a ciência veterinária no Brasil”, defende Erik, listando as principais pesquisas desenvolvidas no campus da UFSC.
Cães
Uso de óleo com CBD reduziu 25% da dose de anestésico em cirurgias, aumentando a segurança do procedimento.
Gatos
Gatos medicados com óleo sublingual mostraram redução de estresse agudo durante visitas clínicas.
Cavalos
Estudo inédito com cavalos testa um óleo com altíssima concentração de THC para avaliar sua segurança em animais de grande porte.
Lontras
Lontras silvestres apresentaram melhora em quadros de autoagressão e estereotipias após tratamento com extrato de cannabis.
Além disso, o polo também desenvolve um banco de germoplasma com foco no melhoramento genético da cannabis adaptada ao clima do Sul do Brasil.
“Estamos fazendo o que ninguém teve coragem ainda: testar a segurança do THC em cavalos com método científico.”

Erik Amazonas em entrevista à Cannalize
Leia também: THC para animais: especialistas divergem no uso veterinário
Erik defende o uso de extratos de espectro completo, que contêm canabinoides como o THC, mesmo em pequenas quantidades. Para ele, produtos isolados (como o CBD puro) são menos eficazes, menos tolerados pelos animais e muito mais caros.
“Biologicamente, usar CBD isolado só faz sentido por não ter acesso ao outro.”
Segundo ele, enquanto veterinários de outros países relatam efeitos adversos nos primeiros dias de tratamento com CBD isolado, por outro lado, os profissionais brasileiros — que geralmente utilizam extratos artesanais contendo THC — tendem a observar uma adaptação mais tranquila.
“O Brasil está ensinando ao mundo como usar a cannabis em animais.”
Embora a Anvisa tenha liberado a prescrição, ela restringiu os medicamentos aos que estão listados na RDC 327/2019. Isso exclui os extratos fornecidos por associações, que seguem sendo o principal canal de acesso para tutores.
“Ninguém dá acesso mais rápido, fácil e prático no Brasil hoje do que as associações de pacientes.”
“Tirar o THC da jogada é muito mais prejudicial para o setor do que o contrário.”
Erik defende que as associações sejam reconhecidas pela regulação, sem a necessidade de se tornarem indústrias.
Apesar das dificuldades, o professor vê com otimismo o futuro da cannabis na medicina veterinária. Segundo ele, o Brasil desenvolveu uma prática própria, baseada em evidências e necessidades reais.
“Estamos fazendo ciência de verdade com os recursos que temos. Isso é mais valioso do que repetir protocolos prontos.”
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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