• 27 de junho de 2022

Quem planta maconha faz mais pelo combate ao tráfico do que o Governo Federal

 Quem planta maconha faz mais pelo combate ao tráfico do que o Governo Federal

Esses dias uma amiga advogada me procurou para contar que ela e o seu companheiro foram detidos após a vizinha denunciar a pequena plantação de maconha que eles tinham no quintal. A polícia baixou lá, confiscou tudo e, agora, eles vão responder por tráfico de drogas.

O uso da maconha entrou na vida dela após perder seu noivo muito jovem e ter ganhado muito peso. A depressão foi iminente diante de tanta dor e desequilíbrio. E foi na Cannabis que ela encontrou alívio e cura para o seu transtorno.

Anos depois, conheceu seu novo parceiro, que sofre com ansiedade. Juntos, decidiram que não queriam mais ir na biqueira comprar maconha. Eles sabiam que assim parariam de alimentar o tráfico e teriam mais controle da qualidade da Cannabis que estavam usando.

Vamos fazer um cálculo? Para extrair o óleo de Cannabis, o casal deveria usar em média 30 gramas da planta para cada um litro de álcool de cereais (caso esse fosse o processo adotado). Claro que não existe uma tabela de preço oficial na biqueira, porém, digamos que 30 gramas de prensado na mão do traficante custaria a eles R$ 50.

Um valor acessível para pessoas de classe média, né? Mas vamos à realidade custosa desse simples gesto promovido por apenas duas pessoas num país em que a substância ilícita mais consumida é a Cannabis, a qual já foi usada pelo menos uma vez na vida por 7,7% dos brasileiros entre 12 a 65 anos.

Um prejuízo social e econômico imensurável

A real, é que são tantos os setores impactados pela “guerra às drogas” que fica difícil aferir o quanto realmente é gasto em todo o processo. Mas levantei aqui alguns números superficialmente para fazer qualquer vizinho pensar duas vezes antes de denunciar alguém que planta maconha em casa.

Em 2020, a Polícia Federal fez apreensões recordes de centenas de toneladas de drogas (principalmente maconha). Enquanto esse desgoverno comemora essas ações contra o tráfico, especialistas apontam que os índices de violência seguem latentes.

E pra enfiar todo esse povo na cadeia, foram criadas mais de 15 mil vagas no sistema penitenciário ao custo de R$ 515 milhões.

Em 2018, os custos com a criminalidade no Brasil corresponderam à 4,38% do PIB (Produto Interno Bruto), chegando a R$ 285 bilhões, entre 1996 e 2015, sendo 0,26% foi destinado ao encarceramento, um total de R$ 741 milhões.

Então, vamos para uma pequena equação.

Mais de 40% dos 730 mil presos no Brasil estão envolvidos em crimes relacionados às drogas, de acordo com a Agência Senado.

Dados do TCU (Tribunal de Contas da União) apontam que o Brasil gastou R$ 15,8 bilhões para custear os sistemas prisionais em 2017.

Deste valor, quase metade foi gasto para manter 292 mil presos envolvidos de alguma maneira com tráfico de drogas. Portanto, podemos dizer que mais de R$ 6.3 bilhões foram gastos somente em 2017 pra bancar o sistema penitenciário em relação a crimes ligados às drogas, sendo a maconha a principal delas.

Aí, do outro lado, o tráfico de drogas movimenta R$ 17 bilhões por ano, segundo o general da reserva do Exército Alberto Mendes Cardoso, ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência da República, que é à favor da legalização das drogas.

Um estudo da Câmara Legislativa sobre os impactos econômicos da legalização das drogas no Brasil, feito em 2016, traz uma pesquisa norte-americana que estima um impacto econômico da legalização de drogas, em geral, e da maconha, em particular. Os dados apontam que a legalização das drogas economizaria aproximadamente US$ 41,3 bilhões por ano em gastos do governo para o seu combate.

Apesar de não conseguirmos aferir ainda os gastos com a saúde num cenário de legalização, já dá para fazer alguns cálculos, como a economia de quase R$ 4 bilhões ao ano somente no que envolve gastos com o sistema prisional e com repressão policial, de acordo com o relatório da Câmara.

Lembrando que a maconha é o personagem principal em todo esse sistema.

E aí? Vai denunciar, tia?

Bom, são tantos números, tantos dígitos, tantos gastos, que é fácil se perder. E isso que apresentei aqui é uma singela parte da grana e dos prejuízos econômicos e sociais que o governo e a sociedade têm com falácia das guerras às drogas, porque ainda é preciso incluir os prejuízos em setores como saúde, assistência social, segurança entre outros.

E vou deixar para um próximo texto os prejuízos humanos e econômicos ligados ao trabalho infantil no tráfico, o encarceramento das mulheres por crimes relacionados às drogas e as mortes de jovens negros e pobres na mão do Estado. Não porque seja menos importante, muito pelo contrário, mas é porque quero voltar naqueles R$ 50 gastos na biqueira pelo casal.

Bom, a partir do momento que eles decidiram parar de comprar maconha de traficante, eles quebraram o elo com todo esse sistema custoso, irresponsável, ineficiente, assassino, racista, desumano, hipócrita e tantos outros adjetivos que dariam um artigo por si só.

Será que a tiazinha vizinha do casal que fez a denúncia tem noção disso?

Tudo isso é fruto de uma construção social manipuladora que fez da droga uma inimiga fomentada pelo proibicionismo, dogmas religiosos, preconceitos, racismo e desinformação.

A dependência química em excesso também é filha desse processo, porque transforma a droga em tabu e deixa os dependentes à margem, abrindo espaço para o preconceito que os coloca em uma situação de total desesperança em relação à vida e o tratamento.

Então, quem faz mais contra o tráfico de drogas? Quem planta maconha em casa ou Governo Federal e seus puxadinhos com gastos exorbitantes?

O mercado existe por demanda.

Se conhecer alguém que planta maconha, em vez de denunciar, sugiro que vá lá e agradeça por ter escolhido e ter tido o privilégio de parar de alimentar o tráfico e, assim, colaborar para uma sociedade mais justa e menos violenta.

Panaceia Canábica

Caroline Apple é jornalista, publicitária e idealizadora e apresentadora do projeto Namastreta, onde aborda temas como política, religião, ciência e diretos humanos pelo olhar da espiritualidade e do autoconhecimento. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, Agora SP, R7 e UOL. Foi repórter do Sechat, onde adentrou para o universo da cannabis. Hoje atua como ghostwriter de textos sobre Cannabis Medicinal e gerencia as redes sociais de empresa do ramo. É uma entusiasta da planta e de todo o seu potencial terapêutico, além de acreditar no cânhamo como o futuro da indústria como uma forma de aliviar o planeta de processos insustentáveis, como o uso do petróleo.

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