Velha Guarda da Vai-Vai usa lenços de cânhamo nos ensaios e amplia debate sobre sustentabilidade e cannabis no Carnaval de SP.

Vai Vai leva cânhamo para o Carnaval de SP. Foto: Amanda Fontes (Sechat)
A tradição do samba encontrou a inovação têxtil nos ensaios do Carnaval de São Paulo. A Vai-Vai firmou parceria com a Sechat e a Ayraa para apresentar a mensagem “Vai de Cânhamo” durante atividades pré-Carnaval, reforçando o diálogo entre cultura popular, sustentabilidade e informação qualificada sobre a planta.
A ação acontece nos ensaios técnicos e de quadra, mas não integra o desfile oficial na avenida. Ainda assim, carrega um simbolismo relevante: aproximar o debate sobre o cânhamo industrial de um dos maiores símbolos culturais do país.
Os integrantes da Velha Guarda da escola passaram a utilizar lenços confeccionados com tecido de cânhamo durante os ensaios no Sambódromo do Anhembi e em outras atividades preparatórias.
A proposta busca valorizar o cânhamo como fibra ancestral, destacar seu potencial na indústria têxtil sustentável e contribuir para a superação de preconceitos históricos associados à cannabis.
O CEO da Ayraa, Marcelo Sertório Fernandes, destacou que o Carnaval funciona como vitrine global:
“Levar o cânhamo para a maior festa do mundo é um marco importante. É mais um passo para recolocar o cânhamo como protagonista entre as fibras naturais.”
O cânhamo é uma variedade da cannabis com baixo teor de THC, sem efeito psicoativo, amplamente utilizada na produção de tecidos, cordas, papel e outros insumos industriais. Internacionalmente, a fibra é reconhecida por sua resistência, durabilidade e menor impacto ambiental em comparação com materiais sintéticos.
Leia também: O que é hemp? Diferenças entre cânhamo e maconha
O tema dialoga com pilares históricos da própria Vai-Vai: resistência cultural, representatividade e inovação.
Assim como o samba enfrentou marginalização antes de se consolidar como patrimônio cultural brasileiro, o cânhamo também carrega uma trajetória marcada por estigmas — muitos deles associados à política proibicionista do século XX.
Para o neurocirurgião Pedro Pierro, diretor científico da Sechat, a planta precisa ser compreendida para além do uso medicinal.
“Nada melhor do que uma festa popular como o Carnaval para mostrar que a cannabis não é apenas social nem somente medicinal — ela é muito mais do que isso.”
Segundo ele, ampliar essa discussão dentro de um símbolo cultural de grande alcance é uma estratégia para tornar a informação mais acessível e democrática.
A parceria vai além da presença simbólica nos ensaios. Pedro Pierro e a farmacêutica Margarete Akemi Kishi devem realizar palestras e seminários voltados à conscientização sobre o uso medicinal da cannabis, convidando representantes da comunidade do samba e escolas coirmãs.
A proposta é levar conhecimento técnico e científico, contribuindo para reduzir estigmas e ampliar o debate responsável sobre cannabis medicinal e cânhamo industrial.
Entre os nomes envolvidos está Júlia Bernard Ribeiro, conhecida como Bepa, vice-presidente da Velha Guarda da Vai-Vai. Aos 69 anos, ela representa a conexão entre tradição e transformação social.
“O samba sempre foi resistência. Se é para falar de algo que ajuda o planeta e ainda carrega história, o samba também pode levantar essa bandeira.”
Para ela, sustentabilidade também é expressão cultural.
“A Vai-Vai sempre esteve ligada às transformações da sociedade. A gente canta o que vive, o que sente e o que acredita.”
Mesmo sem integrar o desfile oficial na avenida, a mensagem “Vai de Cânhamo” se insere no ambiente que antecede o espetáculo. E isso não é trivial.
O Carnaval é um dos maiores palcos culturais do mundo. Ao levar o cânhamo para dentro desse universo, a iniciativa amplia o debate sobre sustentabilidade, indústria têxtil e cannabis além dos círculos técnicos e regulatórios.
A presença do tema nos ensaios reforça que tradição e inovação podem caminhar juntas — e que o samba continua sendo, como sempre foi, espaço de transformação social.
Lucas Panoni
Jornalista e produtor de conteúdo na Cannalize. Entusiasta da cultura canábica, artes gráficas, política e meio ambiente. Apaixonado por aprender.
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