• 8 de maio de 2021

O CBD é mocinho e o THC é vilão?

 O CBD é mocinho e o THC é vilão?

foto: freepik

Há exatamente 1 ano em dezembro de 2019,  a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a resolução que permite a produção de produtos derivados da planta Cannabis sativa, popular maconha, para fins medicinais no Brasil.

As empresas terão que importar extratos brutos da planta para desenvolver e vender o produto aqui. Serão permitidos produtos apenas com baixo teor de THC (tetrahidrocanabinol), mas com altas concentrações de CBD (canabidiol).

Isso quer dizer que apenas o CBD é considerado remédio, enquanto o THC pode fazer mal? A indústria da Cannabis tem utilizado o slogan THC free a fim de promover seus medicamentos ricos em CBD, deixando claro que o “vilão” THC não faz parte de sua formulação. Mas será mesmo que existe mocinho e vilão na mesma planta?

Sabe-se hoje que a Cannabis possui mais de 100 substâncias chamadas de canabinoides, compostos específicos dessa família de plantas. Dentre essa centena, o THC é um dos mais abundantes – e o grande responsável pelos efeitos psicoativos da erva.

Em outras palavras, é o THC que causa efeitos inebriantes e de prazer buscados pelo usuário recreativo, e que deixa o usuário “chapado”.

Devido à popularização da relação entre THC e uso recreativo, a jovem indústria farmacêutica canábica tem tentado se desvincular do THC para promover o CBD. Ao informar que seus medicamentos são livres de THC, a indústria tem a intenção de passar a mensagem de que seus produtos não possuem nenhum risco de induzir efeitos psicoativos.

Essa abordagem é compreensível pelo ponto de vista de marketing, cujo objetivo é “emplacar” seu produto entre médicos e pacientes, que, assim como outros cidadãos, também podem possuir preconceitos.

No entanto, essa associação de que o THC é um vilão que apenas serve para “chapar maconheiros”, de forma direta ou indireta, presta um desserviço à medicina – e até ao futuro próximo da própria indústria farmacêutica canábica. Por quê?

Quando falamos em toxicologia, o conceito fundamental dessa ciência data do século XVI, cunhada pelo farmacêutico, médico e alquimista Paracelsus: Sola dosis facit venenum (a dose faz o veneno). Portanto, sim, o THC pode induzir efeitos psicoativos e efeitos tóxicos – aliás, qualquer substância, inclusive o CBD, pode induzir toxicidade. Mas quando falamos de toxicologia, tão importante quanto falar da substância, é falar da sua dosagem.

Muitos estudos e autores têm demonstrado que o THC induz efeitos terapêuticos – em doses muitas vezes abaixo da dose necessária para induzir efeitos psicoativos e inebriantes.

Esse fenômeno ocorre, provavelmente, porque o corpo humano produz canabinoides (em baixíssimas quantidades), que são moléculas muito semelhantes às moléculas encontradas na maconha – e que possuem uma série de funções fisiológicas.

Na prática, todos nós produzimos, em nosso cérebro, pequenas quantidades de “maconha” todos os dias – e dependemos destas substâncias para nosso equilíbrio fisiológico e manutenção de boa saúde.

Assim, esse sistema fisiológico, elucidado há aproximadamente 30 anos – que se chama Sistema Endocanabinoide – é bastante sensível, ou seja, opera com doses muito baixas.

Quando nosso organismo tem sua capacidade de produção interna de “maconha” reduzida, várias funções fisiológicas podem ser desreguladas, implicando no sono, memória, fome, humor, metabolismo, estresse oxidativo, entre outros fatores.

Assim, o THC em baixas doses mimetiza substâncias produzidas pelo nosso organismo que, muitas vezes, estão em déficit em nosso corpo – ou seja, o THC pode compensar esse déficit de produção endógena de canabinoides.

Diversos são os estudos que vêm demonstrando que a associação de THC ao CBD, seja em formulações específicas ou no extrato inteiro da planta, induz uma maior eficácia e segurança aos medicamentos.

A essa sinergia dá-se o nome de “efeito comitiva” ou “efeito entourage”. Um recente artigo brasileiro comparou dezenas de estudos que utilizaram CBD, isoladamente ou em associação ao THC, para tratamento de crianças com epilepsia refratária.

A conclusão desse estudo foi que os medicamentos que possuíam THC e CBD, em comparação aos medicamentos apenas com CBD, necessitaram doses mais baixas para reduzir as crises convulsivas e induziram menos efeitos colaterais aos pequenos pacientes.

Embora as moléculas de THC e CBD são similares, também possuem diferenças interessantes que proporcionam a elas capacidades de ligar-se a locais distintos em nosso organismo, os chamados “alvos terapêuticos”, fazendo com que o leque de funções exercidas aumente.

Então, quando as duas moléculas estão juntas, seus efeitos, via de regra, são melhores e mais amplos. O CBD, por exemplo, possui maior potencial para tratar epilepsia, depressão e ansiedade. Enquanto isso, o THC parece ser mais eficiente para tratar dor, espasmos, anorexia e demências.

Por este motivo, em breve o THC – ou extratos de Canabis ricos em THC – chegarão aos pacientes e, nesse momento, a indústria farmacêutica perceberá que deu um “tiro no pé”. Ela terá que trabalhar contra o estigma que ela mesma ajudou a reforçar e, talvez, precise criar algum slogan parecido com este: “THC também é remédio!”

 

Francisney Nascimento

Francisney Nascimento

Francisney P Nascimento - Farmacêutico e Mestre em Farmacologia (UFSC). Doutor em Farmacologia (UFSC/Dalhousie University). Pós-doutorado em Neurofarmacologia (McGill University). Professor de Farmacologia Clínica e de Canabinologia Médica nos cursos de Medicina e Mestrado em Biociências na UNILA (Foz do Iguaçu). Coordenador do Lab de Neurofarmacologia Clínica. Realiza pesquisa clínica com canabinoides desde 2017. Instagram: neypnascimento

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