
O setembro amarelo já acabou, mas e agora
Setembro, um mês para falar sobre saúde mental. Mas por que não falar SEMPRE sobre saúde mental?
Essa é a proposta do texto. Agora que já te dei spoiler, fica mais um pouquinho.
Segundo a Revisão Mundial sobre Saúde Mental da OMS, de 2022, com dados de 2019, 13% da população mundial vive com um Transtorno Mental.Sendo deles: 31% de Transtornos Ansiosos, 28,9% de Transtornos Depressivos e por aí vai.
Durante a pandemia de COVID-19 houve um aumento de 28% para os transtornos depressivos maiores e 26% para os transtornos de ansiedade em apenas um ano! Seriam a ansiedade e a depressão os males do século XXI?
O ser humano é, por natureza, um ser social. Nossas conexões com outras pessoas são um pilar fundamental para nossa saúde mental e bem-estar. Quando essa conexão é quebrada ou drasticamente reduzida, como no isolamento social, as consequências podem ser profundas.
Sem o estímulo das interações sociais, o cérebro pode entrar em um estado de alerta constante. A falta de validação social, de um simples bate-papo ou de um abraço pode desregular nossos hormônios, como o cortisol (associado ao estresse) e a ocitocina (conhecida como o “hormônio do amor” e da conexão).
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O isolamento leva a menos ocitocina e mais cortisol. O cortisol elevado nos deixa mais alertas e reativos a ameaças, o que pode nos tornar mais desconfiados e socialmente retraídos. A falta de ocitocina diminui nossa motivação para buscar conexões. Juntos, esses fatores criam um ciclo que aprofunda ainda mais o isolamento e seus efeitos negativos na saúde mental!
Em um nível mais prático, o isolamento nos rouba a perspectiva. Ficamos sozinhos com nossos pensamentos e, sem o contraponto de uma conversa ou uma opinião externa, os medos e as preocupações podem se agigantar, criando um ciclo vicioso de ansiedade e ruminação.
É como se nossa mente se tornasse uma sala de espelhos, refletindo e ampliando apenas nossas próprias inseguranças. E a depressão também encontra um terreno fértil nesse cenário, alimentada pela sensação de solidão, pela perda de rotina e pela falta de reforços positivos que obtemos ao compartilhar experiências com os outros.
O mais irônico é que, mesmo antes da pandemia, já vivíamos em uma era de “isolamento conectado”. As redes sociais, que prometiam nos unir, muitas vezes aprofundam a sensação de inadequação e solidão.
Comparamos nossos bastidores com o palco perfeitamente editado dos outros, gerando uma pressão silenciosa e constante. A conexão se tornou digital, mas nem sempre foi real.
O isolamento social não afeta apenas nosso humor; ele mina nossa resiliência. Sem uma rede de apoio, os desafios do dia a dia parecem maiores e mais assustadores.
Aquele problema no trabalho que seria resolvido com um desabafo no café com um colega, ou a angústia pessoal que seria aliviada por um conselho de um amigo, passam a ser fardos carregados em silêncio. É esse silêncio que adoece.
A resposta, embora complexa na prática, é simples em seu conceito: reconstruindo conexões. E isso não significa ter uma agenda social lotada, mas sim cultivar conexões de qualidade.
Cuidar da saúde mental é, em grande parte, cuidar das nossas conexões. É nutrir os laços que nos lembram quem somos e que nos dão força para continuar.
Por isso, a conversa não pode se restringir a Setembro. Ela precisa acontecer na mesa do jantar, na pausa do café, nas mensagens de “como você está?” – e na honestidade da resposta.
Porque saúde mental se constrói todos os dias, em comunidade. E a melhor prevenção contra os “males do século” talvez seja resgatar a mais antiga das nossas necessidades: a de estar junto, genuinamente, e presencialmente.
As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.
Raíssa Ximenes
Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis
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