Desde que a planta se tornou uma commodity, seu uso foi banalizado. Mas a cobra já começou a comer a si mesma pela cauda.

O futuro da maconha é ancestral
Ao mesmo tempo em que a cannabis está na tese de habeas corpus dos advogados, nas prescrições de médicos e dentistas, na carteira variada de investidores e na lista de faturamento de grandes laboratórios farmacêuticos, uma voz no fundo da cabeça do ativista médio ecoa: “Quando a planta vai ser legalizada para crescer em paz?”.
A resposta pode ser um simples “ninguém sabe”, mas o buraco é mais embaixo: a cannabis é um commodity. O simples fato de ser chamada de cannabis – e não maconha – já demonstra isso.
Enquanto o uso medicinal da planta é normalizado, a “guerra às drogas” continua fazendo milhões de vítimas no Brasil todos os anos. Sabemos quais são os corpos que caem a cada operação policial que caça plantas ilegais. E sabemos que as drogas vencem essa guerra todo ano.
O que ninguém parece se lembrar é da história.
A forma como a planta se relaciona conosco é a mesma forma que nossos ancestrais pretos se relacionavam.
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Não é à toa que maconha em inglês é “weed”, que significa erva daninha. A cannabis é uma planta versátil, com a capacidade de se desenvolver em quase todos os ambientes.
O mais interessante é que a incidência de luz solar e qualidade do solo vão afetar diretamente na quantidade dos fitocanabinoides produzidos: em termos bem generalistas, quanto mais sol, mais THC. Sabendo disso, fica claro que o clima temperado europeu não favorece muito a síntese de todos os fitocanabinoides.
Por isso, a história conta que a produção de cannabis na europa do século XIV era marcada pela produção têxtil, principalmente de fibras têxteis de alta qualidade utilizadas para a produção de cordas e velas para as embarcações da época. O bom e velho cânhamo, de baixo teor de THC e nenhuma propriedade psicoativa.
O clima tropical já nos mostra outra perspectiva, principalmente em relação à síntese dos fitocanabinoides. O valor escondido da planta está na estrutura química dela, ou seja, temos uma maior produção de fitocanabinoides, o que leva a uma infinidade de possibilidades
A partir disso, podemos entender como esses fatores climáticos se correlacionam para o uso ancestral da planta. Existe um fator intrínseco ligado a maneira como cada uma dessas sociedades integrou a planta ao seu desenvolvimento e isso se relaciona como vemos ela na sociedade brasileira, afinal de contas nossa ancestralidade é multicultural.
Apesar do cânhamo fazer parte da cultura europeia, ele não estava ligado intimamente aos ritos sociais e credos que a sociedade europeia construiu ao longo dos séculos, diferente de outros povos como os árabes, africanos e chineses. Isso fez com que um fenômeno muito interessante acontecesse na colônia portuguesa.
Com a interação entre africanos, nativos e portugueses, uma nova cultura e uma nova forma de ver aquela planta que antes era usada apenas com fins industriais surgiu.
Assim, não demorou para que os grupos sociais que estavam habitando a recém descoberta “terra brasilis” utilizassem aquela planta para novas finalidades, além da têxtil: a medicinal e a ritualística.
A finalidade têxtil é facilmente encontrada em relatos históricos como a iniciativa das feitorias reais do linho-cânhamo que tinha como única função abastecer a metrópole dessas fibras multifuncionais.
Já a finalidade medicinal esteve presente principalmente nos boticários através de óleos, bálsamos, “cigarros índios”, entre outras formas de administração desse poderoso remédio herdado dos nossos ancestrais africanos.
Com a institucionalização do racismo no Brasil, a chegada de correntes filosóficas como o iluminismo a partir do século XVII e do Darwinismo Social no século XIX, não demorou até o racismo ser institucionalizado no Brasil.
Infelizmente, a hstória amarga o desaparecimento de muitas culturas ligadas ao conhecimento ancestral de povos nativos e africanos, bem como o proibicionismo causado por motivações capitalistas, como o surgimento de grandes conglomerados industriais.
Aliás, a Conferência do Ópio no início do séc XX é um exemplo dessas motivações.
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Segundo a IA da Google, podemos definir uso ritualístico como:
“A utilização de determinadas substâncias, plantas, objetos ou comportamentos dentro de um contexto estruturado por tradições, religiões ou costumes comunitários, com o objetivo de alcançar estados alterados de consciência, conexão espiritual, cura ou coesão social.”
Tendo isso em vista, a maconha, diamba, ma’kanha, cannabis, pango — entre várias outras formas de se referir a planta – sempre foi usada para o fim ritualístico no Brasil. Seja através de rituais religiosos em que a planta era consagrada para conexão com ancestrais em busca de conselhos, seja para aliviar o sofrimento físico e psíquico que a escravidão causou em nossos ancestrais.
Afinal de contas, mesmo que você não seja descendente de negros, deve concordar que o povo africano é profundamente responsável por construir as bases culturais do Brasil.
Com o passar dos anos, esse uso ritualístico começou a ganhar novas formas através do clube dos diambistas, uma espécie de associação/confraria onde os marginalizados se reuniam para professar sua fé, fazer música, jogar capoeira, discutir sobre a sociedade e principalmente comemorar que apesar de todo o sofrimento, permaneciam vivos e resistentes a opressão do sistema.
Esses clubes foram se transformando ao longo de nossa história e ainda hoje podemos encontrar seu grande legado nas rodas de samba, batalhas de rima, associações de pacientes e grupos espiritualistas que buscam a conexão com o divino através da planta.
Apesar de todos esses espaços de conexão, a planta foi banalizada e o uso ritualístico deu lugar ao consumo de uma commodity. A cobra começou a comer a si mesma pela cauda. O que muitos fazem como um ato de resistência, outros fazem simplesmente por ser um lifestyle.
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Por uma perspectiva otimista, o lifestyle da maconha tem relevância: gera debate, polêmica e até empregos em eventos grandiosos. Mas a ironia é que, enquanto isso, a marginalidade e a violência policial de um estado truculento cresce e pesa sobre a pele dos donos legítimos dessa cultura.
As drogas ganham a guerra todos os anos pois fazem as engrenagens do sistema girar. O negro morre, o povo sofre, as manifestações acontecem, mas no fundo, nada muda. A marginalização e a segregação fazem parte do sistema higienista de uma necropolítica que segue em curso até hoje.
Seria ingenuidade acreditar que uma coluna em um site especializado vai fazer com que os poderosos mudem seus pensamentos da noite para o dia, mas é minha tarefa como educador canábico colocar holofotes nessas contradições e explicitar que, enquanto eles ganham dinheiro, nós perdemos a vida.
Talvez o que pode fazer a maconha seja regulamentada rapidamente não seja seu uso medicinal, e sim seu uso ancestral, tradicional e religioso.
Talvez sejamos nós, a classe média esclarecida, cercada pelos privilégios sem exatamente usufruir deles, quem precisa dar voz ao nosso passado ancestral, para que nosso conhecimento no presente faça com que um futuro próspero aconteça.
Dessa forma, o empresário da Faria Lima pode até embolsar algum dinheiro, mas precisamos que um baseado no bolso pare de ser visto como um esquema de fraude bilionário ao sistema financeiro.
Clube Diambista
Inspirado pela tradição histórica dos antigos clubes diambistas brasileiros, o farmacêutico Guilherme Salgueiredo propõe um espaço de estudo e reflexão sobre a Cannabis. Nesta coluna, ciência, história e prática clínica se encontram para ampliar o entendimento sobre o uso medicinal da planta e fortalecer a educação em saúde baseada em evidências.
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