Torcedores vestem a camisa da maconha nos estádios

Torcedores vestem a camisa da maconha nos estádios

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Vasconha, Porconnabis e Coxapados são alguns grupos de torcedores que compartilham o desejo de ver a maconha legalizada em todos os estádios do país

Maconha e futebol têm tudo a ver? Para muitos torcedores, sim.

Se, dentro de campo, essa relação ainda é controversa, apesar dos recentes avanços da cannabis terapêutica nos esportes, o fato é que, nas arquibancadas, a erva é quase uma unanimidade — já que, mesmo indiretamente, permeia a experiência dos torcedores em estádios por todo o país.

“A maconha está inserida na cultura dos estádios, das arquibancadas, dos torcedores”, conta o palmeirense Diego Nogueira, fundador do Porconnabis. “Brasil afora, você sempre vai encontrar alguém acendendo um no estádio, é inevitável.”

Da intrínseca associação entre futebol e maconha enquanto atividades de entretenimento e lazer, surgem movimentos espontâneos de torcedores que se valem de símbolos da cultura canábica para levar a pauta da legalização para as arquibancadas.

VasconhaCoxapados e Porconnabis são alguns grupos que, além dos trocadilhos, compartilham o desejo de ver a maconha legalizada (no sentido literal) em todos os estádios do país.

“A Vasconha é uma ideia, é uma luta dentro da torcida do Vasco”, explica Vinícius Santos, que ajuda a disseminar a causa — e a fortalecer a marca — através da produção de bonés, copos, camisetas e adesivos com o nome que ganhou destaque nacional quando o streamer Casimiro apareceu estampando Vasconha na cabeça.

“Sempre vendemos os nossos bonés para amigos. A gente juntava um dinheiro, fazia um aporte de valor, comprava uma quantidade x de bonés e vendia para as pessoas próximas”, explica. “Com a explosão do Casimiro, isso se expandiu muito e não tinha como continuar nesse processo, porque era muita gente abordando nas redes sociais”.

A história que começou na década de 1990, na Varanda Sagrada de São Januário, com um nome e um cântico de origem desconhecida, e seguiu até a recente profissionalização da Vasconha, com registro de marca e, em breve, loja virtual com expansão de produtos.

Ela reflete como a tolerância ao uso social da maconha (cuja legalização, segundo levantamento recente, tem 15,3% do apoio da população brasileira) permitiu a popularização de grupos canábicos que misturam empreendedorismo e ativismo nas arquibancadas.

“A Vasconha é um movimento de luta pela descriminalização da maconha”, explica Vinícius. “Uma torcida de futebol tem uma dimensão muito grande, então essa voz se amplifica. Então, acho que é um bom canal para expor uma visão política contra a criminalização”.

Olho no lance

“Nosso sonho é ter um coffee shop do lado do estádio quando legalizar”, conta Diego. “São pensamentos meio utópicos nesse momento, mas a gente acredita que um dia isso vai acontecer e que teremos a lojinha Porconnabis ao lado do chiqueiro.”

O Porconnabis também começou despretensiosamente, quando alguns torcedores alviverdes decidiram dar um nome ao grupo que costumava se reunir para a session antes e durante os jogos do Palmeiras.

“Começamos fazendo a nossa faixa, depois criamos um perfil no Instagram e a ideia foi ganhando proporções que a gente não imaginava”, diz Diego. “Agora demos uma virada na chave e decidimos expor, mostrar para o mundo o Porconnabis”.

Para isso, o grupo que reúne centenas de torcedores no Instagram conta com a produção de camisetas e adesivos e, pensando no registro e desenvolvimento da marca, já vislumbra incluir no portfólio itens de head shop, como dichavadores, sedas e piteiras.

No entanto, apesar das iniciativas e ambições empreendedoras, o Porconnabis se coloca como um movimento de “um grupo de amigos que cola no estádio e gosta de fumar um beck” que tem o objetivo de, segundo Diego, “quebrar o tabu dentro dos estádios”.

Torcida enga(n)jada

Assim como a canção da Vasconha é entoada para comemorar as vitórias do time, o florescimento de grupos que associam diretamente futebol e maconha é um sinal de que, pelo menos dentro dos estádios, a disposição dos torcedores em levantar essa bola está em alta.

“A galera está saindo mais do armário e só tende a melhorar”, defende Cristiano, torcedor do Coritiba que faz parte dos Coxapados. “Muita gente tinha medo de se expor, em relação a trampo, família, e hoje os tempos são outros”.

E já que a ideia de semear a pauta da maconha começa a brotar nas arquibancadas (para além das torcidas rasta que, indiretamente, erguem essa bandeira há muito tempo), esses grupos de nomes sugestivos que expandem seu alcance a torcedores de todo o país pretendem reforçar a luta também fora dos estádios.

“Temos estruturado algumas ideias porque, já que estamos tomando uma proporção grande, precisamos assumir algumas frentes referentes à causa”, conta Gabril, do Coxapados. Seu colega Biel, também envolvido na gestão do grupo, conclui: “A gente quer fechar um bloco grande na Marcha da Maconha, todo mundo com a camiseta, para mostrar que não é só bagunça, que a gente está pela causa”.

 

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