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O setembro amarelo já acabou, mas e agora?



11/10/2025


O setembro amarelo já acabou, mas e agora

O setembro amarelo já acabou, mas e agora

Setembro, um mês para falar sobre saúde mental. Mas por que não falar SEMPRE sobre saúde mental? 

Essa é a proposta do texto. Agora que já te dei spoiler, fica mais um pouquinho.

Segundo a Revisão Mundial sobre Saúde Mental da OMS, de 2022, com dados de 2019, 13% da população mundial vive com um Transtorno Mental.Sendo deles: 31% de Transtornos Ansiosos, 28,9% de Transtornos Depressivos e por aí vai.

Durante a pandemia de COVID-19 houve um aumento de 28% para os transtornos depressivos maiores e 26% para os transtornos de ansiedade em apenas um ano! Seriam a ansiedade e a depressão os males do século XXI?

E qual o impacto do isolamento social?

O ser humano é, por natureza, um ser social. Nossas conexões com outras pessoas são um pilar fundamental para nossa saúde mental e bem-estar. Quando essa conexão é quebrada ou drasticamente reduzida, como no isolamento social, as consequências podem ser profundas.

Sem o estímulo das interações sociais, o cérebro pode entrar em um estado de alerta constante. A falta de validação social, de um simples bate-papo ou de um abraço pode desregular nossos hormônios, como o cortisol (associado ao estresse) e a ocitocina (conhecida como o “hormônio do amor” e da conexão).

Leia também: Saúde mental: Três condições tratadas com a cannabis

O isolamento leva a menos ocitocina e mais cortisol. O cortisol elevado nos deixa mais alertas e reativos a ameaças, o que pode nos tornar mais desconfiados e socialmente retraídos. A falta de ocitocina diminui nossa motivação para buscar conexões. Juntos, esses fatores criam um ciclo que aprofunda ainda mais o isolamento e seus efeitos negativos na saúde mental!

Em um nível mais prático, o isolamento nos rouba a perspectiva. Ficamos sozinhos com nossos pensamentos e, sem o contraponto de uma conversa ou uma opinião externa, os medos e as preocupações podem se agigantar, criando um ciclo vicioso de ansiedade e ruminação.

É como se nossa mente se tornasse uma sala de espelhos, refletindo e ampliando apenas nossas próprias inseguranças. E a depressão também encontra um terreno fértil nesse cenário, alimentada pela sensação de solidão, pela perda de rotina e pela falta de reforços positivos que obtemos ao compartilhar experiências com os outros.

O paradoxo moderno

O mais irônico é que, mesmo antes da pandemia, já vivíamos em uma era de “isolamento conectado”. As redes sociais, que prometiam nos unir, muitas vezes aprofundam a sensação de inadequação e solidão.

Comparamos nossos bastidores com o palco perfeitamente editado dos outros, gerando uma pressão silenciosa e constante. A conexão se tornou digital, mas nem sempre foi real.

O isolamento social não afeta apenas nosso humor; ele mina nossa resiliência. Sem uma rede de apoio, os desafios do dia a dia parecem maiores e mais assustadores.

Aquele problema no trabalho que seria resolvido com um desabafo no café com um colega, ou a angústia pessoal que seria aliviada por um conselho de um amigo, passam a ser fardos carregados em silêncio. É esse silêncio que adoece.

Então, como quebramos esse ciclo? 

A resposta, embora complexa na prática, é simples em seu conceito: reconstruindo conexões. E isso não significa ter uma agenda social lotada, mas sim cultivar conexões de qualidade.

  1. Comece pelo mais simples: Mande uma mensagem para aquele amigo com quem não fala há tempos. Faça uma chamada de vídeo em vez de apenas curtir uma foto. Pequenos gestos de aproximação reativam os laços.
  2. Encontre pessoas com gostos afins: Participe de grupos com interesses em comum, seja um clube do livro, uma aula de dança, um projeto de voluntariado ou um esporte. Estar com pessoas que compartilham paixões semelhantes cria um senso de pertencimento fundamental.
  3. SEJA VULNERÁVEL!: Falar sobre saúde mental ainda é um tabu, mas a vulnerabilidade gera conexão. Ao compartilhar como você se sente (com pessoas de confiança, claro), você dá permissão para que os outros façam o mesmo. E descobre que não está sozinho.

Cuidar da saúde mental é, em grande parte, cuidar das nossas conexões. É nutrir os laços que nos lembram quem somos e que nos dão força para continuar.

Por isso, a conversa não pode se restringir a Setembro. Ela precisa acontecer na mesa do jantar, na pausa do café, nas mensagens de “como você está?” – e na honestidade da resposta.

Porque saúde mental se constrói todos os dias, em comunidade. E a melhor prevenção contra os “males do século” talvez seja resgatar a mais antiga das nossas necessidades: a de estar junto, genuinamente, e presencialmente.

REFERÊNCIAS

  • “Revisão Mundial sobre Saúde Mental” – Organização das Nações Unidas (2022)
  • “Loneliness, social isolation, and their differential impact on cognitive function in older adults” – The Lancet Healthy Longevity (2023)
  • “The role of oxytocin in social bonding, stress, and well-being” – Frontiers in Psychology (2021)
  • “The pain of social rejection” – Associação Americana de Psicologia (2012)

Sobre as nossas colunas

As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo. Além de de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.​

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Raíssa Ximenes

Médica pela Universidade Federal de Alfenas. Prescrevendo Cannabis Medicinal desde 2022, com enfoque em Saúde Mental. Vegetariana, amante da sétima arte, da boa música e de explorar o mundo. @doutorapsicannabis